sábado, 19 de março de 2011

O Domingo Chuvoso de Clara.







Era uma manhã fria de domingo, o vento estava forte e a chuva anunciava sua vinda e, só por isso, o dia já estaria definido como perfeito por Clara, afinal, dias chuvosos, deixavam o céu acinzentado, o vento desordenado e trovões cantavam por toda parte. Clara, era assim: singular. Via beleza no que os outros definiam como estranho, pedia frio ao invés do sol e adorava ficar horas calada, no silêncio, lendo, questionando e extraindo questões inimaginavelmente incalculáveis da vida. O dia frio, a escolha de um novo livro para iniciar uma leitura e um vídeo no final do dia (de preferência "O Mágico de Oz") era um sinal de domingo perfeito. Na sua estante, dúvidas cruéis: iniciar a semana com palavras romanescas, através de Jane Austen, ler mais um livro Shakespeariano ou entregar-se a mais uma história policial com Agatha Christie. Clara não sabia. Naturalmente, isso sempre ocorria; a escolha de um novo livro, achava Clara, era tarefa minuciosa, ainda mais pela quantidade de livros não lidos que ela insistia em comprar, mesmo não tendo tempo correspondente para ler. Coisa de bibliófila. Mas naquele dia, Clara não conseguia escolher. Algo estava errado. Não no seu apartamento, no seu quarto desarrumado e na geladeira - que mais uma vez, estava contendo só água e chá, já que Clara sempre se esquecia de comprar alimentos. Algo estava errado, mas não era fora. Era dentro. Havia muito tempo que sua realidade não correspondia com seus sonhos. Geralmente, isso acontecia com todos, mas para Clara, como muitos, era desolador, pois não conseguia lidar com seus fracassos.
 



Sonhava com um bom emprego, que estimulasse a alma, que pudesse conviver com a intelectualidade e inteligência dos que buscam refletir e sanar indagações maiores, surgidas do verbo ver, sentir e agir. Clara não o tinha. Seu trabalho burocrático, com colegas distantes de todo estímulo que a mente pudesse vivenciar para evoluir e o tempo, que cada vez mais passava como suas adoráveis tempestades: rápido e frio, a deixava vazia, com a ideia de que sonhar, era coisa besta, inventada por alguma parte reprimida da mente que gostava de castigar o indivíduo social. O relógio bateu 10:30 da manhã, seu estômago estava vazio, doendo, mas não tinha forças para preparar nada para nutrir seu organismo. Ultimamente estava assim, semelhante a uma personagem pessimista, fraca e melancólica dos livros que tanto amava de Dostoiévski. A vida, não se materializava com o que planejara e, por isso, Clara não tinha desejo de melhora, vontade de buscar ou, até mesmo, de adaptar-se a sua realidade, tentando ver beleza naqueles dias quentes, no sol odioso e nas tardes em que pouco produzia conhecimento, aplicando sua força de trabalho só para ter uma remuneração no fim do mês. Clara queria mais, mas não sabia por onde iniciar. Desejava muito, inclusive a escrita e arte, a ciência e a magnitude de uma vida serena, calma e reflexiva.





Viver só, depois de concluir sua graduação, não a auxiliou muito. A solidão despertava desânimo e o silêncio a invadia profundamente, mas, tinha que ser assim, pois quando se encontra nos parentes e no mundo mais antipatia do que simpatia, é necessário um caminho pela  busca da harmonia, mesmo que ele seja só.  Não gostava muito das pessoas, mas adorava animais. Um terrível pecado, diziam muitos; mas para Clara, receber um carinho de uma animal, que nem sabia quem ela era ou pretendia ser no mundo, era o sinal mais sincero de amor e respeito ao próximo; coisa estranha que se pedia nas instituições sociais, era inserido na educação dos filhos, mas que, genuinamente, era característica desses seres "inferiores". O tempo corria, e ela continuava no sofá, imune a qualquer barulho e sem vontade de nada. Via seus livros na estante e lembrou-se que ainda não comprou os livros de Salinger, de Dickens e alguns mais de Shakespeare, que tanto adorava.  Não resistindo mais lutar contra o seu estômago, Clara tomou seu último chá de canela, que estava maravilhoso naquela manhã de chuva! Decidiu que iria escolher um livro e levantou-se do sofá. Ao tocar nas páginas de um romance contemporâneo, bem distante dos clássicos almejados ao acordar, ouviu sua campainha; era o porteiro lhe trazendo uma caixa decorada com tons azuis. Era de seu pai e lhe enviara um livro de História da Arte e um doce, que ela tanto amava! No final da caixa, uma bela surpresa: um livro de Charles Dickens, que tanto queria pela manhã, estava na sua porta, quase na hora do almoço. Agradeceu. Trancou sua porta. Sua leitura, finalmente, já estava obrigatoriamente decidida. Já podia sorrir amenamente e sentir que nada era tão ruim quanto pensava.





Mesmo com sua melancolia natural, ela decidiu que iria ter um dia feliz, aproveitando sua chuva, saboreando uma sopa e lendo seu Dickens. Quem sabe, mais tarde, não pintaria um pouco, ligaria para um amigo e escreveria um novo capítulo do livro que sonhava em publicar, mas, por enquanto, só da chuva permanecer com mais força e o frio se fazer entrar, Clara já agradecia e via que tudo poderia ser mudado, apenas com a mudança de seu pensamento, já que este se imprimia no seu exterior. Ao abrir a página do livro, uma mensagem do pai, com sua letra disforme e grande, apresentava-se na página  "Não há felicidade que não ocorra com um forte desejo e não há uma infelicidade que permaneça com a negação dos que sabem amar e viver a vida, seja ela sobre a condição que for". Clara sorriu; abriu seu livro e percebeu que era  a narrativa da "Pequena Dorrit", a menina de vida triste, pobre, mas que soube amar e colher suas felicidades e nunca reclamar da vida. O sábado, certamente, seria ótimo!




terça-feira, 1 de março de 2011

Eu Queria. Eu Quero.




Eu queria dias límpidos, intensos. Queria que meus pensamentos
Fossem elevados, produtivos e gloriosos. Queria labutar no que amo e descobrir
Novos trajetos para novas jornadas. Queria que os dias fossem razão,
Inteligência e de saberes diversos que encantam e maravilham à alma.


Queria levantar exalando por todos os poros, a vontade inerente do gostar e fazer.
Descobrir seres diferentes, volitar com desejos (possíveis e impossíveis)
Queria deixar a alma sair pra fora, ser mais relevante que a carne;
Menosprezar minhas angústias e varrer as infelicidades.


Queria que meus dias fossem meditação. Meditação e ação.
A ação do aprender e construir. Queria me conduzir como o rio e
Não deixar  escorrer junto as tempestades. Queria a plenitude da busca sábia.
Queria fluir toda vivência em sabedoria e deixá-la me dominar.


Quero o que o hoje ainda não é, mas tem que ser. Quero tudo que queria
E desejo querer ainda mais. Queria continuar querendo o que é da alma,
Viver um dia como se fosse uma vida, aprender num minuto o que chega
Somente com diversas e rotineiras  rotações.


Quero a leveza do ser agindo sobre meu eu e distribuíndo-me pelo mundo,
Amando ele, aprendendo com ele e sendo mais do que o meu menos.
Quero ver meu menos ir embora o meu mais chegar sem demora
E aconchegar-se a minha razão, encaminhando-me para sabedoria e correção.


Eu queria. Eu quero.



domingo, 13 de fevereiro de 2011

Se Nada der Certo, Viro Político.



Política caracteriza-se por ser a arte de governar os interesses públicos e administrar todos os setores de um Estado, mas no Estado brasileiro é definida, também, como um fator de utilidade por pessoas que buscam a política para fins lucrativos, sem comprometimento com a ética, a cidadania e o povo. Muitos cidadãos se candidatam para cargos políticos buscando oportunidades de status sociais e remuneração exorbitante para a realidade do país. Nesse sentido, o quadro de composição que abrangem o Poder Legislativo e o Poder Executivo são formados por profissionais que desempenham funções das quais não tem entendimento e, mesmo sem qualificação, são votados para ocupar cargos públicos com excedente remuneração, no qual não desenvolvem programas sociais eficientes e leis favoráveis ao desenvolvimento do país. Nas últimas eleições tivemos - lamentavelmente - um número significativo de pessoas despreparadas para o futuro trabalho, mas, como eram conhecidas pela grande massa brasileira, foram votadas em número considerável para se tornarem Deputados e Senadores do grande Estado brasileiro. Dentre os eleitos, pode-se encontrar indivíduos que desempenhavam trabalhos de naturezas variadas: humoristas, cantores, atletas, empresários... pessoas que já tiveram seu prazo de profissão extinta e decidiram "tentar" a política buscando fama, salário e mídia. Da ciência política, das necessidades do cidadão, segurança pública, educação e saúde, pouco discursaram ou entendiam, deixando claro o fato de serem ignorantes sobre os fatos apresentados e não terem conhecimento profundo a ponto de formularem uma idéia precisa para sanar, discutir ou atenuar as problemáticas que a sociedade brasileira enfrenta.




Os eleitos, infelizmente, demonstraram que para fazer e exercer política no Brasil, não é exigida nehuma qualificação e preparo. Conhecer as mazelas da sociedade, as necessidades de saneamento básico e as dificuldades da estrutura educacional, não foram questionamentos e preocupações que direcionaram os candidatos quando optaram por  "representar" o Estado. Suas únicas ferramentas de trabalho são o discurso repetitivo e vazio e as promessas utópicas de problemas que nunca vivenciaram e sequer sabem como solucionar. Consequentemente, vemos nossos eleitos, vivendo de forma corrupta, não interagindo com a vida social e trabalhando em prol dela. Um político, além do comprometimento com a ética, honestidade e cidadania, deveria ser um representante intelectualmente formado e informado para o trabalho que pretende realizar. Sendo assim, conhecer os princípios básicos da estrutura social e as necessidades básicas que fazem parte de um país deveria ser habilidade exigida para posse do cargo, pois eleger um cidadão por ser humorista, por ter sido um bom atleta, por cantar bem, por ser bonito ou qualquer tolice desse gênero, só comprova que o brasileiro é, ainda, politicamente despreparado e não educado para saber a relevância do voto e do poder que o mesmo determina.




Nossos  eleitos certificam - descaradamente - que são frutos da nossa ignorância e dos critérios que utilizamos para definir o que seja primordial para sociedade. Ocupam um cargo que, MAIS QUE QUALQUER OUTRO NO ESTADO, poderá definir a estrutura educacional do Estado, direitos trabalhistas, igualdade social e acesso a dignidade de vida. As pessoas que escolhemos para legislar nosso futuro, definirão nosso futuro. Seremos réu de um julgamento que nós mesmos escolhemos. E, enquanto escolhermos pessoas que são conduzidas à política por necessidades pessoais e não coletivas e humanistas, teremos por muito tempo esse grupo medíocre de políticos que escolhem a política não por fomação, idealismo, mas por vê-la como um caminho fácil de riqueza e publicidade, afinal, se nada der certo, no Brasil, sempre há a possibilidade do "jeitinho malandro", de trapacear o outro, elegidos para um cargo com o aval dos eleitores que reclamam, criticam, mas nunca aprendem.




sábado, 5 de fevereiro de 2011

A Menina Pedra.







A Menina Pedra não gostava de ser pedra. "pedra não sente nada, não é nada", dizia ela  para suas amigas rochas, que protegiam a doce pequena.

 ---  Queria mesmo, era ser gente. Poder correr, sentir sensações e conhecer a arte de amar. Ou, então, se não me deixarem ser pedra, permitam que vire uma flor, ou árvore, por favor! --  repetia a Menina Pedra.


A rocha, sábia e habitante remota da Terra, conhecia muitas coisas e, então, decidiu deixar a Menina Pedra partir para o mundo, na grande e intrigante aventura de se tornar gente. A Menina Pedra não tinha células, era feita de pedra. Um material sólido por demais que não permitia nenhuma alteração ocorrer. Nada poderia a partir, nada poderia infiltrar: suas pedras eram rígidas. Era chamada de "Menina Pedra", pois era bonita como uma menina - uma espécie diferente na Terra. E ela sonhava em ser mais. Muito mais. Infelizmente, o tempo passava, mas suas pedras não se modificavam. Então, a menina tentou proteger uma roseira - na esperança de que a mesma lhe presenteasse com sua cor e com a vivacidade de seu dia. A Menina Pedra, então, encostou-se nas suas rosas; não permitia que nenhuma erva daninha se aproximasse, mas, quando todos passavam, nem notavam ela. A jogava para qualquer canto, desejando que a rosa permanecesse livre para ser deslumbrada. Mas ela não desisitiu! Colocou-se novamente em volta da sua rosa e a protegeu, no mais vivo amor. A rosa crescia, vivia e deixava seus esporos se dispersarem para semear novas vidas. A Menina Pedra, cada vez mais, ia ficando pequena diante de sua roseira que ganhou um altura grandiosa e vicejava de forma incomun. Então, os dias passaram e a Menina Pedra, ao amanhecer, viu que tinham roubado sua rosa, "Pois ela estava linda demais para ser deixada na terra", ouviu dizer. Nesse momento, a Menina Pedra experimentou uma sensação desconhecida: a tristeza. Era um sentimento estranho, um vazio profundo e uma necessidade de ter algo que não podia. A Menina Pedra, nesse momento, sentiu seu corpo rachar e viu  - sem sentir nehuma dor - um pedaço de seu corpo rolar para longe, muito longe de si mesma.


Mas pequena do que já era, a Menina Pedra partiu daquelas terras e decidiu nunca mais proteger e gostar de nada que visse. Encostou em um pedra grande, mas não sentiu nada pela mesma, pois ela não falava, sentia ou queria algo, como ela - estranhamente, por ser pedra -  desejava ter e ser. A Menina Pedra partiu daquelas rochas, pois não suportava mais o calor e foi-se embora. Ao chegar em um terreno umbrófilo, viu um ser estranho crescendo. Tinha apenas duas folhas e um caule frágil.

O que você é? - disse a Menina Pedra.

Sou uma árvore - respondeu a mesma.

- Desse tamanho? Que mentira!

- Eu sou uma árvore, mas ainda sou pequena. Talvez, se pudesse me ajudar, poderia crescer e não morrer aqui!

- Como poderia te ajudar?

-  Me amparando. Se ficar perto de mim, até meu caule ficar forte e crescido, não serei pisado por ninguém e, no futuro, lhe darei uma sombra majestosa, maravilhosa! Terei muitas folhas e flores nascerão de mim, antecipando a chegada dos meus frutos.

- Ai! uma sombra! Sombra para me proteger do sol! Tem perigo de alguém te roubar?

- Não, serei muito grande e os outros seres não me desejam para alegrar em outros lugares ( como acontece com as flores) rsrsrs

- Sendo assim, aceito!

A Menina Pedra levou seu pequeno corpo para junto do caule, e lá ficou. Anos se passaram e as duas se ajudaram, tecendo uma amizade bonita e uma vontade de permanecerem juntas para sempre! A árvore, dia após dia, ficava alta e suas folhas aumentavam, caíam, e, depois de muito tempo, veio as flores prometidas; A Menina Pedra não poderia ser mais feliz! Via as flores com cores diversas cair sobre ela, a enfeitando sem pedir. Um dia, porém, a árvore revelou-lhe um segredo. Um segredo que já sabia desde quando era um pequeno caule: ela iria ser cortada. Não havia lhe contado antes, pois temia que a Menina Pedra fosse embora. "Nós, árvores grandes, sempre somos cortadas. Acontece com quase todas, mas, se não fosse você, como ficaria forte para dar flores e frutos para todos? Você me fez forte e eu pude viver". A Menina Pedra sentiu todo o seu corpo tremer, não sabia o que era aquilo! A Menina Pedra experimentou a segunda sensação estranha na vida: medo. O medo era cruel. Era um sentimento forte, dominante; era uma sensação insana de perder o que lhe fazia feliz. Logo, o segredo tornou-se realidade: a Menina Pedra viu sua amiga ser morta e suas folhas e fores secarem no chão, enquanto seu caule, o caule que cuidou e guardou, ser levado embora.



Outra vez partiu. Conheceu novas sensações nas terras em que passou. A tristeza e medo, conhecidos através da sua roseira e árvore, somou-se a outros sentimentos como: amor, amizade, paz, alegria, gratidão, ódio, rancor, dor, espera e, finalmente, decobriu, através de todos os sentimentos, que deveria, acima de tudo, gostar de si mesma, pois tinha um papel relevante na terra, como todos os demais seres que conheceu. Mas a Menina Pedra ainda estava triste, pois ainda era um pedra! Aliás, uma pedra bem menor do que antes, já que viu-se, em cada novo sentimento, rachar-se e se dispersar pelo mundo. Ao retornar  para sua rocha narrou tudo o que passou na grande aventura de tornar-se gente, mas queixou-se por ser ainda uma pedra. Sua rocha, sábia e bondosa, pediu-lhe que olhasse para o lago e, ao chegar em sua beirada, a Menina Pedra tomou um susto! Seu corpo, não era mais de pedra! Era gente! A Menina Pedra tornou-se uma menina, com células e sem pedras e solidez infiltrável.

 -  Meu Deus! Como isso ocorreu, sendo que nem senti?

 - Ah! minha adorada Menina Pedra! Quando decidiu ser gente, já não era mais pedra. Todo criação, seja ela qual elemento for, quando decide mudar, a mudança misteriosamente começa ocorrer. Você quis ser gente para sentir o que não podia. Então, conheceu o que era a tristeza ao perder a amiga roseira, conheceu o que era o medo ao pensar em perder a amiga árvore e conheceu o que são a racionalidade e sentimentos ao partir para o mundo. Você quis ver o mundo e, o mundo, tranformou você. As tranfomações e relações que construiu no mundo, modificaram seu próprio mundo. E, isso, minha cara, é ser gente. Ser gente é poder evoluir, deixar sentimentos labutarem seu caráter, deixar o mundo infiltrar totalmente pela sua alma.


A Menina, que não era mais pedra, abraçou fortemente sua rocha e correu querendo alcançar mais pedaços do mundo e deixá-lo permear sobre toda a sua existência. A menina não era mais pedra, gostava de ser gente, mas pensou em ser algo mais. A menina queria voar: queria ser anjo! E começou a desejar iniciar uma aventura intrigante na busca de se tornar anjo.

Mas essa, é uma outra longa e bonita história.





quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Eu Moro na Roça.






Eu moro na roça.
Acordo com os pássaros
E recebo um abraço.



Eu moro na roça. Acordo com o som dos pássaros, com a neblina fria e o cheiro de café passeando pela casa. Tiro a preguiça da cama, a conduzo pelo chão e mando a danada embora. Com a alegria da primeira luz, ouço pássaros cancionarem uma música bonita por demais (acho que foi feita para mim!) e agradeço o vaidoso admirando sua exepcionante forma de voar. Como uma comida gostosa, que foi feita por senhoras de mãos talentosas, que aprenderam com suas mães, avós e bisavós a arte de alegrar a fome matinal. Parto pela estrada e vejo pessoas passarem. Cumprimento elas enquanto, andando lado a lado, vejo percorrerem seus destinos. Passo por morros, pedras, árvores e bichos e chego na labuta. Labuto por todo dia, vejo o sol crescer pelo céu, castigando, queimando a pele e depois indo embora, deixando o ar ameno e umidecendo toda a atmosfera quente. Volto para casa, fico junto dos meus, vejo a noite passar e a lua nos convidar para  fora. As estrelas brilham no céu. As estrelas gritam por atenção. Então, deito na cama, pensando no dia. No dia na roça.

Eu moro na roça. Acordo cedo e busco um riacho, encontro conhecidos, estreito convivências.

Eu moro na roça e, na roça vejo uma consideração rara, um tratamento bondoso e uma aptidão para o riso.

Eu moro no roça. Não gosto de cidade, não! Gosto de acordar com os pássaros, andar sem calçado e de bons amigos no coração!



Eu moro na roça, meu povo! Vou na cidade só pra comprar novidades e ver gente mentindo na televisão. Peço Deus para me deixar na roça e não ir para cidade, não! Para não ver gente maltratar gente, ver comida jogada no chão enquanto tanta gente passa precisão. Gente que pensa ser muito por ter instrução e gente que faz mal por não ter... mas, quando pela  manhã desperto, desperto meu olhar no escuro de um quarto, sinto um cheiro pesado e me levanto para vida. Para a vida na cidade.



Mais eu moro é na cidade
Acordo com barulho 
E recebo infelicidades.




sábado, 8 de janeiro de 2011

Palavras.



No início, tudo era poeira, partículas diminutas lançadas por todo infinito universo. A atmosfera era quente, o ar se condensava pelos cantos e tornava-se rígido à medida que o destino se preparava para ser uma unidade nova na imensidão negra que continha matérias brilhantes e saltitantes. Tudo tão lindo! Mágico como uma alquimia preparada pela força inteligente desejosa de criar vidas e fazê-las maiores que a simploriedade de qualquer caracterização considerada existente. Logo, a solidez se estabeleceu, a temperatura já não mais feria e os pingos de matéria líquida viajaram na atmosfera, voando como pássaros rápidos para encontrar seu lar. Chegaram. Dominaram a litosfera. Preencheram as erosões e excessos de vazio que deixava o relevo ainda desordenado, procurando sua forma. Por passos lentos a vida formou-se; dependendo da solidez de algumas matéria e da forma líquida das demais que uniram-se para receber algo complexo, espetacular, que podia movimentar-se, alimentar-se e organizar-se em substâncias nunca antes vista. Substâncias estranhas. Substâncias evolutivas. A poeira desenhou-se em globo e, por seu esforço e luta, destinou-se em um evento maior, ganhou um presente: a vida. Uma vida estranha, demasiada estranha; ela evolui e cresce, altera-se em formas diversas e ganha características desiguais e manifesta-se de muitas maneiras. Seus corpos são inúmeros, singulares. Por tanto se alterar, a vida deu origem a uma unidade primordial. Uma vida capaz de criar palavras, falá-las e escrevê-las. Uma vida possuidora de um sistema que compreende seu meio, modifica ele e entende sensações; entende mecanismos não só físicos, mas os impregnados em alguma parte da alma: os sentimentos.




Então, a vida latente, formada naquela primitividade, pôde evoluir. Não só a sua complexidade celular, mas a sua estrutura espiritual. As palavras que nasceram com essa estranha vida de bípedes pensantes representam à força que estes viventes racionais necessitam para alcançar o supremo fim da jornada desconhecida, mas já informada. A palavra é a ferramenta de trabalho, abrigada na inteligência dos seres racionais, para desvendar seu próprio destino, para mapear sua própria história. As palavras criaram ciências, criaram números, descobriram as morfologias e fisiologias dos seres. Pelas palavras, o bípede pensante desenvolveu ofícios, construíram moradas e puderam organizar sua intelectualização, buscando um caminho para moralidade do respeitar e amar seus iguais e seus diferentes. Palavras. As palavras saem da alma, ganham som na boca, desenham-se nos papéis e crescem no coletivo, resultando em inteligências, conhecimentos, sensações e sabedorias que formam a vida do bípede pensante que vive em grupo e necessita de sua comunidade. As palavras são a certeza da inteligência, são filhas da comunicação, e, mesmo quem não pode tirar as palavras da boca ou escrevê-las, as têm dentro da alma; as nutrindo de vida e da estranha necessidade de ter e buscar entendimento.




No início, tudo era poeira, partículas diminutas lançadas por todo infinito universo. No meio tudo era solidez, com grandes descobertas e vidas ganhando formas. Na eternidade, tudo será palavras. Palavras que explicam a vida, palavras que definem a força suprema e criadora de tudo e todos. Palavras que cientificam os bípedes pensantes sobre sua verdadeira natureza e os elucidam para o patamar nobre dos seres angelicais, das palavras transcendentais e avessas a qualquer torpeza. A palavra é a força inteligente que conversa com o homem e o faz ter certeza de não ser mais uma vida latente, de não ser uma vida livre e uma luz eterna e sábia, mas de ser, ainda, uma vida caminhante, escassa de muitas palavras e lições para ser a inteligência bondosa e sapiente que foi criada para ser.

Palavras.




segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Quando.



Quando os dias passarem e o entardecer escurecer minha porta,
Que eu possa ter perdido meu dia, mas não minha sensibilidade.
Quando meu corpo pedir alimento, para buscar sua manutenção,
Que eu possa agradecer a natureza, mantedora de minha vitalização


Se um dia tiver tristezas, que elas me doam, mas não tirem o meu pensar.
Se a dor física me roubar, com agressões freqüentes, que eu as sinta,
Mas que eu possa, ainda, sentir minha energia pulsar e a reflexão me acompanhar.
Quando chegar o dia de um doloroso adeus, que eu derrame meu martírio



Mas nunca me esqueça que só dá adeus aquele que soube amar.
Se eu enterrar um amor, que minha saudade me envolva,
Mas que eu nunca esqueça que eu pude aprender a amar.
Quando minha carne envelhecer e a enfermidade chegar,



Que eu possa desgostar de minha fraqueza
Mas nunca reclamar da vida que ainda há.
Quando um amigo me maltratar e a decepção quiser chegar
Que eu não deixe ela adentrar e decidir o meu caminhar.



Quando tudo acabar e não ter mais dias e noites
E ver que vivi, chorei e que minhas tristezas me assaltaram,
Que eu possa me lamentar, mas nunca deixar a emoção, inteligência e a
Sensibilidade de mim se distanciar.



Quando o amanhã não ser mais um sinal de alegria
E meu caminhar ser  vagaroso e pesado
Que eu possa suspirar lentamente; mas agradecer,
Agradecer por esta  vida que me fez melhorar.



Daiane.