sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Rio de Janeiro: A Cidade do Medo.



Rio de Janeiro. Mês de novembro. Violência, terror e medo assolam a cidade maravilhosa, plenamente admirada por seus encantos geográficos e dona de um relevo artístico incomum. A cidade é tão convidativa e bela, que é um dos principais interesses turísticos de cidadãos do Brasil e do mundo, mas está sendo, infelizmente, objeto de notícias diárias pelas mídias sociais, não por sua excedente beleza, mas pelos conflitos de natureza criminal iniciados no início da semana. Moradores da favela (em maioria residentes no "Morro do Alemão"), estão estabelecendo na cidade uma zona de conflito aberto, ilegal, inconsequente e irreversível, resultando em violência, desordens e vítimas. Os moradores da cidade estão impossibilitados de terem acesso livre as vias públicas, seja para trabalhar, estudar e, justificadamente, tentam se proteger em suas casas, com medo das "balas perdidas" e da violência aterrorizante que não escolhe cor, classe, idade ou sexo: é para todos. O Estado do Rio de Janeiro, como tentativa de combater e dirimir as atuais circunstâncias de violência, usam como alternativa de trabalho à força militar, disponibilizando para as áreas de risco militares para patrulhar, refrear e usar todas as possibilidades para manter a ordem e aniquilar o iminente risco de mortes.  Em meio a muita desordem, o responsável pela execução das atividades militares, noticia para a população que "Na luta entre o bem e o mal, o bem irá vencer".

 


A estrutura social, política e administrativa coloca a "Segurança Pública" com um dos principais fatores de relevância atual. Nas eleições, os eleitores questionaram de forma significativa sobre sua segurança, colocando outros assuntos extremamente relevantes, como a educação e saúde, como questionamentos secundários. A sociedade, em razão da violência e criminalidade, está priorizando a segurança pública como meio de proteção e segurança individual e coletiva. Os governantes dos Estados brasileiros aplicam como ferramenta de combate à violência o mesmo programa: o aumento da segurança pública através de policiamento. A ação da polícia civil, militar e federal são definidas como as únicas alternativas para manutenção da segurança pública, investigação e controle da criminalidade, mas em meio a tantas ações de militarismos, armas e guerras, há um questionamento pouco levantado: por que existe a violência? Qual a origem da criminalidade na sociedade e do vandalismo criminal que atualmente enfrenta a cidade do Rio de Janeiro e todo o país? Parte da população e a maioria dos governantes definem a ação militar como único meio de refrear a violência. A curto prazo, pressionados por uma realidade de medo, esta é, sem dúvida, a melhor decisão, mas a longo prazo, no qual a sociedade verá a olho nu a violência se repetir e, mais uma vez, a criminalidade se expandir e deteriorar, teremos que nos conscientizar que a origem da criminalidade deve ser mais priorizada do que as medidas paliativas para controle da mesma.




Quem são os criminosos? A criminalidade surge provinda de qual formação e circunstância?  Por sua vez, é necessário, também,  compreender qual é o processo de formação da criminalidade, seus participantes e qual o papel que temos na mesma. Somos só vítimas ou, também, colaboradores indiretos para sobrevivência da criminalidade? Questionamentos de um estudo social que deve urgentemente ser respondido para o início de uma formulação apropriada, inteligente e precisa para sanar esta problemática. O tráfico de drogas, por exemplo, persiste porque há usuários, compradores. No mercado do consumo, se determinado produto não vende, logo o mercador cessa sua comercialização, pois não havendo capital, não é valorizado no mundo capitalista. O tráfico de drogas irá acabar, quando o consumo de drogas não mais existir. E, o combate as drogas, está estritamente ligado a educação. Educação familiar, moral, escolar e social. O cidadão necessita compreender os malefícios da droga e dependência que ela causa. O usuário é o acionista majoritário do narcotráfico. Sem ele, a empresa é falida. Após ser aprisionado no mundo das drogas, o indivíduo, já doente, é o principal colaborador da compra e venda  dessas substâncias na atualidade. Seja o cidadão pobre ou o rico da zona sul, ao subir no morro e comprar a substância dotada da pseudo-alegria, ocorre a morte de duas pessoas: de quem vende e de quem compra. Os dois perdem.



Colaboramos de várias formas para a ação criminal e os cidadãos que ingerem drogas financiam juntamente com os traficantes o de tráfico de drogas, contribuindo para  assassinatos, roubos e, principalmente, para marginalidade. Portanto, utilizar armas, poder e militarismo são apenas medidas paliativas, mas que não aniquilam definitivamente o problema da violência. Se só o serviço militar fosse  necessário para banir a violência e manter a ordem, pergunto-me o porquê da criminalidade não ter cessado, visto termos policiamento e programas de segurança pública, mesmo que ainda precários. O governo não é o único responsável pelo combate ao crime, tampouco a sociedade civil. Nem todo político e policial é corrupto, nem todo pobre ou favelado é bandido. Dentro do coletivo, não há só vítimas ou mandatários. Somos um grupo. Um grupo que interdepende de todos os elementos que nele estão inseridos. Enquanto o egoísmo continuar a habitar no caráter social, separando pessoas por classe, cor e zonas, sempre existirá marginalizados e a desigualdade social, resultando em revolta e conflitos de violência social.




Na chamada luta entre o "bem e o mal", os indivíduos continuam a se dividir em dois grupos: os que matam por ódio, de forma errada (bandidos) e os que matam pela lei e coerência (polícia). A falta de um sistema social humanizado que trata como iguais os seres humanos e que regenera o criminoso e ilegal causa resultados irreparáveis à sociedade. Ao contrário da regeneração, é a degeneração a condutora na estrutura de condenação da justiça social, abandonando na sociedade indivíduos mais doentes e revoltados, o que gera mais violência. Quando um indivíduo viola as leis, fere pessoas e, sem nenhum pudor ou código de moral causa danos ao próximo, reflete um cidadão que não teve moral, educação, valores e certamente sofreu alguma marginalização no decorrer da sua formação humana. Indivíduos que vão continuar a agir, existir e, com ou sem policiamento, exercer suas ações, até que a sociedade trabalhe para combater a criminalidade, não mediados por armas, mas propiciando aos homens formação moral e social, embasada na ética, consciência e dignidade de vida humana.





domingo, 7 de novembro de 2010

Passos: O Caminho Para Luz.







Todo dia é tempo de mudar e a cada dia a vida pede uma transformação. Às vezes pede passos lentos (nos ensinando a como firmar os frágeis pés), noutras passos mais largos, causando-nos um medo de caminhar e fraquejar durante a partida. Sejam fracos ou rápidos, ela sempre exige um passo, uma mudança estranha que parece difícil em demasia e pesada para alma alcançar. E o mestre, transbordando de sabedoria e bondade, criou o sol para iniciar o dia, para guiar os passos do caminhante, mostrando a todos que a luz que ilumina o dia é a que zela por essas mudanças, fazendo com que a luz infinita da estrela do universo guie nossos passos e possibilite novas oportunidades. Em cada amanhecer, quando a luz reflete nos olhos, o universo grita: mais uma chance. Chance de mudar, de olhar e questionar todo o profundo universo de nosso próprio eu: nossa alma. Chance de percorrer dentro do nosso infinito mundo interior, e não por caminhos desconhecidos (ou desnecessários), pois encontraremos dentro da nossa inteligência viva e lutadora, muitas mazelas para corrigir, muitos vontades para negar e muita educação para nos guiar ao patamar da sabedoria, da espiritualidade pura e da bondade como principal forma de amar e ser amado, na dinâmica límpida e crescente de saber a semântica do aprender e respeitar.




Para todo ser escalador, o caminho parece demorar-se por demais, e difícil é fazê-lo até alcançar o topo desejado; mas em seu íntimo sabe que em nenhum lugar verá tanta luz a iluminá-lo, quanto nas belas camadas do topo de suas escaladas, onde receberá a luz do infinito universo e poderá ver o que nunca havia visto. Sabe bem o caminhante que são muitas as escaladas que deve superar (principalmente as da sua fragilidade e limitação), mas ao sentir um pouco de luz sobre si, ratifica que a luz eterna só será alcançada quando terminar suas escaladas e tarefas, sem cansaço ou lamúrias, mas ciente de que só encontrou a suprema felicidade depois de abandonar, pelos caminhos percorridos, em cada passo, as pobrezas trazidas no peito; as limitações impregnadas na alma e os defeitos inerentes ao seu ser e, assim, em consequência de cada passo realizado, encontrar o caminho para luz.







terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dilma, a Primeira Mulher Presidenta do Brasil.



                   Dilma Vana Rousseff, eleita Presidenta do Brasil no ano de 2010.


            "honrar as mulheres, cuidar dos mais frágeis e governar para todos"
                                                                                              Dilma Vana Rousseff.




As eleições para escolha do novo Presidente da República do Brasil resultaram, pela primeira vez no país, em uma escolha que determinou um recomeço absolutamente diferente, caracterizado principalmente pela inovação, mudança e busca de um novo posicionamento político e social. A nova chefe do poder executivo, senhora Dilma Vana Rousseff, mudou não só a ortografia do substantivo referente ao termo, retirando a última vogal da palavra presidente para presidenta, mas iniciou um processo político, social e histórico relevante para história do Brasil. Dilma ter sido eleita caracterizou certa emancipação política já em andamento há um  tempo significativo na sociedade brasileira por tantas outras representantes na política, mas, desta vez, a projeção será, também, de natureza mundial, evidenciando um quadro que há tempos existe em outros países: a mulher com atuação dinâmica, política e administrativa na sociedade. Durante todo o curso das eleições foi possível evidenciar a notória preparação que as candidatas Dilma e Marina demonstraram, atuando satisfatoriamente nas principais demandas do país e cientes das necessidades de reparo, administração e ordem pertinentes nos setores de gestão pública. No decorrer das eleições ficou abrangentemente claro que o cargo seria para uma das candidatas e não dos candidatos.



Dilma, inegavelmente foi beneficiada pela gestão do ex-presidente Lula, mas não a ponto de ser determinante para cada eleitor escolhê-la somente por este fato, pois foi o talento político da candidata que estabeleceu credibilidade durante todo o processo eletivo. Dilma ter sido eleita presidenta apresentou uma significativa alteração na formação política dos eleitores, uma delas foi a "quebra" do preconceito do papel da mulher participante em qualquer âmbito político e o desejo de renovação das propostas realizadas, para que fossem mais viáveis para os problemas da sociedade brasileira e pertinentes para mudanças sociais. Ouso comparar esta eleição, com a mesma  da população estadunidense que, ao eleger  Barack Obama como Presidente dos Estados Unidos da América, deu um significativo passo na luta contra a barreira do preconceito racial; os eleitores buscaram na política abrangente de Obama meios de sanar tantos preconceitos, diferenças e monopólio daquele país; tanto nos EUA quanto no Brasil foi necessário durante toda a eleição lutar contra o preconceito, aqui de cunho sexual, lá de natureza racial. O fato é que esta inovação política é significativa para instalação de mudanças socias e comportamentais que, iniciadas atualmente, irão perpetuar por outros governos e sociedades. É a ratificação da mudança nos valores dos eleitores brasileiros que buscam novos caminhos e possibilidades de progresso. Sendo o povo construtor da sociedade e esta reflexo do querer e ser do povo, há sinais de perspectivas positivas na construção de uma sociedade equilibrada, justa e democrática e, de certa forma, esses princípios estão sendo buscados dentro desta nova mudança. E, sendo a eleição da Presidenta Dilma Rousseff uma profunda mudança política, inovação social e cultural, há possibilidades reais de estarmos alcançando um estrutura mais viável e políticamente congruente para surgimento integral da democracia.



Dilma, a primeira mulher presidente do Brasil! E eu, como mulher, cidadã e idealista, sinto-me feliz por estar vivenciando esse novo panorama.




quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Medo.



                                        O Grito, Edvard Munch, 1893

                                                

Tenho medo do vazio que habita minha morada. Tenho medo desse inimigo interno. Ele não é como os outros: não explode e sempre me tem como amiga; me convence a defini-lo como normalidade, personalidade. É um vazio que nada preenche e, por isso, tudo é inalcançável. Tenho medo, pois ele é silencioso, não avisa a hora que vai gritar e exigir seu espaço. Não sei se ele vem de dentro ou de fora, ou se o fora construiu o que tem dentro ou o dentro quer partir para fora. Ele me conduz a uma angústia calada, a um sempre julgar e achar conceitos pré-definidos para o mundo. Assim, produzo, dentro de mim, com o auxílio de meu inimigo, as mazelas que minha pobre alma carrega; norteando a insegurança de negar a vida, de viver o outro e de multiplicar energias obscuras, anuviando a estrada que meus olhos passam a não enxergar. Em meio a conflitos e guerras declaradas no mundo, tenho paura desse estranho que há em mim, no meu mundo, que obriga-me a abrir os olhos e desenhar o outro, mas não permite que feche os olhos e visualize os terrenos pedregosos que guardo em minha alma. Tenho medo. Muito medo dessa criatura, que por ter só uma via (mesmo quando quer prejudicar o outro) prejudica sua própria morada: o meu eu; infestando-a de cores negras, pesadas, que impossibilitam o caminhar e a produtividade da energia geradora, geradora de uma busca  maior, a absoluta. Sinto medo, um medo que gera medo de ter mais medo e de não poder combater algo que está unido, próximo, numa coesão incessante de características que escondo em mim. Numa incoerência que finge julgar-se normal, cotidiana, que só cria, na verdade, mais uma máscara do engano, em que a reforma íntima seja considerada para o outro, não para si; em que meus inúmeros erros sejam catalogados como levianos e não provindos de meu inimigo estranho, necessitado de correção, que duela constantemente com a escassa força bondosa que percorre em mim.




É, tenho paura desse medo. Desse vazio estranho, do confronto entre a coerência e discrepância, da transição triste realizada com meus achismos. E, vivendo num mundo de lágrimas e alterações, não tenho medo do que ele me faz, mas do que faço com ele. Os erros desse mundo, não me fazem mal, não sou dona deles, mas os erros do meu mundo, do inimigo que está em mim, tremo de medo, pois sou dona dele e mandante de tudo o que sai de mim. Caminhando entre minhas dualidades, tentando encontrar um meio de sanar as gêneses de minhas contrariedades e de educar esses "eus" que guardo, desejo que esse "eu" me abandone, que permaneça fora de mim, para  extrair a condição lúgubre de minha morada e permitir que a luz possa iluminar minhas estradas e educar o fragmento de luz pequena e escondida que há em mim, nascendo a virtude, que presenteia com a sabedoria minha alma ainda tão pequena, um ser vivente no universo infinito de vidas, mas que um dia volitará permeada de amor, já distante de seus medos.




quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Valor Contemporâneo do Humano Produto.




A inovação e abrangência do mundo contemporâneo fez emergir a ideia de que nenhum sistema de segregação e opressão cultural ou social poderia voltar a determinar para sociedade as diversas proibições e prisões sociais do ter e do ser que, por diversos períodos, a humanidade enfrentou. A esperança de viver em uma realidade de discursos abertos, de independência, onde se faz e pensa o que se quer,  apresentou-se como luz aos homens modernos que acreditavam que nenhuma espécie de valor majoritário dominaria a sociedade. Um mundo que, teoricamente, seria livre para acionar qualquer desejo e realizá-lo sem impertinências alheias. Mas apesar de todos os frutos libertadores que a contemporaneidade propiciou (resultado de lutas passadas e de transformação social) os seres humanos ainda são subjugados e, pior, não percebem e, se percebem, preferem não depor contra esse sistema de formação de alienados. Os cidadãos afirmam serem livres e independentes, mas toda a sua força de trabalho é aplicada para produzir seu capital, que comumente é voltado para se impor no coletivo. Vence quem mais tem. A moda é o principal exemplo disso. A função de vestir-se é social e segundo os valores que criamos, moral. A ausência de roupas, na ideia de nossa razão, torna o indivíduo imoral  e vulgar, senão um louco que não é mais dono de si. Há exceções. Os índios, não se vestem, mais como desde os tempos mais remotos fora assim, a sociedade os define como unidades culturais, em que a rica cultura dos "primitivos" brasileiros deve ser considerada resultante de um comportamento cultural. Mas a moda, fora dessa realidade bonita e amoral de tribos e aldeias, surpreendentemente subjuga o homem e o faz sentir-se inferior ou superior de acordo com o que veste. Intrigantemente, na dita era da liberdade, somos ainda presos por conceitos impostos pela classe alta (uma minoria em relação a grande massa), sobre o que é bom ou ruim. Vestir roupas de grife e alta costura valora o homem de uma simples inferioridade social para alguém que deve ser respeitado, enaltecido e comentado no seu meio social. Consequentemente, o homem, que acha que vive plena liberdade, aplica toda a sua força de trabalho arduamente para reverter toda sua renda para conquistas materiais que proporcionam prazer mais para o coletivo do que para si, já que consome o que o outro define como qualidade para que possa ter status e as mais variáveis designações materiais.



Os seres humanos atualmente não são subjugados apenas por líderes e por uma política centralizadora. São subjugados, em absoluto, por seu complexo de inferioridade social e material. Nesse sentido, as roupas, aparelhos e produtos diversos tornam-se mais relevantes que a natureza humana, o ser humano. O valor de ser ser humano está se tornando gradativamente menor do que o valor de ter produtos humanos. O acúmulo define o valor humano e toda matéria cria novos padrões sociais de comportamento e aceitação social. Dessa forma, as pessoas tem sido tratadas sem qualquer valor humano quando não possuem uma estrutura material; perdem seu valor humano por não conhecerem estilistas, não terem capital para comprar uma indumentária de alta grife ou não realizarem todas as atividades da "classe alta". Nesse sentido, a pobreza e a falta de matéria são tratadas como uma anomalia social e defeito pessoal. A televisão explora a imagem do pobre, o ridiculariza como uma vergonha social. Na tv, qualquer programa humor usa como temática principal a "falta de noção do pobre de se vestir". Suas roupas são demonstradas como indevidas e espalhafatosas, mostrando o exemplo da ridicularidade de quem não sabe o que é marca, grifes... As piadas surgem associadas com o comportamento do pobre, o descuido físico proveniente da falta de dinheiro e os espectadores divertem-se com a inferiorização do outro. Na era da discussão e estudo sobre o "Bullying" nas escolas, o adulto pratica com sua faixa etária definindo com um belo momento de lazer. Não consideram o fato de que essas pessoas sofrem por serem considerados (pelo ignorante valores sociais) como "feios", "magrelos", "gordos", "sem cultura", "burros" e "banguelos"... É o produto que está valendo mais que seu autor: os homens.




O comtemporâneo trouxe a liberdade de escolha, de vida, mas os humanos ainda seguem as leis e as regras dos que definem que o importante é ter e acumular. Ocorre que atualmente a matéria, roupas e produtos diversos tem mais função do que facilitar a vida social. Ela criou seus próprios valores. Depois de tantas subjugações desumanas e incongruentes, vivemos na "Era das Ignoranças", em que as coisas  tem mais valor que a vida e se os cidadãos não compram tais coisas ou não as podem ter, são condenadas ao massacre e  mediocridade do status sociais, tratando gente como máquinas e agrupando o que é ser rico, pobre, da moda, da confecção e do que pode ser respeitado e do que pode ser inferiorizado. É a humanidade segregada não por um, mas pela coletiva pobreza racional dos seres humanos sempre querendo superar o outro, o mundo e determinando um padrão social baseado no valor (excedente) do homem de posses materiais e do valor (pequeno) do homem sem posses materiais. É a nova sociedade formada de homens que valorizam tanto a matéria, que tornaram-se produtos dela, verdadeiros humanos produtos.





quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um Tempo Remoto. Um Tempo Passado.



Houve um tempo que toda minha atmosfera era leve e minhas alegrias uma litosfera rígida, altamente sólida. O riso era tão fácil, chorar curava tudo e quando qualquer desgosto chegava sempre me abria para um abraço. Um tempo que era bonito demais, que eu corria por toda a rua, brincava só com o vento e escondia-me nas árvores, vencendo o medo de alcançar os galhos mais altos. Nesse tempo escrevia com o coração, dando irrelevância a ortografia e narrando palavras que cancionavam os sentimentos que pediam para sair da alma. Tempo em que as tardes eram longas e a gastava realizando competições com outras criaturas risonhas - podendo ser gente ou não. Um tempo que acreditava nas pessoas e as amava sem impor barreiras, suplicando para agrupar o máximo de humanos para meu lazer e minha necessidade infantil: a alegria. Um tempo. Tempo que não sabia o que era defeitos e não os via nos meus amores, na minha gente. Tempo em que abraçava meus convivas e não criticava qualquer erro, qualquer pecado, não os vendo como alma aprendente, mas como gente que me amava, me cuidava, mesmo carregando suas mazelas. Nesse tempo não me importava com os títulos e com as precisões de ser um bicho social: bastava-me as árvores, um dia sem chuva e um bicicleta veloz para descobrir novos caminhos. Tempo que meu corpo e alma pedia a arte e exigia que materializa-se


no palco, nas folhas, na vida.


Houve um tempo. Aquele tempo. Tudo límpido, uma candura sem fim, uma amor sem igual, que não sabia  a semântica do preconceito e do julgamento... tempos remotos, tempos passados, que guardo dentro de mim e tento deixar  renascer nesse tempo de seca, onde meu choro não mais me cura, não sei dar mais abraço e não sei qual é a estrada do amor. Nesse tempo de agora, que não deixa retornar o outrora e me faz não perdoar o defeito dos meus. Meu tempo de ceticismo, onde não há mais atmosfera, só uma litosfera que enrijeceu por demais e impôs que me fizesse infiltrável. Ah! um tempo tão lindo! que podia voar, gargalhar e só desejava ser um belo riso. Houve esse tempo e, nas reminiscências de minha rotação,  lembro-me dele, alegre, dando adeus pra mim e gritando que ele é meu, mas não volta mais pra mim.




segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O Curso do Rio.



A vida é um rio, um rio longo e infinito. Cada molécula de água são as diversas e amplas experiências que o rio acumula durante seu curso, as largas margens são as limitações: as limitações de todo o ser. Toda vida do rio baseia-se nos sentimentos, os sentimentos que o rio conquista ao entrar em conexão com o outro. Há sentimentos raivosos, que brigam para sair do rio, machucando suas margens, há sentimentos puros, que querem deixar a água cristalina, límpida e generosa para o visitante nadar ou deslumbrar-se com a pintura mais linda feita pela natureza. O curso do rio é sua estrada. Estrada de pedras, de terreno plano e medidas disformes. Quando o rio encontra uma pedra, não gosta dela; ela atrapalha seu curso, não se move do lugar. Desde o início as pedras deixam claro ao rio: nao sou eu que vou mudar, a mudança será feita por você; a mudança é você. E então o rio briga por seu caminho, passa por cima da pedra, a molha sem cessar. A pedra ganha sua água e o rio aprende com sua pedra. Uma simbiose que auxilia o rio a modificar-se. Há tempos em que o rio só encontra solo desejoso, uma calmaria silenciosa e um sol perfeito para lhe iluminar. Mas o rio é vida aprendente, tem inúmeras tempestades a lhe maltratar, suas águas ficam constantemente inquietas, o seu eu busca a quietude e não suporta seu volume, seus sentimentos e todo aquele pesar. A calmaria mostra um átomo do que seja a paz e a tempestade mostra que o rio ainda tem que a ganhar. O rio não é paz. O rio não tem paz. Seu curso ainda será longo e infinito, combatendo suas margens e aprendendo com suas tempestades para que um dia, o rio não encontre mais pedras, nem dias de fúria para se queixar. Então o rio não terá mais margens, não conhecerá mais pedras: já aprendera com todas as barreiras apresentadas, já aniquilou seus sentimentos raivosos. A vida continuará ser longa e infinita e mesmo que por fora de suas margens reine o volume e a desordem, ela é límpida, luz no universo, não tendo mais parâmetro para igualar. Será só uma luz, luz a iluminar os rios que ainda estão cheios de pedras; rios que não aprenderam com o curso do rio: o mestre rio que nos prepara para a liberdade verdadeira, que tem como norteadora a paz incomparável da conquista da sabedoria livre, eterna e reflexiva do viver, amar e da liberdade plena dos que já cumpriram o curso do caminho, o curso do rio.




O Chinelo de Chinelo.



Era verão e o sol estava queimando, Chinelo, um menino magro como uma vara e esperto mais do que muita gente grande, andava nas ruas procurando qualquer ocupação e esperando uma comida "aparecer". Pela manhã já havia percorrido todo o comércio, mas a "tia" não tinha jogado comida fora ainda, então, o jeito era pedir ou esperar o vacilo de alguém "É, isso que vou fazer". No caminho encontrou Gorila e Raimundo, os meninos que tinham fugido da "Casa de Abrigo". Lá tinha cama, comida, mas não gostavam das ordens e nem das surras que levavam. Eles sempre diziam "Lá tem gente ruim, Chinelo, bom mesmo é a liberdade da rua. Se seu pai não te quis, você não tem que ser de ninguém". Chinelo pensava nisso: você não tem que ser de ninguém, bonito isso. Mas, e se alguém me quisesse? Pelo menos, não ia viver sem chinelo. Ao lembrar-se disso olhou de novo para o chão, seu pé já tava rachado, as bordas sangrando e tinha umas manchas esquisitas na pele. "Ah! Se tivesse meu chinelo. Mas não tem jeito, não! Os muleque me tira toda vez".  Só era  colocar chinelo nos pés, que os meninos corriam atrás dele; desde pequeno era assim, começou depois que Chinelo disse que não gostava de ficar descalço, pois doía o pé. Burrice. Ouvia por todo lado "O muleque gosta de chinelo, só falta agora querer ter casa" debochavam, eles. Tudo era tão ruim: ficar sem cama, coberta e comida, mas sem chinelo, ah, sem chinelo era pior! doía correr, a pista sempre tava quente...vida maldita!




O sol continuava quente e o dia tava fraco, não tinha comida em nehuma parte. "será que a tia já abriu o "Dog"? ". Chinelo ia nas beiradas, o chão tava mais quente do que pela manhã. "Que diabo!" Quando chegou no "Dog", olhou pra vê se a tia tava sozinha; era uma velhinha magra que tinha pena dele e um certo agradecimento por ele não ser maldoso com ela  (como eram  os outros meninos). Todo dia ela separava um pão pra Chinelo e o "trato" era ele não contar pra ninguém, assim, não tinha que dar para os outros. O pão era tão gostoso e o molho umedecia todas as partes (já que a tia só podia dar o pão que não foi vendido da semana). Dava uma vontade de pedir mais, mas a tia tinha sido categórica: só um. Que importa, a dor na barriga passou, oras, " Do que preciso mais?". E, se tiver sorte, arrumo até o fim da noite qualquer punhado. Antes de ir embora a tia deu uma sacola pra Chinelo. Era um chinelo velho que seu neto jogara fora. "Vai ficar só um pouco maior, Chinelo, mas cabe no pé" Quanta alegria! Depois de cinco meses, mais um chinelo! E esse era legal, tinha um monstro com espada desenhado nele. Chinelo correu com vontade, o chão nem tava mais quente. "Do que preciso mais?" ria ele, com prazer, por todo lado. Quando anoiteceu, tirou o chinelo escondido e colocou debaixo da cabeça "quero vê tirar de mim". Naquela noite, Chinelo dormiu debaixo do telhado do "Mercado Central" e ficou pensando no seu novo chinelo e rindo de felicidade; sonhou que estava correndo veloz pelas ruas, com seu chinelo, desenhado de espadas. Seu coração estava tão quente e olhava sempre para o seus pés. Lembrou do que Gigante tinha lhe falado e sentia que "com meu chinelo sou livre, não sou de ninguém".




A Política Mistificada do Brasil.





Mais uma vez o grande ciclo político é concluído, finalizando a gestão de vários políticos que colocam o cargo que ocuparam temporariamente (eleitos pelo povo), à disposição para que novos eleitos, que farão parte da nova cúpula do Poder Executivo, executem suas atividades e os programas sociais apresentados e determinados pela população como eficientes para as dificuldades encontradas em todos os municípios, Estados e país. Novos candidatos (nem sempre) e apresentação de seus  projetos e objetivos no governo são demonstrados à todos que acompanham as mídias sociais e buscam sanar suas dúvidas sobre por qual membro ou partido escolher. Com o surgimento da democracia, defendida pelo filósofo Péricles na antiguidade, baseado no princípio da isonomia:  todos são iguais perante a lei,  a integração e  participação do povo na escolha de seu governo e governantes tornou-se um meio justo e igualitário de decisões que afetam toda a coletividade. Por isso,  temos o voto como uma ferramenta de poder para valer os direitos e deveres de forma individual e coletiva. O dever de votar está relacionado com o direito que o cidadão tem enquanto ser social e cultural, optando por aquele que, em sua crença, poderá gerir com inteligência os variados impostos destinados para administração pública. Nesse processo curto, de escolha de candidatos, o político vende seus ideais, seus desejos e o povo compra o material que melhor lhe apresenta (ou representa). A barganha, é de extremo valor entre muitos candidatos e eleitores. Os homens, apesar de conhecerem e enaltecerem a democracia, são frutos irrefutáveis do sistema capitalista, por isso, suas escolhas, em maioria, estão baseadas no ganho oferecido pelo sistema de votação. Nesse sentido, cada cidadão busca a política idealizada como correta e necessária ao crescimento social, mas também a política que auxiliará seu pequeno sistema individual. O cidadão estudado, com ampla  oportunidade de trabalho e remuneração, estável em todas atividades que regem sua vida, define a política de forma científica, compreende os mecanismos de gestão pública e tem visão aguçada e precisa sobre a política e políticos. Já o homem pobre enxerga o político como o "fazedor de favores"; ao seu ver o político é um homem bom e caridoso que concede emprego, que disponibiliza remédios e alimentos, e meios para atenuar a pobreza e privações da classe baixa. O pobre, direcionado pela sua pouca instrução técnica e manipulados por políticos corruptos, conceitua o político como um Deus que presta caridade e não como um gestor dos inúmeros impostos que eles pagam para o governo.








A grande massa da sociedade endeusa o político, o valorando como o homem bom, que presta auxílio ao coletivo. No mundo contemporâneo o político não é um admistrador do Estado: ele é um Deus. O cidadão não reflete sobre o fato que o político deve ser (e é) um trabalhador comum, que tem como tarefa administrar o dinheiro provindo do contribuinte e de acordo com o bem comum, trabalhar em prol do desenvolvimento de todas as áreas sociais. Os adornos mesquinhos e vaidosos que são atribuídos aos políticos devem ser aniquilados para retirar a venda que a tirania e a centralização do poder colocou nos olhos de muitos cidadãos. Os candidatos, se aproveitam como parasitas das carências sociais e emocionais dos homens, reforçando a imagem de salvadores  e, quando palestram sobre suas táticas de governo, destricham amorosidade, ideias futuristas e humanistas. Constroem sua política na base do desrespeito com seus concorrentes, mostrando desde o início, que se for preciso alcançar sua meta  desrespeitando e agredindo o concorrente, fará sem nehum pudor. O que será, então, que esse mesmo indivíduo não fará posteriormente com toda a sociedade quando ela representar um antagonista de suas buscas? Na busca desenfreada pelo poder, os vídeos, slogans e visitas usados por cada partido têm sempre um ar maternal. Dilma é uma mulher forte, guerreira, que passou por dificuldades e quer ter uma chance de fazer o bem para o Brasil. Apoiada pelo Lula, o cidadão já compreendeu que escolhê-la é ter a certeza da extensão do governo de Luís Inácio. Ela vende a imagem de uma mulher para a presidência, mas uma mulher forte, que poderia alcançar como um homem (como se o sexo feminino não tivesse nenhum talento, inteligência e credibilidade para a administração pública) pontos positivos para o Brasil. Marina Silva é a "guerreira da selva". Votar nela é optar por uma mulher que já foi Ministra do Meio Ambiente, que luta e preserva a fauna e flora, o meio ambiente. Ela se ampara na consciência ambiental para conseguir seus eleitores. Serra é o Tucano (PSDB), do partido que gente elitista gosta, sendo eles os mais reacionários. Serra, em sua campanha, deixa claro que foi menino sofrido (talvez, querendo ganhar a mesma força do Lula), que estudou com dificuldades financeiras e criou a medicação genérica como forma de viabilizar saúde pública para o povo. É o homem que tenta chegar ao sentimento do pobre (como todos os demais candidatos), que penalizado com uma pessoa que são como eles, sofreu, passou fome, mas superou. Em sua campanha deixa extremamente claro que auxilia os dependentes químicos, criando para os mesmos institutos de recuperação. Todos o definem como caridoso - atitude padrão de todo político. Ocorre que todo político utiliza-se das contribuições do povo para administrar e gerir uma sociedade, mas poderia isso ser definido como altruísmo? Recompensado por votos? Um governo que utiliza os impostos do povo para criar um sistema de saúde eficaz, educação de qualidade e oportunidades de crescimento material, é caridoso? Se toda administração pública é impulsionada pela contribuição financeira do povo, por que definir o político como Deus ou "fazedor de favores"?






Os candidatos criam circunstâncias que atingem emocionalmente os cidadãos. Tudo que ataque as necessidades do homem, constroem o poder do candidato. É sumamente relevante abraçar o pobre, fazer carinho no idoso, beijar a criança desnutrida, visitar escolas públicas e apalpar a mão dos adolescentes e mostrar, mostrar, para que todos memorizem, que ele pode gerir o Brasil. O que também é extremamente valorizado, é vestir-se de um personagem, que irá caracterizar o futuro governante. Por isso, comumente conhecemos antes dos próprios projetos do político termos como: sou o pastor ou eclesiástico tal (apelo religioso que certamente leva os fiéis da igreja votarem), sou o professor tal (apelo educacional, busca a camaradagem dos estudantes e quem acredita na relevância da Educação), sou médico (apelo saúde, estudei para ajudar o próximo)... e assim, os personagens variam, empobrecendo o objetivo maior da política: gestão, direito e cidadania para todos. Dentro das campanhas há, também, o gasto abundante de papéis, sujando as ruas, denegrindo a natureza, usando o material retirado de árvores de forma vulgar e supérflua para divulgar o número do candidato (como se não pudéssemos anotar perante o monólogo da tv).







O homem, que acredita estar vivendo na "democracia", não percebe que vive, como disse Nietzsche, numa sociedade de rebanho, onde é orientado para onde o pastor quer. O voto é obrigatório, mas candidatos sensatos, preparados e estudados não é uma obrigatoriedade, de forma que vemos vereadores (que podem candidatar-se com 18 anos) sem o mínimo conhecimento de sociologia e gestão pública. O político deveria ser, antes de qualque fato, um cidadão esclarecido sobre todos os temas básicos que fundamentam nossa vida em sociedade, visto que seu ofício visa organizar com eficácia e saber o sistema público. Obter notoriedade por se religioso, pai de família, médico, não deveria representar absolutamente nada para os eleitores, afinal, o objetivo não é buscar perfis sociais, mas gestores éticos. Não teremos uma realidade política honesta e equilibrada enquanto não mudarmos nossa educação social sobre o que seja política e político (trabalhador comum), enquanto ainda elegermos políticos que favorecem apenas a realidade do indivíduo, mas não do coletivo. A sociedade é o resultado do comportamento do  coletivo e, quando aprimorar sua educação política e social para atuar no processo de escolha de candidatos como cidadãos coerentes, éticos e imparciais, o sistema de candidatura não será mais esse circo de piadas, sem real propósito, que ludibria os cidadãos e os impedem de escolher racionalmente e eticamente o futuro da sociedade. Portanto, se faz necessário uma nova educação do que seja política, não só mudando os objetivos dos elegidos, mas modificando a busca dos eleitores.






Lula, o Filho do Brasil.






Luiz Inácio Lula da Silva, nosso famoso presidente Lula, carrega em sua história de vida fortes experiências que o singulariza não só como político, mas também como indivíduo. Nascido no interior do nordeste, vivenciou, como tantos outros nordestinos, uma infância pobre, escassa, de perecimentos e privações, tendo, ainda menino, abandonado sua terra natal junto de sua mãe e irmãos para viver no Estado de São Paulo. Como a maioria dos retirantes, trabalhou em ofícios de baixa renda, prestando serviços que exigem do homem força de trabalho em excesso para realização da tarefa a cumprir. Na grande São Paulo foi empregado como metalúrgico e conheceu a realidade de tal ofício, experimentando todas as dificuldades proporcionadas por ser do proletariado (massa que domina e move o país). Envolvido por seu ofício e reivindicador (como tantos outros) de melhores condições de trabalho, Lula iniciou  - mesmo sem perceber - sua carreira política. Ora, não há como separar a luta pela aplicação de uma modelo de relação trabalhista justo e correto com a política exercida por uma nação. Lula, decerto, percebeu  que justiça ou a falta dela  é consequência da política desenvolvida em cada município, Estado e país. Já tivemos outros presidentes, mas creio que nenhum teve uma história tão penetrante e forte quanto a do Lula, a ponto de resultar em certa popularidade e coleguismo do mesmo com os brasileiros e como ter sua história de vida transformada em livro e roterizada para o filme "Lula, o Filho do Brasil". O filme narra toda a trajetória de sua família, retirantes buscando em São Paulo oportunidade não só de mera melhoria, mas, como tantos outros retirantes brasileiros, esperançosos de não morrerem na seca, de fome. O filme explana a forte história de Lula, aliás, sobre Lula e D. Lindu, mãe forte e dedicada. D. Lindu era mulher simples, sem letramento ou qualquer tipo de afetação, que nutria o único sonho de fazer seus filhos pessoas de bem, honestas e trabalhadoras. A figura e história desse homem, Luiz Inácio, me impressiona. Não estou aqui para dissertar sobre a formação do seu partido, ou se seu governo foi positivo ou negativo, pois as divergências serão variadas. Há pessoas que santificam seu governo e há pessoas que o qualificam como pior gestão feita em solo brasileiro. Mas, o fato, é que esse homem fez história. Quando nossos filhos e netos estudarem História, com certeza estará lá, nas páginas dos livros, como documentos irrefutáveis, que existiu um homem de infância muito pobre, marginalizado pelo seu meio, trabalhador insatisfeito, que decidiu usar sua voz para exigir que trabalhadores fossem respeitados, que tivessem oportunidades e melhorias no âmbito do Direito do Trabalho. Um homem que de tanto usar sua voz e fortalecer sua ideia política, foi eleito Presidente do Brasil. Se ele foi um político ideal ou não é uma definição de cada mente, que faz seus conceitos e opiniões; mas é inegável que ele foi, um divisor de de ideias na política do Brasil. Digo isso pelo simples fato de uma nação aceitar como líder político um homem visto como do povo, sem status, domínio de idiomas e vasta informação técnica. Isso prova que os cidadãos estão em busca de uma nova organização social: de respeito, igualdade e distribuição justa para coletividade. Quando os cidadãos resolveram votar nesse homem o fizeram por ver na sua frente (como disse D. Lindu) um homem que teimou e lutou por seus ideais. Um homem que falou de direitos e deveres para os homens, seja estes de classe alta ou baixa. A busca por uma realidade democrática, igualitária, casou-se com a figura de um homem que (diferente de outros políticos) sabe o que é passar fome, sabe o que é ter salário mínimo, sabe o que é não ter direitos trabalhistas efetivados e sabe o que é, sobretudo, ser pobre. Lula é história, independente de opiniões contrárias. Ele foi um desses cidadãos capazes de transcender uma realidade e lutar por melhorias. Admiro muito esse homem. Se o admiro como político ou não, não vem ao caso, mas o homem retirante, filho de D. Lindu, que teimou contra tudo e todos e em 2003, depois de muito tombar e levantar, chegou a Brasília, assumiu a Presidência da República e teve sua história documentada nos livros, no filme e na mente de cada brasileiro, esse Lula eu ouço e vejo como um homem que escreveu com suas mãos, uma história sólida e transformadora para realidade brasileira. Uma história do povo e para o povo.



Lula, O Filho do Brasil e Vidas Secas


O filme "Lula, O Filho do Brasil" foi dirigido por Fábio Barreto e trás de forma condensada toda a história de Lula e sua família.  A vida de sua mãe, irmãos, seu primeiro contato com o trabalho e sua iniciação na política. O objetivo do filme foi demonstrar o Lula, sem grandes epopéias, embora tenha sido difícil. O livro que narra toda a sua história foi escrito pela jornalista Denise Paraná e o defino como interessante e pertinente, já que fizemos parte dessa história. No decorrer do filme, lembrei-me de uma das narrativas mais emocionantes que li: "Vidas Secas", de Graciliano Ramos. O livro narra a história de uma família de retirantes: Sinha Vitória, Fabiano, menino mais velho, menino mais novo e a cachorra Baleia. Eles partem do nordeste fugindo da seca que mata os bichos, as plantas, os homens, à vida. Uma seca forte que seca o coração, não trás nem lágrimas, pois o sofrimento já é maior que orgânico e subtrai a alma, a reduzindo a um só sentimento: sofrimento. Em sua trajetória lidam com a vergonha, a retidão, a desgraça e a fome; a fome que dói a barriga, que faz o bicho homem odiar o mundo. "Vidas Secas" é obra-prima, pois fala do real, de um povo brasileiro esquecido, marginalizado, que sofre nas margens do continente e que tenta gritar pra pedir ajuda a uma sociedade que vive de forma excedente, superficial, que contribui para a fome dos miseráveis, fortalecendo diariamente a pobreza e as mazelas da sociedade.





sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Chico Xavier: Amor, Luz e Caridade.




Ele nasceu em solo mineiro, numa cidade hospitaleira de gente tranqüila e fé irrevogável. O pequeno município chamava-se Pedro Leopoldo e abrigava uma população miúda, crente em sua religiosidade e fervorosos em seus conceitos. O pequeno homem  nasceu (sem saber o porquê) já grande, diferente dos outros, capacitado a ouvir e ver coisas que eram incomuns no seu meio. Ele chamava-se Francisco, mas todos os conheciam como Chico, o Chico Xavier. Chico era "menino estranho", que via gente do "outro mundo", conversava com os mortos e escrevia o que eles lhe narravam. E, como é de costume, um ser que tem tantos mecanismos adversos, só poderia mesmo ser punido e marginalizado, afinal, mexer com a moral social e diferenciar-se do seu grupo, aterroriza e abala toda a instituição sociedade. Mas o menino Chico cresceu e amparado por amigos encarnados e desencarnados, compreendeu sua condição e descobriu-se não um pecador, mas um médium. Era a tal da mediunidade, que é a capacidade de comunicar-se com os que não estão mais na matéria, que permitia que o jovem visse e ouvisse o que os que estavam ao seu redor nem sequer captavam ou, se captavam, sentiam em menor proporção. Chico ganhou entendimento e auxiliado por Emanuel (seu mentor espiritual) pôde dar um presente à humanidade: educação moral e esclarecimento espiritual. Seu trabalho não foi somente divulgar e explicar a doutrina espírita (que é cristã, espiritualista e caridosa) mais foi, sobretudo, trabalhar em favor dos necessitados; dos necessitados de amor e educação espiritual, para conduzir os seres para renovação e evolução.



Seu trabalho percorreu várias vertentes, como psicografias, escrevendo cartas para famílias desoladas que buscavam explicação para a morte, a separação do corpo físico de um ente querido, livros  - que nos ensina e preenche de luz e entendimento na caminhada difícil que nós, seres errantes, temos que percorrer, apóio e explanação para todos os seus irmãos que enfrentam as mais profundas misérias físicas e espirituais e, também, participou do programa da Rede Tupi, "Pinga -Fogo", local em que respondia indagações sobre a vida, morte e espiritualidade e divulgava o amor, caridade e entendimento do porquê da vida. Chico, o "menino estranho", que nasceu em 1910, desencarnou em 2002, com seus  92 anos vividos para o amor e caridade. Chico foi espírita, foi cristão, amigo, trabalhador, foi um homem que se silenciou perante as críticas, amou aquele que ainda não tinha condições de entender a grandiosidade do seu trabalho, que teve paciência diante dos que lhe nutriam aversão, que respondia com delicadeza quando o escárnio e a ridicularização insistia em lhe maltratar, amou todos os seres humanos, seus irmãos (filhos de um único pai, Deus); Chico foi luz na escuridão, pés fortes e sábios durante os imensos trajetos; Chico foi mais que religião - que é a base que ainda necessitamos ter para compreender o amor e respeito  - , foi mais que um amigo caridoso e companheiro, Chico foi, na verdade, um homem que já sabia amar e se doar, já sabia como exercer o ensinamento do nosso mestre: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Chico não era muito carne, não era só espírito, era uma luz gradual que irradiava amor; um amor sem medidas, que iluminava tudo e todos; foi fonte de luz que iluminou os caminhos vacilantes que adotamos iludidos pelo orgulho, esgoísmo e vaidade, fornecendo ensinamentos claros e lúcidos para retificação de nossa moral e início da esperada "Reforma íntima", que salvará o espírito imaturo do desamor e sofrimento, lhe conduzindo para a verdadeira felicidade, luz, paz e evolução. Para o caminho grandioso dos planos de Deus.






Sebastião Nicomedes: O Poeta das Ruas.


Sebastião Nicomedes tem quarenta e dois anos, nasceu em Assis, no interior de São Paulo e é poeta e escritor. Tais dados referem-se a um homem comum que aparentemente apaixonado pelas belas-letras, enveredou-se no mundo da escrita e literatura. Sua história poderia certamente passar despercebida (e de certa forma é) pela grande mídia, se não fosse por um fato surpreendente: ele é ex-morador de rua. Sebastião, ainda menino, perdeu seus pais e seus estudos não continuaram da forma congruente, não concluindo nem o Ensino Fundamental. No seu currículo escolar está documentada sua participação na escola pública somente até a oitava série. Posteriormente, morou temporariamente com uma irmã; quando alcançou a maioridade mudou-se para São Paulo, onde realizou trabalhos de diversas naturezas como pedreiro, churrasqueiro e letreiro; neste último sofreu um acidente e tornou-se  morador de rua, pois tal evento o deixou sem estabilidade financeira para suprir suas necessidades básicas e para realizar outro ofício. Como desde a meninice apreciou  poesias, foi incentivado por um amigo (também morador de rua) a escrever sobre os seus sentimentos em relação à vida e  as condições de um  morador de rua e como, no mais íntimo de sua alma, se sente ao viver em tal circunstância. Suas impressões, escritos foram transformados em  livros e publicados. A obra "O Homem sem País", "Diário de um Carroceiro", "Vôo dos Pardais" e "Cátia, Simone e outras Marvadas" é um pedaço desse homem de pequenas e grandes tragédias, que já sentiu fome, frio, preconceito e mazelas durante sua trajetória de vida.




O que é deveras impressionante nessa história é a reação da maioria das pessoas ao conhecer esse homem. Um morador de rua, que escreve e é inteligente? Uma indagação tola e preconceituosa, no mínimo. Na visão de uma sociedade hipócrita, imatura e vaidosa, um morador de rua deveria ser marginal ou pedinte, o negro um bandido e o pobre um ser sem cultura e conhecimento que jamais poderá alcançar  intelectualidade e uma vida material sucedida. Todos os seres tem a mesma capacidade racional e emocional, mas são as oportunidades, educação, cultura e moral  que encaminham o homem para diferentes níveis de condição intelectual e moral. Portanto, ver esse homem e sua minimalista obra publicada não é uma surpresa, é a a certeza de que a educação, oportunidade e igualdade social são ferramentas para evolução social. Só através dessas três vias é que o homem (imbuído de involuções e preconceitos) não irá mais segregar sua espécie, categorizando gente por uma posição social e conceituando valores pela quantidade de matéria que um  indivíduo possui. Como disse Sebastião "Um morador de rua é gente. Não feche o vidro do carro ao passar por ele. Ele só quer paz". O senhor Nicomedes é o exemplo vivo de que todos os homens (sejam de que condições forem) devem ser respeitados como gente, ter oportunidades iguais e ter dignidade de vida física e emocional para se desenvolverem na sociedade. Seu Sebastião é um exemplo de uma pessoa que lutou contra as barreiras do desrespeito e falta de oportunidade, mas não curvou-se perante a desolação da exclusão social, demonstrando através de sua escrita e obra que é possível mudar uma realidade e extrair dela sabedoria para vida e força para contrariar as negações que insistem em perseguir os homens. Um notório e belo exemplo de superação pessoal e  profissional, mas, sobretudo, social.


Fez tudo igual seu herói
Pedreiro na cidade grande
Dinheiro pra casa pelo correio
Distância do filho querido
Saudades da mulher amada



São Paulo lugar de gente louca
Toda noite, todo dia
Noticias na televisão
Dolar em alta, dolar em baixa
Bolsa cai, bolsa que sobe


Cimento subiu bem mais alto
Que edifícios erguidos
Clientela inadimplente,
Todo mundo despedido
Foi a firma que faliu


Morando sempre em obras
Desde que saiu de casa
Perdido na selva de pedras
O menino espelhado do pai
Desamprendeu a viver





Em volta do mercadão
Sacia fome de dia
Catando frutas caidas
A noite espera sopa
Maldito, vadio, mendigo


O tempo passou tão depressa
Vestes em sacos de lixo
Colher de pau na mão
Ao marco zero da Sé
O então pedreiro indigente
Constrói paredes ao vento.

Sebastião Nicomedes





"Eu ando com a bandeira do Brasil, para representar um Brasil desconhecido pela maioria das pessoas, para que elas possam olhar mais pra ele". Tião Nicomedes.









Rua: O Ensino da Marginalidade.


O menino era pequeno, magro, com os pés rachados e um olhar grande demais para o seu rosto. Ele corria pela rua central pedindo para quem encontrasse, um pedaço de papel que nem sabia contar. Ele estendia suas mãozinhas sujas e implorava, com os olhos lacrimejando, para comer. Cada um oferecia o que tinha. Uns, davam o pedaço de papel que chamava-se dinheiro, outros um olhar impaciente, alguns a raiva de acreditar que o menino "pidão", poderia muito bem labutar como eles. Outros, ofereciam a tristeza de ver pequena criatura tão desolada e muitos, muitos eram indiferentes. Aquela indiferença (embora o menino ainda não soubesse) iria marca para sempre sua vida. A indiferença seria sua mãe na vida, a educadora que encaminharia aquele pequeno pelo resto dos seus dias. A rua seria sua escola, e lá, aprenderia tudo que necessita para viver. No português das ruas ele iria entender que pedir, gritar e ameaçar é a linguagem precisa para realizar seus desejos. Na sua matemática, logo perceberia que só poderia somar, se tirar o que é do outro, pela geografia iria entender que casa é um espaço geográfico para poucos. Sua sociologia seria bem exata; elucidando-o de que um homem pobre é diferente, na Terra, do homem de posses. Na química das ruas, conhecerá substâncias nocivas, que não sabe o que é, mas sempre tira a fome e a revolta, presenteando o corpo com uma pseudo-alegria, já que não tem amor e cuidados. Nas ruas, o menino pequeno, se tornará um homem grande e também fará sua graduação; pegando o diploma da miséria e da corrupção de uma alma que foi treinada para mentir, gritar, roubar e agredir por toda uma geração. Quando o menino de olhos grandes já estiver graduado, irá executar o que lhe foi ensinado, querendo presentear os outros, somente com o que aprendeu: ódio, rancor e desamor. O menino não será letrado, mas a alfabetização da marginalidade ele carregará debaixo do braço, expandindo seus conhecimentos por onde passar. E, quando estiver adulto, aqueles olhares de indiferença, que tanto o olharam quando pequeno, vão sentir medo daquele bicho formado e o colocarão em grades fortes, feitas por homens de leis e saberes, que estudaram nas escolas reais, mas não sabem o que é as escolas das ruas. Aquela criatura magra, de mãos pedintes e pés rachados, só ganhou mais células, mas continua sendo o menino de olhos grandes e perdidos, com medo de ficar sozinho nas ruas, de sentir fome e desproteção, com medo, muito medo de alguém não lhe estender a mão.



Os Mortos de Letícia


Ela estava impenetrável. Sempre foi assim. E, naquele momento, por mais tenebroso e triste parecesse ser para todos, para ela, somente era mais um sofrimento, mais um machucado que a vida insistia em lhe oferecer. Não podia produzir lágrimas, desde os dez anos não sabia se as tinha. Quando sua mãe faleceu, viu que a vida poderia ser mais difícil que imaginava. Aquele homem a tinha tirado à força de casa, não esperando que enterrasse sua morta, sua mãe. Depois, aquele lugar sombrio e frio, que tinha somente um lençol para os dias tristes e longos do inverno. Seu tio a matou aos poucos, imcubindo-lhe desde cedo a cuidar e realizar todas as tarefas domésticas e, ainda, ser exemplar na escola "Se não, o tal do governo imprica comigo. Como se eu não fizesse muito por uma órfã" Quando dizia isso, uma gosma nojenta saía da sua boca e podia sentir o cheiro do álcool de longe, como se o hálito do ignóbil homem estivesse encostando nos seus lábios. Depois de anos solitários e rodeados por um pânico terrível (que ocorria principalmente à noite, quando Elizeu chegava do mercado e deitava-se com ela, violando seu corpo), Letícia sabia que nunca seria feliz. Aliás, leu uma vez uma frase um tanto verdadeira em um jornal da escola. Era de uma atriz famosa chamada Marilyn Monroe. Ela dizia "Se não foi uma criança feliz, jamais será um adulto feliz". Bem, talvez, fosse verdade, afinal, não sabia o sentido prático, real da palavra felicidade. Depois do tio, veio Ricardo, uma aparente válvula de escape. Parecia ser um homem bom, honesto e apaixonado, um caminho perfeito para sair da casa do tio e encontrar a paz. Ledo engano, mostrou a vida. Quantas traições, concubinas do marido, filhos fora do casamento; quantas brigas e humilhações! E agora estava ali, sem chão, sem nada, enterrando pela quinta vez um dos seus. Por que não eu? Perguntava aflita para o céu, ao acaso, pois não acreditava em nenhuma força milagrosa e criadora no universo. Como poderia existir um criador, que permite o sofrimento de sua criação? Enterrar sua mãe, seu marido e agora seu último filho, não parecia ser sinônimo de uma vida feliz.


Tudo que ela conseguia pensar era no seu morto, naquele corpo frio e fétido que estava na sua frente. Sua barriga estava vazia, inchada, seus braços paralisados, mas todos os vizinhos queriam abraçá-la. Ela cedia. Deixava que todos lamentassem de pena, a olhando como se o mundo tivesse, por aquele único dia, não realizado a rotação para chegar à noite. No enterro, o sacrifício final. A certeza que a carne não existia mais. Que a companhia física estará só nas reminiscências vivas de sua alma. Depois, a volta para casa, a cama que ainda estava desfeita desde a manhã e a sua fiel companheira: solidão, que não a deixava, que a obsediava e exigia atenção. Amanhã será um novo dia. Trabalhará na "Avenida Buena" e novamente ganhará 15 reais para limpar a casa dos Ferreira, cozinhar e cuidar de seus filhos. Com o dinheiro comprará arroz e feijão, e uma goiabada, se restar. E assim, seus dias passarão rápido. Rápido o suficiente para dormir pouco, receber pouco e amar pouco. Lenta será sua dor e solidão, aguardando o dia de sua partida e ansiando por deixar um corpo que só lhe mostrou sofrimento, doenças e uma dor profunda no coração; roubando-a de qualquer tipo de afeição e impondo-lhe a partida dos seus mortos.



Eu Queria Ser Um Rio.



Eu queria ser um rio. Um rio infinito e claro, com a água levemente quente e as margens móveis, que se alargam quando querem conhecer o novo, o inédito. Um rio que não tem destino certo, que se entrega ao mar e encontra o imenso oceano azul de belezas e possibilidades. Minha água seria fluida e mágica, gostando de estender-se como nômade e banhar todas as flores que morassem ao meu redor. Então, regando minhas flores, eu conheceria os pássaros - de todas as espécies - que me visitariam para extrair seu doce e manutenção. Minhas flores e meus pássaros cresceriam sobre minha margem e os veria mergulhar na minha água; sem medo ou pudor. Ele bateria suas asas ao longo da minha água e as flores, que tanto alimentei, cairiam sobre mim quando morressem e eu as conduziria até uma bela cachoeira, para ela boiar e sentir o céu azul, com fragmentos de sol, viajando por toda hidrosfera. O meu rio veria todos os minerais, descobriria belezas do solo e convidaria  todos para uma manhã de banho sob o sol. O meu rio poderia ser o que quiser. Um dia rio, no outro flor, depois um pássaro e, no fim de tudo, uma criatura livre e corajosa, que poderia percorrer a litosfera tendo as margens largas, tendo as cores mais vibrantes, flores do campo e voar, voar como o mais selvagem dos pássaros. Iria voar e chegar até a montanha que só via de baixo, com aquele reflexo distante e uma inveja de chegar naquele alto. E quando finalmente meu rio chegasse no alto, na montanha que sempre admirei, abriria meus braços e um vento forte percorreria meu corpo, com uma bela árvore atrás de mim; uma árvore que ajudei a criar, dando água para aquela montanha que diariamente presenteava a mesma com seu líquido. A árvore que é minha. É do meu rio. Minha pele sentiria o bondoso vento e meus cachos brincariam com sua força, volitando pelo ar, ouvindo seus susurros uivantes e saltitando com as folhas da minha flora. O meu rio seria forte. Ele iria morar junto às montanhas e toda sua vida, sonho e vontade teriam apenas um nome: liberdade.



Liberdade no caminhar

Liberdade no amar

Liberdade no aceitar
Livre, livre, livre, como o mais selvagem e magnífico mar.




Brasil: Futebol, Copa e Mendicidade.




Há uma quantidade significativa de brasileiros que definem a felicidade e realização social do país fundamentados em três prazeres: ganhar a Copa do Mundo, festejar tal conquista  comportando-se de forma alterada e excedente (auxiliada com uso de substâncias ativas, seja elas legais ou ilegais) e a inserção de muitos feriados pelo ano. Neste ano de 2010, por exemplo, o país encontra-se cheio de expectativas, de desejos e ânsia de ganhar. Ganhar o quê? A copa, é claro! Basta ligar o rádio, a TV, a internet, que tem sempre a mesma notícia dominando todas as mídias sociais e as indagações e preocupações de todos os brasileiros. Precisamos ganhar. Precisamos que todos aqueles atletas consigam chutar a bola direito, enfiar naquela redinha e fazer um gol. E pra que? Para sermos hexa, oras! Brasil, o melhor time de futebol do mundo! Quanto mérito...E para essa pseudo felicidade toda materializar-se jogadores recebem remunerações exorbitantes (e desnecessárias), como se tivessem colaborando para o desenvolvimento positivo e qualitativo do nosso país. Para essa festa toda ocorrer (para que no fim, resulte em brigas e mortes de torcedores doentes em suas manifestações), os jogadores recebem remunerações excedentes; um dinheiro desmerecido e desperdiçado. Desperdiçado, sim. Sustento o que digo, pois se cada cidadão ampliar sua visão para o Brasil como nação e não Brasil como diversão, iremos observar um país de mendicidade, em que a pobreza, analfabetismo, sistema se saúde precário e injustiças em diversos setores estão presentes em todas as áreas administrativas. Quantas pesquisas não há sem patrocínio para desenvolver novas medicações, deixando os laboratórios e cientistas somente com o sonho de melhorar a saúde pública? Quantas escolas sem livros e bibliotecas, impedindo educandos de toda parte sem estrutura para ampliarem seus conhecimentos? Quantos indivíduos sem tratamento eficaz contra a epidemia das drogas? Quantas pessoas desempregadas, sem atenção do Estado, vivendo na mendicidade e sem assistência de qualidade do sistema de saúde pública? Doentes em desequilíbrio mental rotulados de "loucos de rua", por não terem acesso a atendimento e tratamento psicológico? Quantos e quantas?  É esse Brasil que se faz necessário  observar e conhecer, sem ilusão, sem estereotipação, com a lucidez sólida de sermos seres racionais e cidadãos informados sobre a sociedade.



O esporte, de fato, é fundamental para o desenvolvimento físico e promoção de qualidade de vida de todos os indivíduos, sendo um eficaz  meio de transformação social e físico. Mas não há forma ou argumentação que seja sólida e inteligente a ponto de definir que um  país  possa ser superior só por ter bons atletas e por tal motivo encaminhar recursos financeiros altíssimos (mesmo que privados) para ganharmos um título. Um títlulo! Um título que não extinguirá a pobreza, a falta de estrutura educacional, a guerra pública declarada entre o marginalizado e a sociedade... Um título que, por nenhum momento, estimula o homem a formar sua intelectualidade. Que não engrandece o espírito do homem. Engrandecer é crescer, é formular leis compatíveis com a moralidade e igualdade social, é proporcionar ao homem meios para ele adquirir sabedoria e, conseqüentemente, respeitar o próximo. É, acima de tudo, ser consciente do certo e errado, não reformando uma cidade somente para mostrar para "estrangeiros" (como acontecerá  em locais no Brasil, em decorrência da copa), mas porque  é habitado por cidadãos necessitados de qualidade, melhoria. Alguns brasileiros acreditam que ser patriota é torcer na copa, é vestir o verde e amarelo. Títulos, cores, camisas não faz nenhum cidadão patriota. Gostar do seu país é respeitá-lo, é ver suas necessidades, contribuir para sua evolução; é ver e ouvir essa gente que é coisificada pelo seu meio, que vive nas ruelas, no desespero, que não tem dignidade humana e nem terá enquanto o povo brasileiro continuar a imputar suas energias sociais para uma luta irreal, que proporciona a felicidade de títulos e glórias, mas não aniquila a série de problemáticas surgidas pela negligência de tudo e todos que fazem parte deste país.





A Menina Jabuti.



Todos a achavam estranha. Ela não correspondia ao conceito humano criado para definir o que o coletivo desejava. E ela não gostava do aglomerado, do imenso coletivo da reunião do ser e do ter. A menina não queria ser gente, queria mesmo era ser jabuti. Desejava por todos os seus dias ter uma carapaça, enfiar-se nela e não digerir nenhum dilema imposto pelo inesperado mundo. Feliz mesmo, era ser jabuti. Quando vê o perigo, velozmente esconde-se no seu esconderijo, quando tem chuva guarda-se bem perto do ventre e, quando não há ninguém, ela tenta sair do seu casco bruto, sentindo calmamente os raios solares atravessando o céu azul e límpido da atmosfera. Mas a grande verdade é que a menina queria ser jabuti, porque não sabia voar. Ela não conseguia movimentar suas asas, por isso, sendo jabuti, encontraria o aconchego de uma carapaça para lhe esconder dos seus medos, do que a machucava, das palavras que a julgavam sem a conhecer. A menina era mesmo jabuti, não tinha forças para abandonar sua carapaça - a proteção que a guardava diante aquela estranha sensação da dor. A carapaça a abraçava quando ela medrosamente tentava conhecer o complexo universo do crescer e aprender, partindo do mais difícil dos saberes: o de conhecer a si mesma. Mas não tem jeito, não. A menina tentava sair, mas quando via o sol, buscava logo sua carapaça, vendo de longe apenas vestígios de uma bela luz amarela e alaranjada que aquecia seu corpo, mesmo estando tão distante. Ser jabuti era bom, quando tentam a ver, logo a carapaça lhe defende. Mas a menina queria mesmo era usar suas asas e aprender voar como Fenão Capelo Gaivota, a gaivota do amor. A menina queria mesmo era esticar-se no horizonte e descobrir todo o universo, abandonando sua carapaça e encontrar seu centro e equilíbrio. Porque encontrando seu centro, encontraria ela mesma e não precisaria mais de carapaças. Mas por enquanto a menina estava só, com sua carapaça protetora, e enormes sonhos no coração, que a convidava para usar suas asas e partir da solidão, viajando pelo incrível e necessário mundo que exige o crescer, o compreender, para no fim encontrar a estrada da verdadeira evolução. Mas a menina ainda era jabuti, "A Menina Jabuti", buscando somente um jeito de libertar suas asas e voar, voar, voar.


A Menina e a Estrada






Ela estava lá. Era o início da estrada e já tinha passado por ela, mas nunca sozinha. Mas, chegara a hora. Para todos chegam e a menina, que se sentia mais menina que mulher, sabia que tinha que dar os primeiros passos para conseguir ir adiante. Tinham muitos do seu lado, pois todos tem um caminho (embora cada caminho fosse diferente para cada um deles). A estrada era tão grande, infinita, com flores amarelas iluminando algumas pétalas rosas, com pedras formando círculos e árvores retorcidas, que se formaram desiguais, só para agradar os transeuntes. Tudo tão exageradamente lindo! tantos sonhos para realizar e desafios à espera de um desbravador. A menina se sentia uma guerreira, uma personagem cheia de força, luz e verdade que, como o alquimista, que chamava-se Santiago, percorreu o deserto, descobrindo seus sinais e realizando sua "Lenda Pessoal". A menina sentia mais que isso, ela lembrava-se da Liesel, "A Menina que Roubava Livros", e com os livros leu as páginas do mundo e deixou suas letras marcadas nos corações de seus companheiros. A menina também queria ter coragem, olhar o horizonte límpido e deixar o vento quente abraçar todo o seu corpo. Mas era o medo, aquele maldito medo! Ele a impedia de voar, de correr a longa estrada e descobrir o seu verdadeiro lugar. Quanto mais se demorava, via as pessoas passarem, isso não é bom, pensava ela, pois quanto mais nos demoramos para conhecer o nosso caminho, mais perdido ficamos olhando os caminhos dos outros,  sendo que o caminho alheio, jamais será como o educador caminho construído para nossa aprendizagem. A menina queria ir, só era um pequeno, tão pequeno passo. Por que não fazê-lo? Por que nutria tanta fraqueza? Depois de muito tempo, quando alcançou seus largos caminhos, obteve a angustiante resposta: só a estrada iria extrair suas fraquezas e educar o seu medo, não há outra forma. Então, envolvida por uma inédita coragem, a menina levantou-se da estrada, abriu seus braços e permitiu que suas pernas fizessem o início de uma grande jornada. Ao caminhar pelo imenso pedaço de terra, não se deu conta que o vento a abraçava com leveza, lhe dando boas-vindas e pedindo ajuda para as flores, que generosamente presenteou os pés da destemida com belas pétalas pelo chão e as árvores, radiantes com a mudança da pequena, pediu ao vento que embalace suas folhas, formando uma música suave, demostrando que a vida a acompanhava, bem de perto. A menina, então, compreendeu tudo, sorriu para a natureza e foi-se embora. A menina, já não era a mesma, mal recordava-se de outrora, seus cabelos voavam com o vento e seu coração batia leve e sereno; seus olhos já não olhavam para caminhos alheios. A menina, sem perceber, cresceu e sabia que na longa estrada encontraria o essencial, a verdade que seu espírito viera buscar. Como a menina estava feliz!