sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Maus-tratos aos Animais e a Hipocrisia Humana.




As imagens cruéis, violentas e absolutamente revoltantes que registrou a agressão que a enfermeira Camila Côrrea cometeu contra um cachorro, foram divulgadas por todas as mídias sociais, formando opiniões drásticas e críticas pela sociedade, devido ação cruel de uma mulher que, além de cometer um ato hediondo com um ser vivo, o fez na frente de uma criança, sua filha e, como fator questionável, é enfermeira, uma profissão eminente que em nenhum momento alude a ideia de desumanidade e crueldade. As pessoas (reagindo naturalmente a um ato de natureza criminal) apregoaram à mulher, tendo acionado a justiça para que medidas cabíveis fossem aplicadas diante as circunstâncias ilegais. Apesar de inúmeras opiniões, os fatos são estes: Camila foi absolutamente errada, o exemplo para filha foi negativo e situações como essas, realmente, merecem repreensão por parte da justiça. Mas há um fator inserido neste crime que é superior a esta mulher e a sua ação hedionda: há uma excessiva hipocrisia humana. Os animais desde o início da civilização (assim como a natureza) são usados e abusados em prol do desenvolvimento da sociedade - que define o crescimento social através de seu potencial econômico. Por mais que todo sofrimento animal tenha sido moderadamente mitigado com o decorrer da evolução moral, os animais, ainda, sofrem maus-tratos e são constantemente denegridos pela nossa espécie.




Os animais nos serviram e servem das mais variadas formas, desde tempos remotos. São utilizados como alimentos, meio de locomoção, como matéria-prima para produtos diversos, para pesquisas que visam testar produtos de uso humano... Sintetizando: os animais tornaram-se escravos dos homens e, sendo formados apenas por instinto, não podem sair de tal posição. A opinião negativa a atitude de Camila é reação natural diante comportamento errôneo, mas deve ser conscientizado que todos nós, também, contribuímos para os maus-tratos realizados contra os animais diariamente. No mesmo dia da divulgação do vídeo, quantas pessoas não se alimentaram de carne? Usaram maquiagens e produtos que certamente foram testados em animais? Quantos não consomem produtos provindos de origem animal, como roupas e objetos? Quantos, ainda, não pagam espetáculos de circos que usam animais de forma indevida? Quantos não apreciam o horror da cultura do Rodeio? O próprio sistema social criou vias de aniquilar a vida de animais que podem causar malefícios aos homens e a sua saúde, criando a "Zoonose" que investiga e rastreia os animais de rua, sem dono e, ao invés de tratá-los, os matam para não "prejudicar a sociedade", com o CONSENTIMENTO de todos. O vídeo da enfermeira causou espanto pois ela fez a ação com as próprias mãos, atingindo uma crueldade não "realizada" pela população todos os dias. Ao contrário de Camila, não matamos com nossas mãos, pagamos para que outros  façam. É assim quando compramos carne e produtos a base do sofrimento animal. Todos nós somos reú nesse julgamento.




E, apesar dos inúmeros argumentos de que o cachorro é mais relevante que uma vaca e por isso a comparação seria esdrúxula, o conceito não pode ser realmente visto com seriedade. Em países ocidentais é natural comer carne bovina, mas não a de cachorro. Nossa cultura caracterizou o cachorro como "amigo do homem", separou animais para serem domesticados para consumo e serem domesticados para servirem a humanidade. Na India, uma vaca é sagrada, logo, seu consumo é um pecado. Há países que não definem o cachorro como animal doméstico, mas como comida. O fato é que todos  animais  deveriam ser respeitados, mas TODOS nós não respeitamos, de diversas maneiras. O fato de acharmos que o comportamente da agressora está distante do que nós mesmos fazemos todos os dias com os animais é uma tremenda hipocrisia humana. Nós, também, agredimos os animais. Talvez, não espancando até a morte, mas pagando pelo seu sofrimento e ainda pensando que nossa conduta está sendo mais ética do que a dessa senhora. Não estou defendendo a postura maldosa dessa senhora, mas querendo ampliar um olhar que adquirimos de que maus-tratos a animais se restringem em matá-los com as "proprias mãos" sendo que pagamos para assassiná-los diariamente. Se o mesmo é para ser morto ou somente membro de um núcleo familiar, será relativo a cultura do local, de forma que a espécie tem suas peculiaridades dependendo de como a região a trata; o aspecto não é humanístico, mas sim cultural. Fato este que faz com que o Brasil não mate e não aceite a morte de cachorros para consumo, mas faça uso de carne bovina, ao contrário de países que comem carne de cachorro e não bovina.




A humanidade deve compreender suas ações de forma abrangente para desmascarar nossas facetas incongruentes, mas que guardamos dentro de nós como sinônimo de normalidade; de necessidade. Os animais fazem parte da natureza, assim como nós, e todos precisamos dos recursos ambientais para viver e sobreviver. Julgar (fora de uma jurisdição) essa mulher e sua família querendo agredi-la é equiparar-se com o próprio comportamento realizado pela mesma, invertendo apenas o papel do agressor e vítima. Os animais devem ser respeitados e não nasceram para servir o homem (como o mesmo imagina). Que deixemos nossa excedente hipocrisia de lado, ou melhor, que seja excluída de nossa pequena visão e possamos ver com totalidade que também contribuímos diariamente para a morte, maus-tratos e degradação da vida animal. Direta ou indiretamente somos responsáveis por este absurdo humano.




Eis, aqui, uma pessoa que orgulha de ser vegetarina, mas é consciente de que ainda precisa aprender (e mudar) muito para alcançar o verdadeiro respeito aos animais.





sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Meu Eu. Eu Meu.




Tem um mundo dentro de mim. Um mundo que não conheço, que busco encontrar, mas que a mim se fecha, toda vez que tento entrar. Um mundo estranho, sem definições ou sonhos. Que vive, às vezes vegeta, mas existe. Sem demarcações, ilusões ou mapas orientadores. Não sei bem o que quer ou o que sente. Mundo vasto, de histórias grandes e tensões constantes. Fala, mundo! Fala de forma inteligível, não se vigie para o infinito e se guarde para o abstrato. Floresça na primavera, se desfolhe no outono, se guarde no inverno, mas sinta todo o calor da sabedoria.



Não se aprisione em moradas temporárias, em dias não vividos pela decepção do enfrentar. Nasça artista, crie o impossível, questione o diário e experimente o pensar. Sem delongas, nem mágoas, faça crescer a felicidade do encontrar, do indagar, do querer e do riso bonito, exteriorizado pela mais genuina vontade do gostar. Gostar do que fazer, do que falar, questionar, gostar, sobretudo, do que se é. Eu sou. Eu estou. Eu, único, exato, incomparável, insubstituível. O eu sempre. O eu  individual, não o eu egoísta. O eu amar, amar singular, primeira pessoa. O eu (constantemente) se olhar, melhorar, volitar. O eu que preciso encontrar nesse mundo fechado, que não aceita me orientar.



Egoísmo - ou não - só desejo esse eu. Esse eu meu pra poder caminhar. Sem meu eu, não tenho tu, nem eles, nem vós. Não posso ser plural; não posso me juntar, pois como saber qual minha parte, se não sei minha composição. Eita, eu difícil, teimoso, danado. Se afoga sem pedir ajuda, fica nas margens sem andar. Eu, quero te amar. Eu meu, meu sempre, que só preciso encontrar, amar, sonhar e despertar do mundo fechado para o mundo aberto do transformar. Um mundo de infinito pensar e iluminar. Meu eu, eu meu.




sábado, 3 de dezembro de 2011

O Velho e o Mar.



O velho gostava daquele mar incógnito, distante e raivoso. Olhava para longe e esperava algo acontecer, como se toda aquela quantidade infinita de água guardasse um segredo ou felicidade a ser desvendada. O velho era do mar e ele acreditava fielmente que o mar era dele. Mais que isso, que o mar fora feito para sua contemplação religiosamente diária. Acordava cedo, buscava localização segura para higienizar-se e tomava um punhado de café preto, quente e amargo. Amargo como a vida que levava sem seu mar. Quando o escuro se despedia e o sol alcançava a costa, via seu barco nas margens; um barco velho e gastado por um tempo incalculável de jornadas que traçava em suas tempestades em busca de seu "peixe grande". Criava metas, sonhava com o impossível e podia, muitas vezes, se ver atravessando na extensa faixa de areia arrastando um ser grande, natante, que demonstrava ser um lutador nato, que brigara com ele para não sair do seu lugar, do seu divino mar. Sonhos distantes em que via (cheio de ego) toda comunidade da costa lhe cumprimentar e parabenizar por um feito comum, mas que para ele representava o mais doce sonho vivido: o sonho de sua existência.





Era um velho estranho, esquelético e sagaz, com proporções corpóreas disformes e um único amigo na vida: aquele menino pequeno, bondoso, que lhe guardada comida e uma profunda amizade. Um menino que era do mar e que a ele servia, para ser sempre servido. Ambos se uniam com a mesma força, o mesmo gosto e a mesma paixão: o mar. Seu mar. Um mar que ofertava belezas diversas, tempestades constantes e alimentos abundantes para uma população corriqueira, sem metas e medidas, mas atuantes em suas necessidades e buscas, não esquecendo nunca de cada tarefa a realizar, como pescar e preparar sua ceia. O velho era formado por sua aldeia, seu povo, seu menino e seu mar. Queria ter um único feito na vida: pescar seu peixe grande e, depois, nem sabia mais o que desejar, o que poderia mais querer dessa vida curta, em que o disfarce do amor é vendido, a felicidade comprada e as ideias já formadas e enquadradas sem o homem pensar.




Era um velho saudoso de suas águas, sonhador convicto e amigo de seu amigo, o menino mais bondoso das historietas sobre um homem e um sonho. Um velho que partiu para longe da costa, encontrou seu sonho da forma mais viva que alguém poderia achar e lutou por ele como um guerreiro forte - embora todas as condições fossem contrárias. Um velho que retornou mais magro, com seu barco ainda mais "capengado" e com seu ideal puxado pelas costas. Arrastando seu peixe como trofeu e finalizando uma narrativa bonita não por sua complexidade, mas por apresentar da forma mais simples possível um velho, um sonho e um surpreendente mar.



Minha homenagem a obra mais encantadoramente simples e genuina (por isso rica e complexa) que a literatura norte-americana escreveu "O Velho e o Mar" de Ernest Hemingway. Um velho, o mar e, principalmente, um sonho.




terça-feira, 15 de novembro de 2011

A História de Ian.

 

Naquele momento ele experimentou, pela primeira vez, um sentimento diferente de tudo o que já havia sentido. Em toda sua vida, nunca tinha sentido algo tão singular. Ian, com apenas  cinco anos de idade, sabida que, aquele momento, frio, estranho e torturante marcaria sua vida para sempre, de alguma forma. Era seis horas de uma tarde de outono que havia deixado todas as árvores que conhecia peladas "Por que isso, mamãe?" "Porque é outono meu filho, logo, quando for primavera, será diferente e teremos todas as espécies de flores pelo bairro" "Manda esse tal de outono embora, ele não tem direito de levar as folhas das árvores" Sua mãe, uma mulher magra, baixa e com poucos cabelos, ria do filho, desistindo, após várias tentativas, de explicar que  "o tal do outono" não tinha forma, embora deixasse cor por onde passasse. A caminhada, na verdade, levaria até a "Rua das Magnólias", local com muitas casas, um mercado velho e um abrigo para crianças. Lá, dizia a mãe "tem comida todos os dias e cama também, meu filho". Mas Ian não gostava de ouvir aquilo, embora não conseguisse explicar o porquê. Na porta do abrigo, podia-se ver crianças correndo para todos os lados, brincando, lendo e andando de mãos dadas com pessoas adultas (que pareciam gigantes perto de sua mãe).




Quando chegaram e sua mãe soltou sua mão da dele, um frio gélido caminhou pelo seu corpo. Ele não sabia, mas sentiria aquele frio pelo resto da vida, mesmo quando acreditasse que poderia chegar a ser feliz. O toque leve de sua mãe na porta, fez com que o pequeno aprendesse, pela primeira vez na vida, a perguntar o que estava acontecendo, o porquê de estarem naquele lugar estranho, que tem adultos, crianças, mas de nehuma forma se assemelha a uma casa, um lar. "Será só por um tempo, meu amor. Assim que a mamãe ficar com saúde e puder trabalhar, virei te buscar" Não! Gritava o menino, em meio ao choro seco da mãe, com uma tosse grave que avisava que, naquele corpo, a vida despedia-se aos poucos. Uma mulher alta, com vestes religiosas veio ao seu encontro, o fez - com muita força - entrar naquela "gaiola", com muros altos e pessoas estranhamente incompletas.




Duas semanas depois, a mesma senhora magra, lhe chamou antes do café. Ian, mesmo com seus poucos cinco anos vividos, sabia que algo na sua vida jamais voltaria a ser igual. Sua mãe, morrera, com apenas vinte e cinco anos. Ian, sem dinheiro, família, com um pai desaparecido neste vasto mundo, que o negou e o viu como uma entrave ao seu crescimento. Ian, um sozinho no mundo de solidão. Sozinho em um mundo absolutamente estranho, onde se pensa que o amor é um antigo conhecido, sendo apenas uma ilusão do egoísmo da vontade dos homens. Assim, os dias passaram, os anos chegaram e logo tornou-se um adolescente. Quando adulto via homens chorarem a morte, sentirem raiva, solidão e medo. Não entendia porque eles reagiam estranhamente a sentimentos que, para ele, eram velhos conhecidos desde a meninice. Ian não teve adolescência ou vida adulta de surpresas. A vida já havia lhe apresentado todas as formas de sentimentos possíveis a um homem.





Com 65 anos, descobriu uma doença no pulmão, resultado dos inúmeros maços de cigarro que consumia diariamente, depois que descobriu que o cigarro, de alguma forma, lhe tirava a ansiedade, extraindo para fora um sofrimento que nunca soube administrar. Morrera cedo, com certo sofrimento físico e a certeza de que a vida era coisa maldita, sem graça e difícil demais para viver. Não deixou filhos, nem casou-se, pois tinha um medo terrível de construir uma família "E se eles forem embora e me deixar?! Não, já aprendi viver sozinho". Sozinho viveu. No enterro, três crianças que o atentavam na rua, quando ele vendia suas balas, lhe deixaram flores. No túmulo, nenhuma foto. Ian se achava feio, nunca tirava fotos. Morreu com um homem sofrido, solitário e infeliz, criado em educandários, sem perspectiva e satisfação; sem nehuma pessoa que quis verdadeiramente o amar, deixando no mundo a única pergunta, que se repetia todos os anos, mas que nunca lhe foi respondida "Por que, Meu Deus?" .





domingo, 6 de novembro de 2011

Para Quê Isso, Companheiro?



Estudantes da USP levantando a bandeira do poder de policia como forma de repreensão e colaboração para violência, escondendo-se em camisetas, panos, comunicando-se através de cartazes e utilizando como ferramente de "luta" a falta de diálogo e, controversamente, a violência.



No decorrer da história da humanidade, depois que a intelectualização, discussão e conhecimento integraram a sociedade e tomaram forma de instituições e acadêmias,  estudantes iniciaram uma forte e determinante atuação na liderança e propagação de reivindicações sociais. Homens de saberes e reflexão foram os responsáveis pela divisão entre o arcaico e o moderno, educando (com muito esforço e argumentação) a ideia do novo, da justiça social e de que o sistema social, de alguma forma, deveria ser modificado e melhorado. Estudantes, talvez pela paixão pelo conhecimento, por estarem alimentando a mente diariamente de questionamentos e compreendendo muitos aspectos de ciências diversas, foram protagonistas de muitas buscas. Muitos não sobreviveram. Muitos iniciaram uma luta (como na Ditadura Militar) sem volta, mas lutaram por algo real, contra um funcionamento social distorcido que beneficiava poucos, segregava muitos e exercia uma política unilateral sobre um povo, o subjugando. Por sabermos que no passado esses "protagonistas" construíram uma história singular, exteriorizando a busca de uma política equilibrada, mesmo que não tenha sido pela construção de um diálogo absolutamente inteligente, observamos com grande mediocridade essa leva de estudantes dos "tempos modernos" que pensam estar entrando na História (e lutando por algo relevante) ao fazer uso de drogas, mascarando suas caras e sentando no chão das instituições, com seus cartazes e faixas de natureza "revolucionária".



Não, não estamos vendo um registro da luta contra o poder paralelo, mas sim estudantes (futuros profissionais) exercendo o vandalismo como propagação de ideias avançadas sobre liberdade e repreensão.



Em razão de mais uma invasão na renomada "Universidade de São Paulo", pelos próprios estudantes da instituição, mostrando faixas com dizeres de "transformações sociais" e relatando estarem sendo agredidos em seu direito mais genuino:a liberdade, verificamos um comportamento absolutamente distante de qualquer luta social, baseado, na verdade, na indisciplina e falta de ética, educação e consciência. Esses novos estudantes, infelizmente, nada aparentam com nossos exemplos anteriores que almejavam uma modificação concreta e correta. Que lutavam pelo acesso e dignidade de vida. Essa manifestação, pobre em seus argumentos, vazia em sua busca e prejudicial em sua execução, gera apenas violência; afirma desejar a liberdade, mas vive na escravidão do mundo das substâncias tóxicas e paraliza o espaço físico que deveria estar sendo usado como espaço para a aprendizagem e o saber. Que luta é essa? Qual será o final de uma manifestação de interesses pessoais e não coletivos? Quem são esses estudantes que não se mostram de cara limpa, que necessitam esconder-se em máscaras e usar a violência física para estabelecer o que é certo? E o que é estranhamente medonho é o fato de não serem mais adolescentes, estarem vivendo no mundo adulto, de responsabilidades e, pior, preparando-se para exercerem uma profissão, atenderem a sociedade. Pessoas que, supostamente, ensinarão uma criança sobre cidadania, que prescreverão tratamentos para doenças físicas e mentais... futuros médicos, professores, cientistas, advogados que levarão como bagagem valores e buscas sociais que não se compactuam com a ideia de respeito, cidadania, conscientização e reflexão.





O cenário de "revolução" atual nada mais é que indivíduos em formação profissional, iludidos sobre o que seja a luta pela democratização global, paralizando a vida deles mesmos e de muitos outros setores com essa reivindicação de jovens, claramente, sem nenhuma educação moral. Pessoas que certamente nunca precisaram trabalhar para comprar um alimento; decoraram conceitos de classes sociais mais nunca vivenciaram as consequências da segregação e pobreza. Jovens que (ao contrário da maioria dos brasileiros) podem estar matriculados em uma universidade pública e ocuparem todo seu tempo em prol da sua própria formação profissional (embora a situação atual indique o oposto); jovens que não necessitam trabalhar para financiar seus estudos e debocham de uma instituição que deveria formar cidadãos e profissionais conscientes e humanizados para nossa realidade social. Se o sistema legal tivesse realmente respeito pelo povo, criaria uma lei que desligasse estudantes que monopolizam uma instituição para interesses de rebeldia e indisciplina, viabilizando vagas para milhões de jovens brasileiros que desejam estudar e modificar (verdadeiramente) o sistema, colaborando, como futuros profissionais, para as condições de vida que permeiam na mendicidade; oferecendo várias cadeiras para jovens que valorizam o tempo acadêmico, trabalhando em ideias e concretizando projetos de desenvolvimento social.





Manifestações dessa natureza não vão cessar e enquanto o sistema legal e educacional aceitar essa desordem ocasionada por pessoas que ao invés de serem educados para deter a violência e a mediocridade, são autores dela, vivenciaremos essa nova forma de terror social, de pessoas que dentro de uma UNIVERSIDADE criam formas de prejudicar o coletivo, mascarando suas caras e ideias sob a luz da revolução, mas nutrindo a luta mais egoísta que há: que a liberdade extensiva, que afeta o outro, mas garante que suas necessidades sejam atendidas, é o mais relevante, não importando o que aconteça com o coletivo durante a manifestação. Medo dessa geração de estudantes que trocaram o papel do pensador na sociedade, alternando sua função de operário tranformador para vândalo opressor.




  




sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Eu Nasci com as Flores.



Eu nasci junto com as flores
Me misturei ao colorido delas
E não pude encontrar o meu
De tanta beleza que vi, meus olhos umideceram



Assim, todo ano de flores renasço.
Busco desabrochar com minhas aniversariantes
Desejando que nasça de mim flores diversas
Que sobrevivam no campo e também em estufas



Almejo flores raras, bravas em qualidades
Serenas em sua integridade
Mas que sejam minhas pela eternidade
Colorindo dentro de mim as minhas animosidades



Quero que minhas flores amadureçam
Que saibam abrir-se nas chuvas e no sol
Não fechando-se em cada intempérie
Que sejam flores lindas e virtuosas



Que minhas flores nasçam na primavera
Não briguem com o verão
E nem me abandone no outono.
Flores que deixei brotar com esforço



Que não me abandonem, e criem-se mais e mais em mim
Tirando-me de vazios
Preenchendo-me de saberes
E, com tudo, mantendo-me na mais bela harmonia
De um universo pleno da paz nobre, da beleza real das coisas e do mundo.




Ao meu 23 de setembro, que me deu ao mundo para nele aprender a caminhar.



segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Ser ou Não Ser, Eis a Questão.




Ter identidade e posicionamento social é algo absolutamente complexo.
O variável não pode fazer parte do ato de ser e estar no mundo. É preciso ter passos sólidos, partido político definido, ideias determinadas e valores definidos do que seja correto e incorreto. O indivíduo sempre será definido como politicamente correto ou um imoral absorto em torpezas, será um santo ou pecador, religioso ou ateu. No decorrer da formação moral e social, o indivíduo percebe que obrigatoriamente deve definir-se integralmente para ser uma figura quadrada e visível no mundo, se não, será excluído dele. Observadora do mundo e das coisas, a mente aprende que precisa ser uma criança boa e educada, um adolescente propício a ter um excelente futuro e um adulto de sucesso, que preencha todos os requisitos de admiração social: ambição, modelo e estabilidade. O sistema exige, o homem se torna. O sistema decide a felicidade, a matéria, a escolha e permeados de tanta influência, não é percebível que tais escolhas já estavam prontas e moldadas, restando a nós somente a parte de enquadrarmos no sistema.






Ter uma profissão (de preferência com status sociais e renda elevada), uma religião cristã, que não afete e contrarie o coletivo e não questione as determinações alheias, um comportamento comum (já que o que difere amedronta psicologicamente a sociedade), são tarefas a serem cumpridas desde que o indivíduo compreende seu meio social, familiar e profissional. Na formação intelectual o indivíduo busca informação para excecutar um ofício, na formação de uma unidade familiar eles se tornam pais, mães, tios... de forma que a vida e a sociedade ensinam que, de alguma forma, definir-se através de um dado, título ou ação é um tipo de obrigatoriedade para viver no coletivo. O indivíduo se torna múltiplo, com designações, muitos papéis a cumprir, mas pensar e escolher, na sua forma mais verdadeira, não são atividades exercidas, pois não precisamos pensar. Precisamos apenas repetir valores estabelecidos, buscas repetidas e ações de cunho social e profissional que já foram idealizadas desde tempos de outrora. O porquê das nossas buscas, a importância (ou não) delas e o que seja a verdadeira felicidade, não sabemos. Não perguntamos para ninguém, muito menos para a principal pessoa interessada: nós mesmos. Ter personalidade, na visão do outro, é absolutamente fácil. Basta ser, pensar e valorar as coisas e o mundo de acordo com a maioria. Ter personalidade, dentro do patamar mais particular do espírito, exige reflexão, questionamento e racionalidade. Exige a permissão para o erro e o prosseguimento para construir o outro, a si e o mundo. Se ter uma identidade moral definida é andar profetizando convicções e certezas, creio que o convicto é um grande mazelado, proibido de pensar, modificar seus valores e poder reconhecer-se como errado, como ser que precisa ouvir e refletir para construir sua opinião baseada na análise do seus atos, pois sempre deve ser uma unidade intransformável na visão alheia.






Se o tempo continuar passando freneticamente e eu não me encontrar, formando uma opinião decisiva das coisas e do mundo, talvez seja porque não preciso achar o que os demais idealizaram para mim, sem mesmo me conhecer. Se o tempo passar e eu ainda não saber o que sou, quero e o porquê de tudo, devo aceitar que a normalidade está naqueles que são formados mais pelas dúvidas do que pelas definições. Que eu possa lutar para não ser mais uma "ficha no mundo", contendo meus registros, a profissão que escolhi, o instituto que labuto, minha renda anual, o marido escolhido, a quantidade de filhos e uma religião para frequentar semanalmente. Que eu possa me lembrar de Deus fora de um templo, fazer o certo enquanto os olhos dos demais não me alcançam e ser um tipo de gente que não acha que as pessoas só devem ser respeitadas pela sua casa, roupa  e posição que ocupam. Que eu possa trabalhar transgredindo a mediocridade, o óbvio e a necessidade do tratamento elevado, não preocupando-me com estimas, mas com o que aprendi, o que aprendo e o que posso aprender (e ensinar). Que eu possa errar e acertar, e aprender por estes dois caminhos, que apesar de diferentes, conduzem a mesma condição:aprendizagem, mas não deixe meu espírito medíocre, quieto, lapidando, diariamente, as grandes mazelas que tenho dentro de mim. Eu não sei, mas estou aberta a compreender. E é aí que começa todas as grandes jornadas. 






Literatura: A Arte do Pensar.





Muitos intelectuais afirmam que ler livros de literatura é uma atividade improdutiva, pois uma quantidade de tempo significativa é utilizada na absorção de informações que não são técnicas, específicas para formação profissional do indivíduo. Eu não acho. O que me fascina nas narrativas, dos variados gêneros, é a capacidade de caracterizarem a conduta humana e os sentimentos que regem e definem o comportamento do indivíduo. Ler é aprender ilimitadamente, infinitamente. A leitura desenvolve uma visão abrangente da vida, a identificação de signos diversos, questionamentos e reflexões que só podem nascer no ato de exercitar a mente. Um bom romance pode nos ensinar mais do que qualquer intelectual possa mensurar. A magnífica escritora inglesa Jane Austen, por exemplo, descreveu um período histórico que pôde de forma simplória ser compreendido e analisado a partir do comportamento e conduta de seus personagens, e dos valores inseridos em todas as suas obras, demonstrando a realidade da época e os hábitos da população, através de diálogos inteligentes e narrativa crítica e eminente. Machado de Assis, possuidor de uma escrita realista, crítica, linguajar erudito e preciso na construção de seus personagens, descreve a decadência da moral social e as angústia permeadas no caráter humano. Seus personagens não são heróis perfeitos e bondosos, sem qualquer tipo de sofrimento. São doentes, neuróticos, isolados, com pensamentos melancólicos e aprofundados num intenso medo de viver. Cada escritor concebeu obras de acordo com seu tempo, sua visão e as experiências que vivenciaram naquela realidade social. Nesse sentido, literatura é vida, aprendizagem e documentação histórica, mesmo que ficcional, que provocam as mentes para pensarem, criticarem e refletirem.





Embora muitos críticos e estudiosos determinem a literatura com especificidade, com características que a definem em um único gênero, tendo uma rota sempre específica, sua versatilidade é superior a padrões e delimitações estabelecidos, não podendo ser limitada ou agregada em poucos caracteres. A literatura se transforma juntamente com a história da humanidade, criando escolas literárias, estilos de época e narra especificidades dos principais momentos de transformações sociais. No livro "1984", de George Orwell, é notável o desassossego de uma homem insatisfeito com seu tempo, temeroso de seu futuro, preso nas questões políticas que vigoravam na época. Orwell, temeroso do futuro da sociedade, criou uma ficção sobre o possível surgimento de uma estrutura societária escrava e oprimida pelo sistema político, criticando admiravelmente o mundo pela voz de seus personagens. O livro é uma distopia, um grito desesperado de um indivíduo que achava seu sistema oprimido, segregado e desumano, vislumbrando um futuro caótico e tirano. Em "Madame Bovary", o intelectual Flauber nos apresenta uma mulher infeliz, infiel, que se casou por interesse social, mas não suportava sua própria  existência. Em meio a romances românticos e mocinhas puras, Emma Bovary iniciou o "Realismo Literário", em que as relações humanas eram base das narrativas, apresentando aos leitores a vida de forma explicíta e real. Tais exemplos ratificam o poder da literatura, não só para entreter, mas para questionar, ensinar, criticar e traduzir todo pensamento de várias gerações. Obras que explanam o funcionamento social da época, narram valores de variadas sociedade e servem, portanto, não só como passatempo, mas para instruir a mente e ensiná-la sobre diferentes e inúmeras questões, mesmo não sendo um texto técnico e voltado para formação profissional. Portanto, estudar textos clássicos, entrar em contato com obras de profundo valor humano, histórico e social é enriquecer as possibilidades infinitas da mente e, independente da formação profissional do indivíduo, a leitura de livros proporciona uma habilidade extremamente necessária para qualquer ofício: criticidade.





Infelizmente, por motivos de formação escolar e interesses pessoais, a literatura tem sido pouco aproveitada como fonte de reflexão e emancipação da mente humana. Se fizermos um diapasão com outras ciências, ela é definida como disciplina extra, sem prioridade e admirada por grupos pequenos, sem a devida atenção coletiva que deveria ter. Literatura é aprendizagem constante e diversificada, pois ler um livro é conhecer um novo mundo, com diferentes opções e divagações. Não continuamos a ser os mesmos após a concluir a leitura de uma obra literária. Através da leitura constante de livros, a mente desenvolve habilidades fundamentais para vida pessoal e profissional: criticidade, opinião, questionamento, racionalidade, compreensão e, sobretudo, sabedoria para entender a essência humana e diferentes tipos de comportamento social. Ler é crescer e a leitura é necessária para formação profissional e pessoal, não sendo conveniente aniquilar uma em detrimento da outra, mas buscar ambas para o aprimoramento intelectual e moral do caráter humano, acrescentando, assim, tanto valor profissional quanto valor pessoal na construção da personalidade.






A escrita, leitura, literatura despojam o homem de sua ignorância e  achismo, o despertando para um patamar superior a definição de espaços, tempo e tradições. É viver além dos limites que a ele são imputados, tornando seu intelecto absolutamente mais importante que as designações que são socialmente impostas como necessárias felicidades. Ler é crescer.







domingo, 7 de agosto de 2011

O Direito Que (Des)Serve o Cidadão.





O estudo das leis nasceu da necessidade de formular uma ética de convívio social baseada na igualdade, delimitando o que seja legal e ilegal, a fim de definir todos os atos que sejam prejudiciais ao indivíduo e ao coletivo. A construção das normas, deveres e restrições formaram um conjunto de ideias precisas e totalitárias, originando o código base dos direitos e deveres dos cidadãos na sociedade: a Constituição. Um Estado que obedece uma Constituição é uma organização democrática e comum a todos os cidadãos e extremamente relevante, pois não individualiza direitos e acessos, visando o benefício de/para todos. A eminência da Constituição, nascida para  melhorar e equilibrar o comportamento social, proporciona a ideia de igualdade plena, justiça social e direitos humanos invioláveis à população. Mas, infelizmente, tais premissas, tão defendidas na Constituição do Brasil, não tem sido assimiladas e executadas com totalidade na sociedade. Ao necessitar fazer uso das leis, os cidadãos, em sua maioria, se deparam com a primeira incoerência: as leis são feita para os homens, mas os homens pouco tem acesso as leis. Os direitos e deveres voltados aos cidadãos deveriam ser como o alfabeto: assimilados pelo povo durante sua formação escolar. A população deveria obrigatoriamente compreender as leis e sua sistematização, assim como os direitos e deveres que temos enquanto cidadãos, mas, para o sistema, a ignorância permanente sobre os principais caracteres do direito, é a forma mais simplória da "democracia maquiada" continuar sua expansão.





Em consequência da ignorância sobre o sistema legal e a precária formação intelectual fornecida pelo Estado, os cidadãos encontram duas grandes dificuldades ao solicitarem os serviço jurídicos: as leis, criadas de forma complexa aos olhos da população, tornam-se de difícil entendimento e não assistem os direitos definidos como primordiais pelos homens e, como segunda e significativa dificuldade, há a formação dos profissionais da área, especialistas dos códigos legais e autoridades aptas a requerer o cumprimento da legislação vigente, no intuito de unir os homens aos seus direitos e anular toda ilegalidade cometida em sociedade, mas apesar da suposta formação humana e social, as instituições de nível superior estão formando profissionais técnicos e sumamente preocupados com a hierarquia e autoritarismo do que com a função social da profissão. O curso superior de Direito, cujo objetivo maior é capacitar os educandos a compreenderem as leis e sua aplicação, deveria criar um olhar coletivo nos graduandos, imprimindo nos mesmos o raciocínio justo e a conduta  para o bem comum. Mas não é o que ocorre em totalidade. Grande parte destes profissionais preparam-se somente decorando leis, voltam seus objetivos para a construção de uma satisfatória carreira pública, não sendo formados  para o entendimento social e moral da realidade de sua sociedade. Muitos, formados por uma formação intelectual e moral baseada na mediocridade, se envaidecem  mais de serem conceituados como doutores (mesmo sem o complexo grau do Doutorado, que forma um intelectual pesquisador e minucioso em seu ofício), do que com a possibilidade ímpar de propor ações sociais, humanas e justas. Acreditam que o Direito deve ter estudo e aplicação formal, com indumentárias específicas e linguajar erudito; mas afastam-se da humanidade, do diálogo e do homem. Afastam-se dos cidadãos que sofrem, que não tem seus direitos básicos resguardados; do cidadão que vive na mendicidade, precariedade e, sobretudo, dos que não tem dignidade de vida humana. A ciência jurídica deveria formar trabalhadores sociais e humanizados e uma instituição menos formal, menos burocrática e mais social, que servisse o cidadão na busca de justiça plena.





Para o direito ser efetivado na sociedade, se faz necessário que os órgãos, voltados para fiscalização e aplicação da lei, sejam coerentes e integralmente para o povo, com o povo; e não permitir essa sistematização medíocre que afasta o homem de sua lei, que se esconde com palavras eruditas para definir-se como inteligente e cria títulos dentro da hierarquia para endeusar profissionais, mas não os prepara para realidade social do país. A lei, sendo para o homem, deve ser criada e aplicada para o mesmo, com humanidade, coerência e clareza, não sendo executada com vaidade institucional e excesso de autoritarismo funcional. Tais fatores empobrecem o sistema jurídico que, ao invés de construir-se sob prisma humanista e social, tem fornecido mais vaidade e formalismo a população do que prestação de serviços coerentes e em consonância com a igualdade social. Se faz necessário construir uma nova forma de Direito, baseada integralmente nos ensinamentos da ética e justiça, formando as instituições responsáveis pela execução do direito e os profissionais servidores dela, com perfil humanista, social e solidário, a fim de que a própria prestação de serviços jurídicos esteja de acordo com a justiça e não utilizando parcialmente a mesma, continuando a formar profissionais que em contradição do que prega a ética, não utilizam a lei, pensam ser e lei e aniquilam toda possibilidade de trabalharem para o desenvolvimento de uma sociedade equilibrada, justa e correspondente, afinal, com o sistema legal.








sábado, 16 de julho de 2011

Um Início Incompleto. Um Infinito Desabrochar.




E faltava algo naquele ser. Algo que necessitava amadurecer, florescer ou sanar. Uma parte imaterial, escondida em um recanto protegido de tempos outroras; de tempos em que negações e receios eram um caminho fácil de resolução. Era algo pertubável, que exigia atenção, que fazia-se ver em cada amanhecer e pedia por interpretar-se. Uma energia pulsante, ainda fraca em sua natureza, que nascera com o lógico propósito do progresso: implorava por sua melhoria. Aquele ser, imbuído de fragilidades e descrenças, sabia instintivamente de sua condição, das partes que guardava e nutria em si, dificultando e ditando seus caminhos sombrios; mas não buscava coragem para agir, para domar aquilo que carregava como algo inexplicável. Tentava expulsar o inquilino com suas lágrimas, suas admoestações e comparações com qualquer unidade paralela. Ainda era frágil. Ainda um ser crescente, que não conseguia atingir suas necessidades, assim como a semente perto da árvore que deseja tornar-se viva, mas não encontra condições para germinar-se. Assim estava: estagnado em sua forma. Sabendo da existência da luz em meio a sua escuridão. Consciente do poder de sua força diante o confortável espaço construído em seu lar íntimo e desassossegado. Sabendo que seu destino não mais poderia ser do que da sabedoria intensa e da estranha magia do amor, mas adiando seu caminho para encontrá-lo.





Faltava algo nele. Algo ainda profundo, necessitado de educação e auxílio. Que o levava a caminhos pedregosos e conflitos repetidos.. Que o fazia enxergar pouco, com as vistas embaçadas e saberes restritos. Um pleno e grande vazio. Algo que buscava ser modificado, que não podia mais esconder, mas melhorar. Um restante comum, típico de qualquer forma de vida pensante e inteligente, cansada de seu fracasso e sonhadora em volitar em sentido contrário. No sentido da infinita paz de reconhecer-se como vida florescente e eterna. Sim, uma parte obscura, mas ciente de suas capacidades. Uma parte que não se demorará a ser luz brilhante, condensada pela graça do conhecimento do amor. Um ser que em pouco tempo não  terá mais a temerosa sensação de ser incompleto, pois será mais e mais no infinito de seu caminho. Um ser já compreensivo das bagagens que carrega em sua viagem; acostumado com o que é pesado, compreensivo com os caminhos que lhe incomoda, mas paciente com suas particularidades. Um ser que ainda não voa como os anjos, mas já não encontra-se guardado em seu casulo. Já é força brava, inteligência dominante. Já é um pingo impagável de luz em meio a um universo de seres em evolução. Assim, será flor desabrochando e não semente sem vida e luz. Assim será o que deve ser, caminhando sem mazelas; tornando-se vida completa, sem retificações e restos incompletos dentro de si. Será mais, sabendo que só pôde ser mais, por ter conhecido e educado o seu menos.









sábado, 11 de junho de 2011

O Sonho de Israel.





Em um dia escuro de inverno, onde a neblina cobria toda a cidade, Israel achava-se na rua 15, na frente da  "Igreja das Graças", local  que visitava todos os dias pela manhã. Não que fosse um menino religioso, afinal, com seus nove anos, seduzia-se por qualquer coisa deste mundo, menos por regras e normas de conduta. É que o menino ruivo, de cabelo sapeca, adorava esconder-se atrás das árvores da velha igreja, pretendendo investigar tudo e todos que passavam naquela rua. Com uma inteligência considerável para uma criança, Irsrael realizava seu trabalho de "espião" há mais de 10 meses. Para ser mais exato, desde que o "Circo Alegria" foi embora da sua pequena cidade, Israel arrumou, em uma mochila, um punhado de  roupas velhas e as guardou em um restrito compartimento do substrato da igreja, desejando, quando o circo voltasse, ir embora com eles. Claro, não contou seu intento a ninguém, tremia de medo de nunca mais ver sua mãezinha, que todos os dias saía cedo de casa pra trabalhar na casa dos Gonçalves e retornava só tarde da noite, para esquentar sua ceia e preparar o leite mais gostoso que ele já tomara. Depois da ceia, já em seu quarto, via sua mãe fechar a porta, depois de beijá-lo e cobri-lo com a coberta mais fina e velha que já vira, movida por uma intensa  determinação maternal, como se quisesse brigar com o frio, para que ele não ousasse entrar naquele quarto úmido, frio, de paredes de madeiras, amolar seu filho.





Israel tinha sua mãe e sua mãe a ele. Sem ela, não tinha ninguém e sem ele, a vida dela era um vazio sem sentido, sem objetivo. Sabia que deixá-la seria como matá-la, mas desde que vira o "Circo Alegria", não pensava em mais nada na vida a não ser em torna-se um grande mágico. " Um mágico de verdade" sonhava ele. " Um mágico que cria coisas, que faz sumir objetos, que voa quando quer!" Assim, Israel vivia seus dias, pensando que, se aprendesse sobre magia, poderia criar coisas. Fazer magia poderia tirar sua fome, seu frio e sua mãe do trabalho da casa rica do centro da cidade. "Mãe, se eu fosse um mágico, poderia fazer aparecer comida quando quiséssemos, ter cobertores grandes e uma casa com parede de tijolos, não de madeira", enumerava ele para  mãe, deixando-a com um riso frouxo e alto toda vez que o menino emburrava quando ela explicava que aquilo era uma mentira, e que magia, de verdade mesmo, não existia. Para provar para sua mãe que ela estava enganada, o menino ia todo santo dia para a igreja, esperando que o circo chegasse, o levasse e pudesse aprender ser mágico e, só depois, voltar para casa para criar, criar tudo que quisesse para ele e sua mãezinha.





Naquele dia, enquanto sentia o frio mais intenso de sua vida, sentado em seu esconderijo na igreja, ouviu um barulho alegre e um carro de cor vermelha e amarela virando a curva da velha rua da igreja. Era o circo. E aquele moço alto e magro que estava rindo para todos ao passar, era o mágico. O mágico que não saía de seus sonhos. Possuído por uma alegria inexplicável, correu atrás do estranho veículo (que por conduzir-se devagar, não cansou nem um pouco Israel). Finalmente, quando o carro parou para montar suas tendas, Israel alcançou o mágico e sem preocupação nehuma com formalismos disse impaciente: 

----  Nossa, por que demorou tanto? Estou lhe esperando há meses e nada! --- O mágico, com uma mistura de surpresa e deboche, riu do menino.

----- Calma, calma, sei que demoramos muito, mas temos muitas cidades para visitar; mas, não se preocupe, já, já poderá ver novamente muita magia!

----- Não, não quero ver, quero aprender! Quero ser um mágico e criar, fazer aparecer coisas como o senhor faz! Olha, já trouxe minha mochila; quando vamos partir?

Rindo mais agora que antes, o mágico olhou o menino da cabeça aos pés, perscrutando aquela criança tão segura e ansiosa por realizar seu sonho.

----- Olha, menino, sei que gosta do circo, eu mesmo, quando pequeno, quis ser mágico por causa do meu pai, que tinha um circo; mas já que tem família e casa, não queira ser um mágico, estude para ser algo melhor. Tenha uma profissão que não lhe obrigue a ser livre no mundo, a nao ter destino fixo, está bem?


----- Não! Vou com o senhor só para aprender magia, para fazer coisas aparecerem e, quando souber, vou voltar para viver com minha mãezinha e ela não precisará trabalhar para levar coisas para casa, porque eu farei aparecer tudo que precisamos - explicou Israel com convicção, deixando, dessa vez, o mágico sem respostas e com os olhos marejados de lágrimas e fixos naquele menino bonito e, sobretudo, de um coração bondoso e sonhador.


----- Minha criança, a magia que sei fazer é uma magia diferente, que não faz aparecer o que queremos, como comida, mas sim aparecer coisas sem importância, que divertem a alma e deixa uma pessoa feliz. O que quer, infelizmente, não poderei ensinar e nenhum outro mágico no mundo inteiro poderá. Sinto muito!



Israel, ao ouvir essas palavras encheu os olhos de lágrimas. Seu sonho, o sonho mais bonito que já teve na vida, não existia: era uma mentira! Com sua mochila velha, saiu correndo pelas ruas, enquanto o mágico lhe pedia que o esperasse; chegando na igreja chorou o quanto pôde e prometeu para si mesmo que nunca mais sonharia com nada nessa vida. Voltou para casa. Sua mãe o esperava com uma sopa rala, mas cheirosa, já na mesa. Naquele dia dormiu cedo, não sentiu frio e desejou nunca mais desejar nada.



Acordou com sua mãe o balançando, alegre e chorosa na beirada da cama.

---- Israel, acorde! Veja! Veja! Ao levantar-se e olhar para fora, viu uma grande máquina de formato estranho e quadrada  e diversos alimentos que, segundo sua mãe, poderia ser colocado na máquina para preparar comidas de todos os tipos, como batatas, pipocas e guloseimas.  

 ---- Veja, tem um bilhete para você, meu filho. Ao pegar o bilhete viu cores vermelhas e amarelas nele. Ao abrir, confetes caíram no chão, deixando o papel livre para palavras que seguiam:


"Cara criança, passamos a vida a sonhar, mas nem sempre esses sonhos tornam-se reais. O que não quer dizer que esse sonho é uma mentira, mas apenas uma forma de nossos corações aprenderam a amar e descobrir o mundo. Seu sonho não era uma mentira, pois existia alguém que guardava ele com toda esperança: você. Não deixe de sonhar! E também não deseje poucos sonhos. Sonhe o quanto puder. Sonhe o que quiser! Aconteça o que for no mundo, não deixe que ele destrua seu coração e suas esperanças. Sonhos são as melhores lembranças de uma vida! Junto com essa pequena carta, chegará para você o seu sonho, não como imaginava, mas provindo do primeiro sonho mais bonito que já ouvi.

   Não se esqueça: acredite!

ASS: Mágico Que Faz Coisas Aparecerem.


Israel não entendeu a carta, mas a achou bonita e alguma parte de seu coração se apaziguou com aquelas palavras. Nas semanas seguintes sua mãe lhe explicara que não iria trabalhar mais na casa dos Gonçalves, pois com aquela máquina, poderia ganhar seu sustento. Neste dia, Israel viu uma magia bonita acontecer. Ao chegar na igreja que tanto gostava, sua mãe e ele prepararam guloseimas e pipocas e venderam todas que tinham! No final do dia, um carro de cor vermelha e amarela deixava à cidade e, quando passou na frente da "Igreja das Graças", o mágico, muito sorridente, deu uma gargalhada gostosa enquanto jogava confetes sobre Israel e sua mãe.




Depois daquele dia, Israel aprendeu a fazer sua mágica, fazendo coisas aparecerem em casa através do dinheiro provindo do trabalho com aquela máquina estranha. Com comidas gostosas, cobertores grandes e uma parede nova, de tijolos, Israel e sua mãe viveram bem. Bem e felizes. O menino triste e magro que vivia escondido na igreja, aprendera que a magia mais viva e forte é aquela que vem do coração. Ele tornou-se um grande mágico (à sua maneira) e depois que conheceu o "Mágico Que Fazia Coisas Aparecerem", aprendeu que sonhos são as melhores experiências da vida e nunca mais parou de sonhar.






terça-feira, 31 de maio de 2011

Legalização das Drogas: Uma Solução Utópica.





Legalizar ou não o uso das drogas, permitindo seu consumo de forma menos restrita na sociedade, tem sido o principal questionamento de caráter político e social  levantado pelos cidadãos e profissionais de diversos setores.  O objetivo, através de tal questionamento, é analisar meios de aniquilar umas das problemáticas oriundas da dependência química: o tráfico de drogas e, como consequência, o poder paralelo exercido pelo traficante. A epidemia das drogas, resulta em reações negativas diversas, como criminalidade, dependência e desordem social, por isso, encontrar meios de lidar com este desequilíbrio de fator social, físico e psicológico, é tarefa urgente dentro de uma sociedade dita moderna, onde o número de possibilidades estão desacompanhadas de educação e orientação. Os defensores da legalização das drogas fundamentam sua defensa na ideia de que, com a permissão do uso de drogas, ocorrerá a extinção do traficante, visto que as drogas serão produto legal e disponível de forma monitorada, não representando um crime, assim como o álcool. Defendem, sobretudo, a necessidade de lutar contra o tráfico de drogas dirimindo a principal figura deste tipo de crime: o traficante e, também, descaracterizar a figura do dependente visto como criminoso, para um indivíduo doente e escravo da sua dependência. Se a legalização das drogas representasse unicamente a descentralização do poder do tráfico e a mudança de tratamento em relação ao dependente, o definindo como um dependente, doente e não como um criminoso, tal projeto de lei poderia ser conceituado como pertinente, afinal, acarretaria benefícios no sentido de viabilizar formas de tratar a epidemia das drogas por duas vias: cessando o poder do tráfico e traficante e humanizando o tratamento oferecido aos dependentes.  O fato, é que tais vias, apesar de benéficas, não tratam e solucionam a mais relevante das problemáticas que o uso das drogas proporciona: a Dependência Química. Legalizar o uso das drogas buscando somente extinguir o tráfico e a criminalidade, não aniquila o problema real do consumo das droga que, indubitavelmente, é a dependência, que resulta em uma doença grave, crônica e degradante no decorrer da vida. Legalizar, não é solucionar. É necessário pensar e estudar todas as consequências da aprovação da lei, e não apenas o paralelo de toda situação, excluindo o principal problema da epidemia das drogas, ou seja, seu uso, seja legal ou ilegal. Legalizar as drogas não significa a cura de dependentes; não significa que o consumo será realizado de forma racional. Um dependente não controlará o uso de seu vício, sendo dependente dele. Legalizar as drogas significa, na verdade, que elas poderão ser comercializadas com o aval do governo, que possivelmente ganhará até imposto sobre a venda da nova mercadoria. Com drogas ilícitas tornando-se lícitas, veremos, com consequências muito mais graves, a mesma realidade ocorrida com a dependência do álcool. A venda lícita de álcool não aniquilou a presença de alcoólatras na sociedade. Muitos alcoólatras vivem sem tratamento contra o vício, sofrem preconceito social e a degradação da vida física e emocional é diária. Deploravelmente, vivem nas ruas, esmolando seu líquido e inconscientes de sua própria existência.






Legalizar as drogas defendendo um cenário social equilibrado, é utopia. O dependente das drogas não irá ser curado de sua doença por poder comprar drogas nos comércios. Continuará sendo um doente, necessitado de tratamento e atenção por parte do Estado. Além do fato de que a legalização não fornecerá  vias de recuperação para usuários, mas sim o seu uso "controlado" pelo governo, se faz necessário entender como será feito esse controle: Qual a quantidade que uma pessoa poderá comprar de drogas por dia? E se quiserem uma quantidade além da permitida? Se o dependente não tiver dinheiro para pagar drogas para seu consumo, o Estado disponibilizará gratuitamente para os dependentes? Em caso negativo, os mesmos continuarão no mundo da prostituição, roubo e crime para o sustento do seu vício? Ou será que a legalização das drogas servirá somente para a classe alta, que poderá custear seu vício com o consentimento do governo? O fato é que o dependente (sendo um doente), não poderá submeter-se a um trabalho remunerado para que, somente no fim do mês, possa fornecer ao corpo um pouco das substâncias que ele precisa. Um doente, não tem mais poder sobre si mesmo para realizar o que a sociedade pede. Tal fato pode ser comprovado nas "cracolândias", lugar em que pode-se presenciar "vestígios" de seres humanos, maltratados, dopados, deprimidos e abandonados. Um quadro de tristeza, desolação e desumanidade. Em cada dependente químico, não vemos somente um ser humano fragilizado e adoentado, vemos toda uma família assolada pela dor de perder um filho, marido e parente contra algo que ninguém pode combater, mas previnir. Combater as drogas significa aceitarmos que não somos e podemos tudo por sermos seres pensantes. Somos animais pensantes, dependentes do nosso meio e cheios de limitações. Limitações essas que nos fazem escravos e onipotentes contra algo que nos domina: as drogas





Nesse sentido, a legalização, apresentada com tais argumentações parcialmente favoráveis, beneficia integralmente o sistema capitalista que, não conseguindo lutar contra a força devastadora das drogas, pretende  unir-se a ela, extraindo o capital que pode dessa problemática. Legalizar as drogas resolve uma pequena porcentagem do problema, deixando significativa parcela em aberto, sem discussão, educação e esclarecimento. Aniquilar o poder do tráfico e traficante depende de medidas judiciais mais precisas e eficientes. Modificiar a visão da sociedade quanto ao dependente, o tratando como doente necessitado de tratamento, depende de genuina educação moral e social. Medidas essas que podem ser alcançadas com o uso das drogas permancendo em seu devido lugar: na ilegalidade, para que a justiça social continue a ser uma defensora dos homens e não uma comparsa em sua degradação individual e coletiva. Se legalizar as drogas for medida definida como eficaz para solucionar a epidemia das drogas, que o Governo possa esclarecer aos jovens, adolescentes e crianças que legalizar, não é controlar. Legalizar não aniquila o surgimento da dependência química. Não  impedirá os usuários de ficarem doentes, escravizados dentro do mundo das ilusões que a droga vende ser. Que nos artigos que comporem a legalização do uso de drogas, esteja claramente informado que o cidadão poderá comprar drogas socialmente, sem precisarem recorrer aos traficantes, que o usuário não é criminoso, mas que esteja, sobretudo, informado que mesmo sendo ação legal, as drogas resultarão em dependência, doença, degradação de vida, inatividade social e roubará o único direito que temos enquanto seres humanos: o direito à liberdade.



A única forma de combatermos integralmente a epidemia das drogas é extinguir seu consumo, pois, com a interrupção de seu consumo (através da prevenção ao uso das drogas), não poderá existir tráfico de drogas, dependentes químicos, vidas degradadas e uma sociedade desequilibrada.





domingo, 15 de maio de 2011

Homofobia: Um Crime Mascarado de Preconceito.






A Homofobia, absolutamente agressiva e preconceituosa, se manifesta degradando, excluindo e deteriorando o direito de cidadãos homossexuais viverem toda suas possibilidades e direitos sociais. De natureza doentia e intolerável, persegue, castiga e maltrata a condição sexual de um grupo, afirmando estar embasada na busca da proteção da moral e conduta social congruente, definindo-se como um meio de retificação na conduta dos ditos "cidadãos imorais" que optaram por viver sua sexualidade de forma definida como indevida. A homofobia exterioriza um comportamento distante da ética, respeito e educação, exercendo violências frequentes contra o homossexual; o marginaliza, deteriora, agride e afasta da sociedade, do convívio e da integração coletiva e, principalmente, dos seus direitos enquanto cidadão. O direito básico inerente ao cidadão, como o casamento civil, é visto com complexidade pela sociedade quanto fala-se em casamento entre gays, a ponto de originar discussões em vários setores sobre ser correta ou não a união. Um direito que, indiscutivelmente, não deveria ser questionado, como, também, o direito de exercerem a paternidade e maternidade. Com a legalização do casamento gay, um passo na conquista dos direitos humanos foi realizado no Brasil, tornando acessível um direito que antes era voltado somente para os heterossexuais. Embora a ideia de respeito ao próximo seja bandeira de todas as instituições cristãs e espiritualistas e o nosso livro "mãe", a Constituição Federal, tenha como fundamento base a dignidade da pessoa humana, a discussão sobre legalizar ou não o casamento gay foi um questionamento longo no cenário político-social-cultural da sociedade brasileira. Falso moralismo, preconceitos e receios com a ideia do surgimento de novos valores (de natureza imoral, defendem alguns) eram questões persistentes na pauta sobre como aceitar esses "seres diferentes". O ser humano, individual e permeável aos valores externos, tratou (e trata) o homossexual como um ser diferente e, como todo fator que representa antagonismos na humanidade, o mesmo é marginalizado em sua integração social, sendo criticado e punido, em razão de sua condição sexual.





Todas as defesas hipócritas e manipuladoras contra o  homossexualismo e o direito ou não à união civil, tem sido debatidos nas esferas na qual não temos palavras, só resignação: nossa legislação. Os legisladores (um número infinitamente menor que toda nossa nação) se fecham em suas instituições e decidem nossos valores, nossas leis, nos trazendo as notícias dos ocorridos pelos jornais e periódicos diversos. A homofobia, por exemplo, genuinamente cruel, desrespeitosa; que aniquila vidas e contraria a Constituição e seu fundamento básico, dignidade da pessoa humana, tem sido discutida na tentativa de conceituá-la como crime ou não. Ora, é intrigante que um comportamento que agride vidas, desrespeita o próximo e é inimigo de nossos preceitos básicos morais, sociais e legais, possa ser ainda discutido na intenção de defini-lo como legal ou ilegal, quando claramente é um crime. Nossa sociedade tem um número significativo de gays que são agredidos e, infelizmente, sofrem violência de intolerantes e criminosos que não aceitam (e respeitam) que homens e mulheres tenham relacionamentos com parceiros do mesmo sexo, os violentando de várias formas, criando condições de risco de morte e adoecendo a moral de homens e muheres que desenvolvem depressão e fobia social. Pessoas cuja natureza e ação, lamentavelmente, não são pauta de estudos jurídicos na elaboração de novas normas sociais.






A homofobia, ainda não ser caracterizada como crime, é a ratificação de que a discriminação e preconceito existe de forma crescente, principalmente no caráter dos representantes que nós mesmos escolhemos para legislar, fiscalizar e executar no Estado. A discrepância sobre o tema é significativa. Como não aprovar uma lei que pune ação tão desumana, que agride fisicamente e moralmente um grupo somente por uma questão sexual? A não associação da homofobia com a criminalidade é a resposta clara de que, neste grupo, em específico, segundo nossa sociedade e representantes, pode-se agredir, maltratar e deteriorar, já que os mesmos não apresentam compatibilidade sexual com os "normais". Respeito, inserção e direitos não deveriam nem ser temas implorados na nossa sociedade, pois nossa própria Constituição prega o respeito e dignidade à todos os seres humanos. Presenciar, em pleno século XXI, a solicitação formal por respeito através de leis, pois não temos a capacidade moral de compreender e respeitar o próximo, nos explica claramente o porquê da existência da desigualdade e violência: nossos valores constroem a estrutura social.





Tratar e explanar a homofobia como um comportamento típico e não como um crime, é descaracterizar a Constituição que prega o bem comum, o acesso e a integridade da vida. Comprova, acima de qualquer fato, que nossos legisladores não a interpretam com sabedoria técnica e propósito humanista,  pois, não considerar a homofobia - agressão e violência típica contra um grupo - como um ato violador e inconstitucional, é excercer  um sistema contrário a codificação de justiça social, marginalizando cidadãos da sua sociedade.  Todo coletivo deve ter os mesmos direitos e deveres e, o coletivo, só é um todo, porque é formado por distintas partes. Portanto, se a homofobia não for caracterizada como crime, se faz necessário a classificação de novas formas de violência: as violências ilegais e as violências legais. A violência que pode ser realizada de forma permissiva (dentro da opinião pública e sistema legal) e a violência que nossas leis recriminam, dispondo (neste caso) livre acesso para acionar o poder de polícia e jurídico. A homofobia caracteriza-se pela violência física, emocional, ameaças e exclusão social, tais características, relatadas sem conotação sexual, são tratadas pelo sistema legal como crime, mas quando tais caracteres são acompanhados pela palavra sexualidade, não são mais definidos como crime, apenas preconceito, de forma que impossibilita a justiça plena, tão plenamente e enfaticamente fundamentada na Constituição do Brasil como direito de todos. Como consequência, os homossexuais são marginalizados e tratados de forma constante com diferenciação, a homofobia é tratada apenas como uma questão social, sem a necessidade de aplicação de medidas drásticas e todo este processo resulta, sobretudo, na desumanização de vidas que lamentavelmente sofrem agressão cientes de que, por um fator de natureza sexual, não poderão ter cidadania plena e acesso aos direitos sociais.





quarta-feira, 4 de maio de 2011

Osama Bin Laden: Sua Morte e o (NÃO) Fim do Terrorismo.




A morte de Osama Bin Laden representou para população estadunidense um marco na história antiterrorista americana. O país, claramente, caracterizou o evento como uma espécie de compensação, dever cumprido ou  sentença irrefutável de que, com a morte do terrorista, a sociedade americana poderia, de alguma forma, ser restituída do grave atentado "11 de Setembro". A confirmação da morte de Osama (noticiada formalmente pelo presidente Obama) foi coletivamente absorvida com satisfação e alegria, trazendo à tona sentimentos definidos como justiça e merecimento. A paralisação do país diante a notícia, comparou-se a um evento relevante, nacional e histórico para a sociedade. A morte de Osama Bin Laden para nossos vizinhos de continente, está intrinsecamente ligada ao combate ao terrorismo. A morte de Osama significou a resposta ao triste dia do 11 de setembro de 2001, que desolou famílias, desequilibrou o coletivo e monopolizou o mundo, estático, que reagia com ódio diante um evento  conceituado como "seres do mal". Da mesma forma que integrantes e simpatizantes das ideias e lutas terroristas acreditavam estar aplicando justiça assassinando cruelmente os cidadãos vitimados no 11 de setembro, os americanos se sentiram vingados com a morte de seu vilão, comportando-se como se o terrorismo tivesse sido devastado do globo. A morte do "vilão Osama" solidificou a força e competência do "herói Obama" que desde sua candidatura prometeu proteção ao seu povo, trabalhando no combate de possíves ações terroristas. A ideia e definição de combate ao terrorismo estadunidense, no entanto, é inversarmente proporcional a ideia de manutenção da paz e ordem. Nos últimos dez anos, defendendo politicamente a bandeira pela busca do fim do terrorismo, a nação estadunidense, tinha como meta a morte do chefe da Al Qaeda, nada  além disso. Dinheiro, ação, inteligência e trabalho foram disponibilizados na procura de Osama e não na aplicação de vias para combater o terrorismo como um todo (que não será combatido com assassinatos).





A nação americana se sentiu forte e vingada. Obama discursou com belas palavras um conteúdo preconceituoso, vil e pouco inteligente ao definir  “A todas as famílias que sofreram com os ataques da Al Qaeda, podemos dizer que a justiça foi feita. Deus abençoe a América”. O presidente do país alegou ter combatido o terrorismo com a morte de Osama e ainda declarou "justiça feita", como se a morte do terrorista tivesse solucionado as ações terroristas, genuinamente sociopatas. Ele agiu e reagiu, lamentavelmente, segundo o Código de Hamurabi "Olho por olho, dente por dente". A morte de Osama Bin Laden representou explicitamente uma vingança, embora os EUA e grandes críticos de outros países tenham definido como uma ação necessária para dirimir futuros eventos de natureza criminal. O terrorismo, de fato deve urgentemente ser aniquilado. Osama Bin Laden, de fato, foi um sociopata que deveria ter suas ações refreadas, responder por seus crimes e ser integralmente monitorado em razão de suas ações degradantes, criminais e hediondas. Um homem alienado por ter absorvido uma inversão de valores culturais que não corresponde com o correto, com a fiel ideias das escrituras islâmicas. Entretanto, a via de ação adotada para sanar o problema, pelos Estados Unidos, foi somente  investigar a localização do fugitivo e matá-lo. A morte de Osama não é o fim do terrorismo. A morte de Osama foi somente o assassinato de uma homem terrorista que, porventura, irá alimentar ainda mais a revolta dos milhares de terroristas que compartilham e se guiam pelos dogmas da luta que acreditam ser para liberdade do seu povo em resposta ao monopólio e opressão sofridos na sua formação cultural, social e política.





Osama Bin Laden caracteriza um exemplar de um movimento alienado, cruel e  nacionalista que cresce  na medida que o aprofundamento das ideias de exclusão social e inferioração humana atingem os homens: a sociopatia provinda do fundamentalismo religioso. Um homem moralmente e socialmente doente, participante de uma cultura excluída, dominada política e economicamente por outros países e com valores religiosos deturpados. De forma que, o fundamentalismo religioso, é uma parte do problema, mas não o todo. Não o definir como vilão, assim também como todo o seu povo e cultura, não é necessariamente ser a favor de suas ações, ideias e terrorismo. O terrorismo deve ser combatido, assim, também, como a ideia de justiça, não só dos estadunidenses, mas de outros países. Justiça é igualdade, respeito e fraternidade; características que todos os países do globo terão que aprender para aniquliar seus conflitos. Osama morreu, Obama cumpriu seu papel, a sociedade ignorante vincula a justiça com a subtração dos direitos humanos e o terrorismo ainda é forte. Forte e rancoroso, aguardando, também, a sua vez de fazer "justiça feita". E, enquanto esse ciclo se renova, a única certeza é que, numa guerra aberta de conflitos, o resultado será sempre o mesmo: vítimas, segregação, sofrimentos e desigualdade, nos deixando com a certeza de que a morte do terrorista não interrompeu o terrorismo, foi pura ação pessoal, mas que não irá compreender, estudar e criar vias para combater, de fato, de forma integral e contínua, esse tipo de criminalidade. Obama teria sido profundamente mais honesto se informasse para todas as famílias que sofreram com o "11 de Setembro" que sua "vingança foi feita", mas que não aniquila a possibilidade de outras famílias ainda sofrerem pela mesma desgraça. Que Deus, realmente, abençoe a América.





domingo, 1 de maio de 2011

Essa Democracia Amante da Monarquia.






A monarquia, com a sua grande concentração de poder, monopólio e descendência de governo, tem laços históricos enraizados na extravagância, luxo e status sociais.  A admiração por este sistema político que, mais que do que um padrão político, predominou a importância da hierarquia e adequado comportamento social é, ainda, impregnado no comportamento contemporâneo. Quantos países, embora de estrutura democrática, não admiram e acompanham com assiduidade os poucos países monárquicos ou vestígios do que seja a monarquia?. O casamento real de Sr. Príncipe William e  a nova princesa Kate  é prova suficiente que o "beija-mão" remetido a toda monarquia e reis ainda existe e é caracterizado como algo relevante e elegante. O mundo todo acompanhou a cerimônia de casamento do príncipe, exorbitante em pompas, regras e respondendo fielmente a todas as caracterizações que a sociedade conceituou como elegância e sofisticação. O mundo parou para conferir um evento que, claramente, não altera em nada aspectos relevantes no mundo, a não ser o fato de que as pessoas, ainda, priorizam informações fúteis e alimentam um sistema improdutivo, que delimita a baixa e alta classe. A atração voltada a monarquia é algo inexplicável. Ela, diante a democracia, que,  teoricamente, não diferencia as pessoas e organizou um sistema político em que a voz e desejo de todos devem ser ouvidos, é um retrocesso à ideia e inteligência humana e uma ofensa a tudo que a humanidade construiu ao longo de sua jornada. Sendo clara, ela é estúpida e classista.




A caríssima cerimônia, o excesso de requinte e a mensagem da superioridade da monarquia em relação aos seus súditos ocorreu principalmente ostentado pelo desejo da população londrina, que endeusa os novos príncipes e pararam sua vida para acompanhar algo que acreditam ser superior, relevante para sua nação. Se a mesma quantidade de pessoas que estiveram em Londres e as que acompanharam a transmissão por mídias sociais, tivessem o mesmo nível de curiosisade por temas relevantes como conflitos políticos, pobreza, desigualdades e criminalidades, tais problemáticas não estariam sendo tratadas com tanto descaso, a ponto de estarem sendo negligenciadas pela sociedade. Todo esse evento só nos mostrou como as pessoas ainda se preocupam com o título. Títulos que capacitam pessoas a serem mais ricas, mais vistas e ditadoras de conduta. As indumentárias de Kate na vida cotidiana e as que a mesma desfilou em seu matrimônio, segundo a imprensa, já se tornou um dos itens mais solicitados no mercado do consumo. Um exemplo típico de consumismo da vida moderna, pois as pessoas não buscam tais produtos pelo gosto, escolha, mais porque a monarquia usou. O consumismo desenfreado surge pelas inseguranças humanas que, em busca de tornarem-se como os que consideram superior, compactuam-se ao capitalismo para consumir matérias que classificam como superior.  Uma sociedade que primitivamente só alcança satisfação se consumirem o que o exterior dita, não o que o interior necessita.




Improdutivamente, livros, artigos diversos e até um filme sobre o "casal real" estão sendo feitos; produtos provindos de uma relação normal entre um homem e uma mulher, mas que as pessoas necessitam consumir para delimitarem - como tudo na vida - o que é bom ou ruim, superior ou inferior e de classe (dos ricos) e bregas (dos pobres). Toda essa glamourização sobre o casal mais visto do mundo, talvez, nem seja fruto dos objetivos de ambos, como casal, mas da própria sociedade que inutilmente necessita inferiorizar pessoas e superiorizar outras. Que precisam admirar tudo o que provém do dinheiro e ridicularizar o que não é produto da classe alta. Uma cerimônia que ratificou que, apesar de anos sem a inserção do sistema monárquico em grande parte do globo, ainda há  valores da Idade Moderna impregnados no comportamento dos homens, idolatrando e copiando o dito elevado a fim de adquirirem um estilo de vida esteticamente considerado de valor. Um sistema político medíocre, segregador e inviável a igualdade social, mas que é aplaudido pelos povos de várias partes do mundo, demonstrando que, apesar de uma possível evolução racional, política e social, ainda há uma grande quantidade de cidadãos que louvam um sistema político tão baixo, improdutivo e arcaico, mesmo sendo um cidadão de uma era moderna, democrática e realmente benéfica a todo povo.



sábado, 16 de abril de 2011

Afinal, O Que é Inteligência?





A necessidade da educação na sociedade pós-moderna mascarou-se com a ideia da valorização do conhecimento como forma principal de desenvolvimento social e intelectual. No entanto, a atual educação intelectual, pouco tem como preocupação a formação que vise o aprofundamento na integridade e reflexão do gênero humano. A educação, não vem sendo produzida necessariamente para o pensamento, mas para o armazenamento. Na escola, decoramos cálculos, datas comemorativas, eventos históricos que delimitaram períodos; decoramos que nosso organismo é formado por unidades celulares, a diferença de mornarquia e república e os grandes continentes e, toda essa informação, não foi fornecida para questionar o sistema, mas sim como preparação para tornar-se mão-de-obra dele. Hoje, a quantidade de conhecimento que um indivíduo consegue armazenar o faz ser conceituado como inteligente, um intelectual, viabilizando para ele status e acesso a atividades satisfatoriamente remuneradas. Inteligência, nesse mundo moderno, é decorar, usar e abusar da atividade cerebral arquivando fórmulas, textos e leis. Aquele que não se enquadra, é excluído e, mais que excluído, desprezado e catalogado na "seção" dos que não tem capacidade de compreender e entender as diversas disciplinas lecionadas nas escolas, faculdades e pós-graduação. Consequentemente a palavra burrice (palavrinha medíocre que tanto repudio) vem sendo usada entre colegas de ensino e profissão, separando os que tem a "rara" capacidade de armazenar muita informação dos que não conseguem dedicar-se horas em tal intento.





A sociedade e escola preparam os educandos para serem competitivos e pouco solidários. O concurso do vestibular é um tremendo massacre de ideias. Jovens em processo de formação (e educação) julgam ser potencialmente mais sabidos por decorarem uma grande gama de informação para a temida prova; os que conseguem utilizar tais informações para adentrarem nas instituições mais concorridas, ditas excelentes, são louvados como indivíduos inteligentes, já os que não, vivem o complexo de baixa-estima estudantil, inferiorizando a si próprio e introjetando a ideia de ser significativamente menor por não ter vencido o que o sistema estabeleceu como intelectualidade. Acreditam que estão destinados à "casta baixa da inteligência", alimentando conceitos pequenos e incorretos do que seja realmente o conhecimento. Armazenar informações, dedicar-se a leitura e trabalhar o intelecto, de forma alguma é errôneo, mas utilizar tais conhecimentos para codificar o que a sociedade estabelece como inteligência, é algo racionalmente improdutivo e ilógico. Burrice, não existe. E, catalogar indivíduos em grupos dos inteligentes  e eminentes, contrapondo-se aos grupos de "burros" e preguiçosos, é um preconceito, ignorância e exclusão humana, que degrada a formação humana, destruindo sonhos e perspectivas de vida.





Se decorar informações e confirmá-las frequentemente nas avaliações, debates e sociedade deve ser medição de intelectualidade, logo, podemos perceber que inteligência não acompanha (como deveria) a reflexão, afinal, quantas pessoas "altamente inteligentes" cometem Bullying, crimes e desonestidades, inferiorizando o outro, mesmo tendo tido uma excelente formação intelectual? Quantas não classificam o outro como inferior e criam relações de distanciamento entre os "sabidos" e os "ignorantes"? De fato, são muitas. Como bem elucidou Paulo Freire (Esse sim, um grande intelectual e pensador) "Não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes" ou, como a mais bela lição de educação "Ninguém sabe tudo, ninguém ignora tudo. Todos nós aprendemos juntos, mediatizados pelo mundo". Afinal, o que é educação? É profissionalizar-se com conhecimentos registrados no MEC?  É ter a potencialidade de armazenar no cérebro quantidade X de infomações mais do que outros? O fato, é que a mistificação do que realmente seja conhecimento e educação, está adoecendo a mente dos homens; atrofiando seu pensar e limitando sua criticidade, o fazendo crer que a busca para ser inteligente está intrinsecamente ligada ao armazenamento de conteúdo que a razão absorve ao longo da vida; dando ao homem uma inteligência estranha, que separa os homens em grupos, classes econômicas e o faz criticar seu semelhante por uma ortografia errada, um ideia que fuja do que decorou nos livros e do ceticismo em relação a tudo que seja contrário do que foi hierarquizado na sociedade como "inteligência". É uma inteligência estúpida, besta, que decora, mas não reflete, lê, mas não interpreta e, sobretudo, copia, mas não cria e compreende o sistema, não utilizando a intelectualidade para o crescimento e desenvolvimento, mas para o armazenamento de conceitos e ideias inferiores, não descobrindo o grande poder do intelecto; o poder do pensar, refletir e transformar.