sábado, 23 de junho de 2012

Comunicação: Deformando Opiniões.






Seria incerto dizer que o Jornalismo está se deteriorando e sendo constantemente direcionado para a formação de uma mídia superficial e idolatradora de notícias pouco produtivas, pois a ideia de um produto barato surge quando paralelamente pode-se conhecer o que seja qualidade, de forma que o jornalismo deveria, em determinado momento, ter alcançado a excelência para ser, hoje, definido como precário e desarticulado. Logo, um produto ruim é considerado como tal porque temos a ideia do excelente, do perfeito. O surgimento de bons jornalistas ocorre constantemente, mas a excelência do Jornalismo e seus operários tem sido um quadro raro no mercado, de forma que será possível dizer que o Jornalismo está defasado, quando ele nunca foi realmente excelente? A degradação só é possível em um produto inteiro, bom, que, com o tempo, foi sucumbindo as pressões externas e aniquilado e deteriorado por diversas causas. Nesse sentido, a comunicação nunca foi produto inteiro, inteligente, maduro e pertinente, de forma que ela não está ruim, está, na verdade, há tempos, sem evolução e credibilidade. A linha de comunicação contemporânea e a forma como ela se desenvolve afirma, em cada notícia, programa e escrita, que ela é realizada sem questionamentos, reflexões, criatividade e preocupada em alimentar cultura, intelectualidade e formar mentes aptas a opinar e agir de acordo com a congruência, criticidade e reflexão.






A comunicação levanta diariamente a bandeira de sua importância, definindo-se como "formadora de opiniões". Se a grande massa de comunicadores tem sido os responsáveis pela formação social e intelectual do povo brasileiro, está claramente explicado o porquê de tanta mediocridade, irreflexão e falta de posicionamento para compreender a vida e a sociedade como tarefa coletiva, de/para todos. Proprietária de um poder global, os meios de comunicação perpetuam novas regras, endeusam pessoas, criam novas forma de consumo e fazem todas as mentes e opiniões seguirem os termos aplicados, sem nenhum tipo de indagação. O belo só pode ser de uma forma, o elegante de outra, a felicidade é viver como determinada pessoa... e todos buscam copiar as novas fórmulas, receosos de não se realizarem com as prescrições desse mundo externo. Os textos, gradativamente esdrúxulos, atacam de forma veemente as pessoas, as notícias de celebridades criam mitos de consumo, a crítica, tão bem formulada por Voltarie, José de Alencar e um número significativo de pensadores modernos, hoje, na pequena visão das pessoas, deve ser ofensiva, agressiva e briguenta; não se fazem críticas como antigamente, com argumentação, propriedade, inteligência e objetivos, visualizando o erro e propondo solucioná-lo. Hojé a crítica é fofoca, é ofensa física e emocional que não constrói argumentos e pensamento, só raiva e impulsividade.







Dentre as imprecisões e improdutividades, a exposição é a chefe. Não há pudor em mostrar as fragilidades das pessoas, as colocando em posição de vitrine. Quantos jornais, de tv e impressos, não ostentam imagens desnecessárias que só informam tolices e não se preocupam em educar à sociedade. A crise da dependência química e do alcoolismo são pertinentemente abordados de forma superficial e desumana, em que um dependente, portanto, doente, é mostrado na tv sem nenhum pudor. Pessoas sendo expostas alcoolizadas, "artistas" compactuando-se com a comercialização de sua vida íntima a fim de lançar novas forma de consumo e padrão de vida, programas sem propósito, entreterimento que fere e empobrece a formação crítica, já escassa de recursos realmente cultos e estimulantes. A comunicação, de fato, vem desservindo à população, criando um monopólio de ideias e ideais, fazendo grandes redes televisivas serem as propagadoras de informações e determinadoras do dia-a-dia do brasileiro.






Incentivador da formação de opinião para propósitos essencialmente capitalistas e gerando novos consumidores alucinados pela busca da satisfação, o jornalismo atual deforma a mentalidade do homem, criando informações improdutivas, pobres, que não forma corretamente e desarticula o saber, lançando às mentes para o raciocínio deformado do ser, do ter e do saber. Jornalismo e Jornalistas que não permitem que o indivíduo forme sua opinião, já fornecendo o seu pensar, noticiando de forma cínica, ao seu entender, aniquilando a possibilidade do indivíduo assimilar as informações e gerar a sua opinião, segundo seus valores, pois a notícia vem manipulada de acordo com a (pequena) visão do seu propagador. Um emaranhado de apóstolos do saber que invertem sua missão e empobrecem e danificam os meios de comunicação, o jornalismo, e oferecem ao espectador, cansado do seu dia e do seu pensar, informações instantâneas e prontas para manter a mente do homem na sua ignorância e o seu eterno aceitar.






quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Povo Brasileiro.




O eminente escritor Darcy Ribeiro foi sociólogo, pensador, implantador da instituição "Universidade de Brasília" e, para nosso orgulho, brasileiro, politizado, intelectual, crítico e atuante nas principais questões de conflitos sociais que afetam o povo, o país. É autor de livros conceituados e pertinentes para formação intelectual de estudantes e cidadãos que objetivam ampliar sua visão política e social sobre à sociedade. Dono de uma visão inteligente e aguçada, consegue transferir para seus escritos suas idéias avançadas e críticas formuladas sobre o sistema social. O livro "O Povo Brasileiro", de sua autoria, foi tão ousado e corajoso que a princípio poderia ser considerado um livro altamente pernicioso para o determinante domínio da cultura de classes, em que uma minoria é absolutamente favorecida em detrimento de milhares de miseráveis. De natureza crítica e sagaz, o livro sintetiza, na magnífica visão sociológica de Darcy, à formação do povo brasileiro a partir de sua formação histórica, política e cultural. Permeado por inúmeras considerações sobre a criação de uma sociedade classista e racista, narra a subjugação do índio, que foi interpretado como ser imoral, do negro, que foi tratado como máquina de serviço e do branco, identificado como ser religiosamente, politicamente e culturalmente avançado para meio tão "pervertido e ignorante".






O desejo ou busca genuína de pesquisar e escrever palavras que reunissem várias considerações sobre as desigualdades e diversidades do Brasil, surgiu em 1964, quando ao retornar do exílio - por questões políticas - observou a necessidade de buscar respostas exatas sobre o porquê do Brasil ainda não ter dado "certo". Elaborado o questionamento, esforçou-se por entregar-se a metodologia de estudo, a fim de obter resultados significativos e respostas proporcionais ao tamanho desta  pesquisa (absolutamente complexa, de fato). Decorrido muitos anos, pois nosso pensador não era imediatista e leviano em suas argumentações, nasceu "O Povo Brasileiro", que caracteriza a rica cultura brasileira, transplantada da lusitana e diferenciada pela integração da cultura pastoril, através do índio, africanizada, através do negro, mas, ao mesmo tempo, desindianizada e desafricanizada, formando uma nova unidade cultural. Unidade esta baseada nos valores desses dois povos (índios e negros), dominados e direcionados pelos colonizadores. O caboclo, sertanejo, criolo, gaucho e caipira (as grandes camadas de interação do Brasil) foram formados pela condensação social desses povos, sendo que cada vasta região foi alterada em seu perfil cultural e social pela determinação econômica, ecológica, pela imigração de povos europeus e pelas condições do próprio local.






"O Povo Brasileiro", tão simples e atraente em seu título, guarda complexidades sociológicas em seu escrito, sendo um pouco de história, um tanto de sociologia e uma grande crítica social, apresentando uma teoria explicativa sobre as deficiências do país ocasionadas pelo processo de formação do povo, a fim de explanar as nuances e as desigualdades surgidas a partir dos princípios de formação do Brasil. Um país rico em recursos naturais, de arbóreas de cor brasa, portanto, definidas como Brasil, que aniquilou duas culturas sofisticadas e preparadas para viver no meio ambiente mais do que qualquer nobre europeu: os índios e os negros. Um país segregário, idolatrador da cultura externa desde o início da sua formação civil, que marginalizou e marginaliza o pobre, sendo este o grande colaborador da economia brasileira, mas uma nação rica em cultura e criativo no seu existir. Um povo de raça, parido de uma forma bruta de dominação, mas que conseguiu cumprir seu feito: fazer-se um povo, dentro de seu território e construir-se como gente, de forma peculiar. Gente índia, branca e negra que aglomerando-se nos espaços, aculturando seus saberes e fundindo-se culturalmente seus códigos de moral, originaram o vasto, rico, bonito e diverso território brasileiro; o povo brasileiro.








domingo, 20 de maio de 2012

Nossos Heróis.





Nossos heróis nascem conosco quando chegamos ao mundo. Esperamos deles tudo; tudo e mais um pouco. Por eles somos alimentados, cuidados e amados pelo mais profundo amor. Na medida em que crescemos e desenvolvemos nossa percepção e intelectualidade, logo conseguimos identificá-los, os chamando pelo nome de pai e mãe. Pai e mãe, duas unidades de laço forte e eterno que educam seus filhos e não deixam de ser pai e mãe, mesmo quando este pai e esta mãe não estão mais unidos por um relacionamento conjugal. Há lares em que o pai é a única figura educadora, em muitos outros a mãe é a única figura educadora presente, e em tantos outros há o pai e a mãe e, mesmo com a presença física, de ambos, os filhos percebem que toda educação moral provém mais de um do que do outro. Na nossa estrutura societária é comum ver a mãe como responsável determinante na educação moral de um filho e, muitas vezes, arcam com todas as responsabilidades, inclusive a financeira. Nossos heróis crescem conosco, nos preenchendo de amor, educação e tudo mais que podem oferecer. O que não nos oferecem, tanto em matéria, quanto em afetividade, só não proporcionam porque ainda não tem nem para eles, pois poderiam (e querem) dar o mundo para seus filhos.






Na visão de um filho(a), um pai e uma mãe devem ter moral perfeita e corresponder a todas as expectativas deles, que são comumente formadas pela cobrança que a sociedade lhes imputam. Tudo deve ser perfeito, principalmente para que os outros vejam e não critiquem o que possa ser definido como incomum. As expectativas e as cobranças (que são grandes demais) são feitas durante toda vida, quando os filhos querem toda matéria possível e todo carinho que acham que obrigatoriamente devem ter. Cada pai e mãe amam seus filhos como podem, uns já absolutamente capacitados a oferecer afetividade, outros preocupando-se com seus filhos para que eles sejam alimentados, tenham educação de qualidade e saúde permanente. E não seria isso uma prova de preocupação e amor? Os filhos imbuídos de muito amor, ainda, cobram mais. Se tem amor e falta-lhe matéria, acham que não estão sendo amados, se há muita matéria e pouca manifestação de afetividade, não percebem a seu redor qualquer prova de amor. Nossos heróis nos educam para sempre sermos felizes e desejam que nenhum tipo de sofrimento se aproxime dos seus filhos.







Nossos heróis tem a única obrigação (na nossa visão) de serem perfeitos e, como filhos, fazemos essa cobrança pelo decorrer da vida. Quando há falhas, quando o erro surge e o comportamento por eles realizados não se enquadram com nosso sonho infantil, surge a crítica, o rancor e o desamor por àqueles que, como nós, são seres humanos, aprendendo a viver e a crescer, com pecados, qualidades e falhas. Queremos, no mais profundo egoísmo, que nossos heróis permaneçam naquele pedestal criado pela nossa mente desde quando nascemos e nunca, nunca saíam de lá, como a mais bela estátua criada pelo artista que a cria para ser imutável e eterna. Não aprendemos que nossos heróis são carne e espírito, que erram, acertam e vivem pelo mesmo propósito que nós: evoluir. Não aprendemos que Deus não criou nossos heróis para nossa incansável felicidade e realização de qualquer desejo, mas sim para evoluir e crescer como, vejam bem, nós mesmos.






Enfrentamos com o mais profundo rancor e aversão os atos considerados errôneos cometido pelos nossos pais, nos esquecendo que nossos pais, heróis e educadores são simples seres humanos e, serem nossos pais, não os tranformam em deuses perfeitos e intocáveis. Precisamos, na verdade, compreender que um pai e uma mãe, antes de cumprir esse papel, são filhos, cidadãos, seres aprendentes e humanos. Precisamos dar espaço para nossos pais serem pais e seres humanos, assim como os pais devem compreender que seus filhos não nasceram perfeitos e para somente proporcionar felicidade, mas são seres humanos que vão desejar e realizar feitos que não correspondem ao que um pai e um mãe desejam. O amor, o amor profundo e verdadeiro, somente surge quando podemos reconhecer nosso ente querido e nossos amigos, como seres humanos, compreender suas falhas e entender que cada um possui suas mazelas e estão na jornada da evolução e, mesmo assim, amá-los, honrando-os, os perdoando para sermos também perdoados e oferecer espaço para nossos heróis serem não só nossos pais, mas sobretudo seres humanos.





sexta-feira, 11 de maio de 2012

Mulher: A Mãe da Humanidade.





Possuidora de um contraste absurdamente intrigante, que mescla-se entre a delicadeza e força, o papel da mulher é determinantemente dominante na família e sociedade. É mãe, esposa, filha, educadora e profissional; mas não é o excesso de funções que faz das mulheres figuras de facetas diversas e dúbias emoções, mas sim a forma como conseguiram criar ferramentas para administrar as vastas atividades que realizam no decorrer de seu desenvolvimento. A velha discussão sobre a mulher ter maiores potencialidades ou não perante o homem, é teoria infrutífera. A moral que torna a pessoa melhor e apta e não sua condição sexual. O raciocínio e a moral, ao meu ver, que determinam a evolução ou falta dela no caráter do indivíduo e não a constituição física, que organizadamente separa o homem e a mulher de acordo com suas funções reprodutivas sexuais, preparando a fêmea sempre para desenvolver e criar seu filhote (em quase todas as espécies), mas nem sempre com a participação do macho.






O fato é que a capacidade de gerar atinge a mais profunda região emocional das mulheres. Ela torna-se mãe, depois avó, sendo esta última uma segunda mãe, sendo mãe, também, de seus sobrinhos e, muitas vezes, de seus próprios maridos. O corpo gera e prepara-se para cuidar, educar e zelar, mas será somente o corpo que determina a paixão que a mulher tem pelo cuidar? Diria que não, analisando o fato de que muitas mulheres não geram, mas não deixam de se sentirem mães. A mulher é cuidadora nata e genuinamente perita em amar. Sente comiseração, penaliza-se pelo o outro e chora por qualquer tolice que atinge sua alma. Desde a meninice, quando lhe dão bonecas para pentear e vestir, diferenciam-se dos meninos que devem sempre correr nas ruas, ter coleção de carrinhos para imaginarem-se partindo, contrapondo-se as meninas, sempre com suas panelinhas de cozinha e bonecas para ninar, vestir e amar. Desde as pequenas brincadeiras, ao cuidado que deve (juntamente com sua mãe, portanto, mulher) exercer nas atividades domésticas, o mundo apresenta sua real função na sociedade: a parte cuidadora e administradora de suas relações. Este texto, no entanto, não pretende ser feminista, pois a escritora dele não é, mas sim humanista, tendo em vista que o homem e a mulher são complementos para formação da base moral da formação de um indivíduo: a família.






A mulher, no entanto, sofre certas pressões de valores sociais. Valores esses que distinguem as pessoas por motivos diversos não as respeitando como seres humanos. Isto pode ser notadamente observado pela vida sexual da mulher e do homem. Para a primeira, o desenvolvimento da sua sexualidade deve ser retido, comportado, já para o segundo a quantidade cria o estranho valor de ser considerado qualitativo em relação ao seu grupo. Tais comportamentos são tão esdrúxulos que torna-se tarefa árdua não comparar com estudos de primitivos inferiores, darwininos ou de etologia. As diferenças são muitas e classistas. Entre as várias formas de classificação, há as mulheres consideradas pelo bando como "corretas" para a iniciação do matrimônio, entretanto, há outras de uso comum, que realizam atividades de prazer estritamente masculino e, portanto, apesar de cumprirem as funções consideradas corriqueiras pelo bando, não são identificadas para escolha matrimonial. Valores tão medíocres que colocam homens e mulheres constantemente em escala de produtos para consumo, mas não como seres humanos imbuídos de qualidades e falhas.






A mulher dentro essa trajetória classista e preconceituosa perante o mundo, tem a árdua função de fazer-se gente, mesmo quando o mundo não a trata como tal. Mulheres que em grande quantidade assumem a função de sustentarem e educarem seus filhos sozinhas, tendo que ouvir que são solteiras e, portanto, imorais para a atividade que com garra e solidão se prestão a fazer. Mulheres que acolhem suas filhas e netos, quando eles encontram-se sem apoio da figura paterna e, mais uma vez, tornam-se mães de seus filhos e segundas mães de seus netos, provendo a casa e ensinando uma força que somente fora construída na batalha da vida. Mulheres que cuidam de seus maridos doentes, sejam por questões meramente físicas, emocionais ou de vícios; estruturam seus lares, educam suas crianças e carregam nas fracas costas a responsabilidade de serem donas de um lar. 







Não bastando todas as tarefas e atribuições do ato de ser mulher, há, ainda, a profissionalização, o trabalho. O trabalho bonito da mulher que pôde, por condições financeiras, ter uma profissão de doutora, auxiliar as pessoas e desenvolver o intelecto, mas tem, também, a mulher que não pôde ter estudo, mas não deixa de prover sua casa, que cumprem trabalhos sob o sol, imploram por cidadania e, quando precisam, exercem uma rotina de muitos empregos, tentando levantar um "tiquinho" miserável que não alimenta o homem, mas não os deixa morrer prontamente. Mulheres que mesmo sem instrução, criam formas de trabalho, vendem seus produtos na rua, pedem para limpar as casas das mulheres que puderam ser doutoras e dormem em paz sabendo que estão cuidando de sua cria. A essas mulheres que são mães (de tudo e todos), mesmo quando não podem gerar, dedico este texto, pois toda mulher já nasce mãe, mesmo quando não deseja e toda mulher torna-se mãe de algo, alguém ou de seu próprio filhote, amando, tratando, cuidando e exercendo sua evolução e, assim, compreendendo a verdadeira razão da vida: que o amor conduz ao bom trabalho e o trabalho generoso, amoroso e caridoso, é o princípio da evolução e de toda razão que constitui a humanidade. Mulheres, mãe da humanidade.





sábado, 5 de maio de 2012

Mulherzinhas.






Era um laço estranhamente forte, de linhas invisíveis e amarro eterno
Um laço de esmero e cuidado, de finas e infiltráveis linhas de amor.
Uma convivência terna, um olhar sábio e a mais pura vontade de ser e ter.
Meninas em número de quatro, ou como escrevem, quatro meninas.



Teciam conversas, explanavam sonhos e acreditavam no amor
Um amor leal e forte, contínuo e lúcido.
Que esperava o conhecido amigo à casa retornar
E sonhava com o dia que para casa o pai permanecerá



Guerras, medos e fome, como enfrentar à dor?
Pela primeira o amor, pela segunda, não mais que a razão
Na terceira somente a abnegação e a quarta por tintas escorridas nas telas.
Sua mãe, tão bela e serena, espera das filhas somente amor.



Amor para com elas, com abraços companheiros, sonhos compartilhados
E gestos destemidamente desejosos de viver a confortável leveza do ser.
De infância doce e sonhadora, vivia as meninas de May Alcott
Criando histórias, inventando sonhos e acreditando no impossível



De tanto sonharem, conquistaram o belo amigo
Que tinha o que as meninas não tinham, mas desejava ter o que já possuíam
Meninas felizes, meninas mais graciosas por não viverem só, mas serem quatro
As quatro meninas irmãs mais singulares que o papel já pôde narrar.



Mulheres diferentes, por serem mulherzinhas ou
Como definiram, Adoráveis Mulheres
Que amarrando laços invisíveis puderam elevar o amor,
Esse profundo amor das mulherzinhas da senhora March.
Que adoráveis mulheres.




Minha singela homenagem a obra "Mulherzinhas", de Louisa May Alcott, pois quando me recordo desse escrito, emoções diversas me tomam e me conduzem para um patamar melhor, enriquecendo meu ser por ter percebido tamanho amor e amizade diante todas as fragilidades que essas adoráveis mulheres tinham, mas não temiam; viviam, mas enfretavam e, sobretudo, sabiam, mas guerreavam. Que laço de amor mais bonito! Que mãos companheiras e adoráveis que levaram minha alma a conhecer a mais pura sensibilidade pertubadoramente transformadora.






domingo, 29 de abril de 2012

O Último Trem da Tarde.




O último trem partiria daquela velha cidade as seis horas da tarde. Um excelente horário para partir, pensou Maria. Já havia alguns meses que ela pretendia abandonar aquela velha cidade pequena, mas não sabia como. Às vezes, convencia-se que não deveria percorrer longos caminhos por falta de dinheiro, depois pensava em todos que amou, amava e que ainda poderia amar naquele pedacinho de terra. Mas naquele dia, depois de guardar por sete meses uma velha mala preparada com todos os seus pertences, decidiu que deveria partir. Para onde? Para o trem, oras. Não importa onde ele a levaria, mas levaria para algum lugar, afinal de contas. A espera era longa. A mais longa de sua vida; nem sequer almoçara para aguardar aquele momento. E o dia estava perfeito! Tudo o que Maria esperava para este momento era isso: um frio leve, um colorido cizento no tempo e poucas pessoas ao seu redor. Aquele trem sempre fora o único meio de transporte naquela cidade perdida, esquecida pela industrialização. Quando queriam visitar amigos, esticavam seus pés pelas estradas ou usavam carroças velhas, meio de transporte rústico e popular na cidade, todos tinham.





E em meio a carroças e andanças sem fim, torna-se fácil compreender o desejo de uma jovem sagaz, conhecedora dos cantos de todos os pássaros e amante das principais cachoeiras escondidas nas matas serranas da velha cidade. O relógio da cidade, no topo da igreja, avisou que faltava apenas meia hora para a chegada do trem. Para onde o trem vai? Ele pára onde? Em cidades, montanhas, casas grandes ou cidades sem verde, onde árvores não mais nascem e as ruas são cobridas por matérias estranhas, em que matos não crescem? Que estranho! Lugares em que as pessoas preferem fumaças às plantas? o pensamento de Maria foi tão esdrúxulo que sua boca soltou uma gargalhada, o que fez a senhora do banco na frente despertar de seu leve cochilo e emburrar-se por isso. Bem, não importa, quero ir no trem para lugares distantes, inóspitos e convidativos a transeuntes apaixonadas pelo ver e viver o novo. "Quero crescer", ansiava Maria. Não queria mais repetir seus dias, ver as mesmas pessoas e esperar anoitecer. Queria mais!





Tinha deixado uma carta para sua avó e uma rosa amarela, sua preferida, mas sabia que ela não se sentiria surpresa. "Quanto tempo não quero partir no trem". Sua avó sabia. Certamente sabia. O sonho de Maria crescera com ela e, como a criança que deseja um dia ser adulta, o sonho de sua menina ficara grande demais para caber na sua vida. "Quando deseja algo que não encontra, é porque ele está em outros espaços e, por isso, é preciso caminhar até ele" dizia sempre sua avó. Naquele dia Maria decidira, de uma vez por todas, que caminharia até o seu sonho. Que sonho? Nem ela mesmo sabia, mas sabia muito bem o tamanho do buraco que ele fazia em sua alma, pedindo mais, gritando por liberdade e ansiando por empresas e projetos. Um som maquinário se aproximava e, com ele, o coração disparado pelo medo do novo perpassava por Maria. Sempre há uma escolha. A vida é uma escolha. Ficar ou partir? Entregar-se ao conhecido e apaziguar a alma ou provocar a imersão de novas realidades, fazendo a mente pensar e acostumar-se, ora com a dor, ora com a alegria?





Antes que pudesse pensar, a porta se abriu. Lá dentro tinha bancos, janelas largas, tudo muito confortavelmente preparado para seduzir viajantes. Um dos seus pés conseguira ir para frente, o outro não ousara. Parte de si buscava o trem enquanto seus pés lhe seguravam em terreno firme, conhecido e amado. A última chamada foi feita; toda a máquina foi novamente ligada e os passageiros estavam a bordo, menos Maria. Ela estava vendo ao seu redor aquele mundo todo verde, de árvores e pássaros amigos e percebera, pela primeira vez, que nunca tinha sentido o cheiro forte de fumaça como daquele trem e nem visto cores diversas além do verde gritante das matas. Será que precisava ver? Será que só cresceria se partisse no trem? Seus pés foram para frente, seu corpo decidiu antes de sua mente. Já estava encantadoramente sentada em uma poltrona estofada com flores de cor rosa; colocara sua pequena mala nas acomodações e sentara perto da janela. Pelas janelas via o tempo passar, o verde desaparecer pela distância geográfica e cheiros novos aparecerem, acompanhados de cores novas e rostos novos. Não importa onde o trem pararia ou se iria voltar em breve; ou nunca, o que importa é que o medo partira e foi substituído por uma sensação nova, desconhecida e enigmática, apresentando um novo tempo, um novo estado e uma nova Maria. Nesse momento, Maria percebeu que não seria o trem que a faria crescer, já havia crescido quando desejara partir no trem. Tinha crescido  quando decidira não ser mais a mesma. Já não era mais menina. A última curva foi alcançada, o vento tornou-se veloz e, pela janela, formas e relevos diferentes se apresentavam aos seus olhos. Um novo mundo estava à sua frente.







domingo, 22 de abril de 2012

Norte e Sul, de Elizabeth Gaskell.






O processo de industrialização modificou a realidade social de vários países; criou novas formas de trabalho, de parâmetros e, como bem articulou Karl Mark, originou novas classes sociais, segregando os homens e estabelecendo novas formas de relacionamentos trabalhistas. Como toda nova condição transformadora e manipuladora, proporcionou uma dissidência que atingiu a  sociedade em todos os seus setores. No âmbito da literatura, temos registros das observações feitas destes "Novos Tempos" e dos efeitos decorridos da "Revolução Industrial". O eminente escritor britânico Charles Dickens é uma das referências no que se trata de histórias que ofereceram à humanidade as condições que a inustrialização criou e como ela modificou a sociedade, o sistema e as pessoas.





O livro "Oliver Twist" narra a história de um menino órfão, condicionado a miserabilidade e criminalidade, nos apresentando a pintura perfeita do cenário industrialista e de como a "Revolução Industrial" mexeu com toda estrutura social. Em razão da "Revolução Industrial" ter se iniciado na Inglaterra, tornou-se comum os pensadores ingleses terem sido os precursores a denunciarem e se manifestarem contrários as novas condições sociais vigentes e a forma como ela segregou os homens. Além dos escritos de Charles Dickens, pude ter contato com um obra primorosa, inteligente e erudita, que apresenta como temática a industrialização e suas nuances: "Norte e Sul", de Elizabeth Gaskell. A narrativa "Norte e Sul" narra como o mundo bipolarizou-se com a tendência industrial e os efeitos, mazelas e dificuldades deste novo contexto.






A narrativa  tem como heroína a jovem Margareth Hale, moça de vida modesta, mas cultura refinada e intelecto aguçado, graças a intelectualidade de seu pai, um clérigo que, como todos da época, apesar de não terem renda elevada, tinham contato com a classe alta, que definiam os clérigos como figuras essenciais para o desenvolvimento da comunidade. Toda a história é vista sob o ponto de vista de Margareth que sofre uma significativa ruptura quando seu pai, por razões éticas incompreensíveis para Margareth e sua mãe, opta por desligar-se da igreja e mudar-se do sul do país, ambiente calmo, bucólico, de renda rural, para o norte, local de transformações, indústrias, poucos donos mandatários industriais e muitos trabalhadores que se doavam muito e, em troca, recebiam menos do que o básico para dignidade de vida.





 O livro pontua a formação dos primeiros sindicatos trabalhistas, a mendicidade dos que serviam os meios de produção e o surgimento do requintes dos que eram os donos dos meios de produção e, também, a crescente religiosidade dos protestantes, em decorrência da cisão que o movimento protestante estabeleceu contra a igreja católica. Miss Margareth Hale é a observadora que narra ao leitor todas as diferenças do mundo do sul para o do norte e como o primeiro valoriza a vida e a comunidade e o segundo é feroz e materialista em todos os seus propósitos. A fome, pobreza, divergências e a realidade do mundo industrialista é contada de forma clara e precisa, mas simples e agradável. Além da mudança geográfica que miss Hale é obrigada a fazer e de toda mudança de ares que o norte lhe apresenta, há, também, o encontro da inteligente e simples moça com o rude e industrial sr. John. Depois de um longo tempo e experiência, ambos iniciam ampla compreensão sobre a realidade e as diferenças do mundo do sul e do norte.





A escritora britânica Elizabeth Gaskell apresenta através do seu "Norte e Sul" uma abrangente preocupação sobre a nova realidade social e como a industrialização estava, de forma instantânea, modificando a sociedade. A escritora possui uma forma erudita, inteligente e romanesca de escrever e traçou com propriedade e autoridade os detalhes minuciosos das regiões, o comportamento das pessoas, as privações e como a vida do trabalhador comum era distante  do proprietário industrial. Suas belas letras, que foram escritas em formas de capítulos, que eram publicados semanalmente em jornais, foram reunidos e transformados  no magnífico romance "Norte e Sul". Um livro de contextualização histórica e real, que narra de forma inteligente o impacto da industrialização na sociedade, o surgimento de novas vertentes e o relacionamento de miss Hale, com seu mundo tranquilo, bucólico e camponês como o sr. John, imerso em uma sociedade competitiva, monetária e sagaz. De forma detalhada, precisa e dinâmica, Gaskell explana as características desses dois polos, enquanto lemos os conflitos e relacionamentos surgidos dentro deste cenário de mudanças, valores e contrastes na vida trabalhista, social e pessoal, a partir do encontro de duas realidades sociais muito diferente: de Hale e John que, apesar da distância emocional que os separavam, uniram seus mundos, com a afeição que surgiu de forma gradativa entre eles.