domingo, 20 de maio de 2012

Nossos Heróis.





Nossos heróis nascem conosco quando chegamos ao mundo. Esperamos deles tudo; tudo e mais um pouco. Por eles somos alimentados, cuidados e amados pelo mais profundo amor. Na medida em que crescemos e desenvolvemos nossa percepção e intelectualidade, logo conseguimos identificá-los, os chamando pelo nome de pai e mãe. Pai e mãe, duas unidades de laço forte e eterno que educam seus filhos e não deixam de ser pai e mãe, mesmo quando este pai e esta mãe não estão mais unidos por um relacionamento conjugal. Há lares em que o pai é a única figura educadora, em muitos outros a mãe é a única figura educadora presente, e em tantos outros há o pai e a mãe e, mesmo com a presença física, de ambos, os filhos percebem que toda educação moral provém mais de um do que do outro. Na nossa estrutura societária é comum ver a mãe como responsável determinante na educação moral de um filho e, muitas vezes, arcam com todas as responsabilidades, inclusive a financeira. Nossos heróis crescem conosco, nos preenchendo de amor, educação e tudo mais que podem oferecer. O que não nos oferecem, tanto em matéria, quanto em afetividade, só não proporcionam porque ainda não tem nem para eles, pois poderiam (e querem) dar o mundo para seus filhos.






Na visão de um filho(a), um pai e uma mãe devem ter moral perfeita e corresponder a todas as expectativas deles, que são comumente formadas pela cobrança que a sociedade lhes imputam. Tudo deve ser perfeito, principalmente para que os outros vejam e não critiquem o que possa ser definido como incomum. As expectativas e as cobranças (que são grandes demais) são feitas durante toda vida, quando os filhos querem toda matéria possível e todo carinho que acham que obrigatoriamente devem ter. Cada pai e mãe amam seus filhos como podem, uns já absolutamente capacitados a oferecer afetividade, outros preocupando-se com seus filhos para que eles sejam alimentados, tenham educação de qualidade e saúde permanente. E não seria isso uma prova de preocupação e amor? Os filhos imbuídos de muito amor, ainda, cobram mais. Se tem amor e falta-lhe matéria, acham que não estão sendo amados, se há muita matéria e pouca manifestação de afetividade, não percebem a seu redor qualquer prova de amor. Nossos heróis nos educam para sempre sermos felizes e desejam que nenhum tipo de sofrimento se aproxime dos seus filhos.







Nossos heróis tem a única obrigação (na nossa visão) de serem perfeitos e, como filhos, fazemos essa cobrança pelo decorrer da vida. Quando há falhas, quando o erro surge e o comportamento por eles realizados não se enquadram com nosso sonho infantil, surge a crítica, o rancor e o desamor por àqueles que, como nós, são seres humanos, aprendendo a viver e a crescer, com pecados, qualidades e falhas. Queremos, no mais profundo egoísmo, que nossos heróis permaneçam naquele pedestal criado pela nossa mente desde quando nascemos e nunca, nunca saíam de lá, como a mais bela estátua criada pelo artista que a cria para ser imutável e eterna. Não aprendemos que nossos heróis são carne e espírito, que erram, acertam e vivem pelo mesmo propósito que nós: evoluir. Não aprendemos que Deus não criou nossos heróis para nossa incansável felicidade e realização de qualquer desejo, mas sim para evoluir e crescer como, vejam bem, nós mesmos.






Enfrentamos com o mais profundo rancor e aversão os atos considerados errôneos cometido pelos nossos pais, nos esquecendo que nossos pais, heróis e educadores são simples seres humanos e, serem nossos pais, não os tranformam em deuses perfeitos e intocáveis. Precisamos, na verdade, compreender que um pai e uma mãe, antes de cumprir esse papel, são filhos, cidadãos, seres aprendentes e humanos. Precisamos dar espaço para nossos pais serem pais e seres humanos, assim como os pais devem compreender que seus filhos não nasceram perfeitos e para somente proporcionar felicidade, mas são seres humanos que vão desejar e realizar feitos que não correspondem ao que um pai e um mãe desejam. O amor, o amor profundo e verdadeiro, somente surge quando podemos reconhecer nosso ente querido e nossos amigos, como seres humanos, compreender suas falhas e entender que cada um possui suas mazelas e estão na jornada da evolução e, mesmo assim, amá-los, honrando-os, os perdoando para sermos também perdoados e oferecer espaço para nossos heróis serem não só nossos pais, mas sobretudo seres humanos.





sexta-feira, 11 de maio de 2012

Mulher: A Mãe da Humanidade.





Possuidora de um contraste absurdamente intrigante, que mescla-se entre a delicadeza e força, o papel da mulher é determinantemente dominante na família e sociedade. É mãe, esposa, filha, educadora e profissional; mas não é o excesso de funções que faz das mulheres figuras de facetas diversas e dúbias emoções, mas sim a forma como conseguiram criar ferramentas para administrar as vastas atividades que realizam no decorrer de seu desenvolvimento. A velha discussão sobre a mulher ter maiores potencialidades ou não perante o homem, é teoria infrutífera. A moral que torna a pessoa melhor e apta e não sua condição sexual. O raciocínio e a moral, ao meu ver, que determinam a evolução ou falta dela no caráter do indivíduo e não a constituição física, que organizadamente separa o homem e a mulher de acordo com suas funções reprodutivas sexuais, preparando a fêmea sempre para desenvolver e criar seu filhote (em quase todas as espécies), mas nem sempre com a participação do macho.






O fato é que a capacidade de gerar atinge a mais profunda região emocional das mulheres. Ela torna-se mãe, depois avó, sendo esta última uma segunda mãe, sendo mãe, também, de seus sobrinhos e, muitas vezes, de seus próprios maridos. O corpo gera e prepara-se para cuidar, educar e zelar, mas será somente o corpo que determina a paixão que a mulher tem pelo cuidar? Diria que não, analisando o fato de que muitas mulheres não geram, mas não deixam de se sentirem mães. A mulher é cuidadora nata e genuinamente perita em amar. Sente comiseração, penaliza-se pelo o outro e chora por qualquer tolice que atinge sua alma. Desde a meninice, quando lhe dão bonecas para pentear e vestir, diferenciam-se dos meninos que devem sempre correr nas ruas, ter coleção de carrinhos para imaginarem-se partindo, contrapondo-se as meninas, sempre com suas panelinhas de cozinha e bonecas para ninar, vestir e amar. Desde as pequenas brincadeiras, ao cuidado que deve (juntamente com sua mãe, portanto, mulher) exercer nas atividades domésticas, o mundo apresenta sua real função na sociedade: a parte cuidadora e administradora de suas relações. Este texto, no entanto, não pretende ser feminista, pois a escritora dele não é, mas sim humanista, tendo em vista que o homem e a mulher são complementos para formação da base moral da formação de um indivíduo: a família.






A mulher, no entanto, sofre certas pressões de valores sociais. Valores esses que distinguem as pessoas por motivos diversos não as respeitando como seres humanos. Isto pode ser notadamente observado pela vida sexual da mulher e do homem. Para a primeira, o desenvolvimento da sua sexualidade deve ser retido, comportado, já para o segundo a quantidade cria o estranho valor de ser considerado qualitativo em relação ao seu grupo. Tais comportamentos são tão esdrúxulos que torna-se tarefa árdua não comparar com estudos de primitivos inferiores, darwininos ou de etologia. As diferenças são muitas e classistas. Entre as várias formas de classificação, há as mulheres consideradas pelo bando como "corretas" para a iniciação do matrimônio, entretanto, há outras de uso comum, que realizam atividades de prazer estritamente masculino e, portanto, apesar de cumprirem as funções consideradas corriqueiras pelo bando, não são identificadas para escolha matrimonial. Valores tão medíocres que colocam homens e mulheres constantemente em escala de produtos para consumo, mas não como seres humanos imbuídos de qualidades e falhas.






A mulher dentro essa trajetória classista e preconceituosa perante o mundo, tem a árdua função de fazer-se gente, mesmo quando o mundo não a trata como tal. Mulheres que em grande quantidade assumem a função de sustentarem e educarem seus filhos sozinhas, tendo que ouvir que são solteiras e, portanto, imorais para a atividade que com garra e solidão se prestão a fazer. Mulheres que acolhem suas filhas e netos, quando eles encontram-se sem apoio da figura paterna e, mais uma vez, tornam-se mães de seus filhos e segundas mães de seus netos, provendo a casa e ensinando uma força que somente fora construída na batalha da vida. Mulheres que cuidam de seus maridos doentes, sejam por questões meramente físicas, emocionais ou de vícios; estruturam seus lares, educam suas crianças e carregam nas fracas costas a responsabilidade de serem donas de um lar. 







Não bastando todas as tarefas e atribuições do ato de ser mulher, há, ainda, a profissionalização, o trabalho. O trabalho bonito da mulher que pôde, por condições financeiras, ter uma profissão de doutora, auxiliar as pessoas e desenvolver o intelecto, mas tem, também, a mulher que não pôde ter estudo, mas não deixa de prover sua casa, que cumprem trabalhos sob o sol, imploram por cidadania e, quando precisam, exercem uma rotina de muitos empregos, tentando levantar um "tiquinho" miserável que não alimenta o homem, mas não os deixa morrer prontamente. Mulheres que mesmo sem instrução, criam formas de trabalho, vendem seus produtos na rua, pedem para limpar as casas das mulheres que puderam ser doutoras e dormem em paz sabendo que estão cuidando de sua cria. A essas mulheres que são mães (de tudo e todos), mesmo quando não podem gerar, dedico este texto, pois toda mulher já nasce mãe, mesmo quando não deseja e toda mulher torna-se mãe de algo, alguém ou de seu próprio filhote, amando, tratando, cuidando e exercendo sua evolução e, assim, compreendendo a verdadeira razão da vida: que o amor conduz ao bom trabalho e o trabalho generoso, amoroso e caridoso, é o princípio da evolução e de toda razão que constitui a humanidade. Mulheres, mãe da humanidade.





sábado, 5 de maio de 2012

Mulherzinhas.






Era um laço estranhamente forte, de linhas invisíveis e amarro eterno
Um laço de esmero e cuidado, de finas e infiltráveis linhas de amor.
Uma convivência terna, um olhar sábio e a mais pura vontade de ser e ter.
Meninas em número de quatro, ou como escrevem, quatro meninas.



Teciam conversas, explanavam sonhos e acreditavam no amor
Um amor leal e forte, contínuo e lúcido.
Que esperava o conhecido amigo à casa retornar
E sonhava com o dia que para casa o pai permanecerá



Guerras, medos e fome, como enfrentar à dor?
Pela primeira o amor, pela segunda, não mais que a razão
Na terceira somente a abnegação e a quarta por tintas escorridas nas telas.
Sua mãe, tão bela e serena, espera das filhas somente amor.



Amor para com elas, com abraços companheiros, sonhos compartilhados
E gestos destemidamente desejosos de viver a confortável leveza do ser.
De infância doce e sonhadora, vivia as meninas de May Alcott
Criando histórias, inventando sonhos e acreditando no impossível



De tanto sonharem, conquistaram o belo amigo
Que tinha o que as meninas não tinham, mas desejava ter o que já possuíam
Meninas felizes, meninas mais graciosas por não viverem só, mas serem quatro
As quatro meninas irmãs mais singulares que o papel já pôde narrar.



Mulheres diferentes, por serem mulherzinhas ou
Como definiram, Adoráveis Mulheres
Que amarrando laços invisíveis puderam elevar o amor,
Esse profundo amor das mulherzinhas da senhora March.
Que adoráveis mulheres.




Minha singela homenagem a obra "Mulherzinhas", de Louisa May Alcott, pois quando me recordo desse escrito, emoções diversas me tomam e me conduzem para um patamar melhor, enriquecendo meu ser por ter percebido tamanho amor e amizade diante todas as fragilidades que essas adoráveis mulheres tinham, mas não temiam; viviam, mas enfretavam e, sobretudo, sabiam, mas guerreavam. Que laço de amor mais bonito! Que mãos companheiras e adoráveis que levaram minha alma a conhecer a mais pura sensibilidade pertubadoramente transformadora.






domingo, 29 de abril de 2012

O Último Trem da Tarde.




O último trem partiria daquela velha cidade as seis horas da tarde. Um excelente horário para partir, pensou Maria. Já havia alguns meses que ela pretendia abandonar aquela velha cidade pequena, mas não sabia como. Às vezes, convencia-se que não deveria percorrer longos caminhos por falta de dinheiro, depois pensava em todos que amou, amava e que ainda poderia amar naquele pedacinho de terra. Mas naquele dia, depois de guardar por sete meses uma velha mala preparada com todos os seus pertences, decidiu que deveria partir. Para onde? Para o trem, oras. Não importa onde ele a levaria, mas levaria para algum lugar, afinal de contas. A espera era longa. A mais longa de sua vida; nem sequer almoçara para aguardar aquele momento. E o dia estava perfeito! Tudo o que Maria esperava para este momento era isso: um frio leve, um colorido cizento no tempo e poucas pessoas ao seu redor. Aquele trem sempre fora o único meio de transporte naquela cidade perdida, esquecida pela industrialização. Quando queriam visitar amigos, esticavam seus pés pelas estradas ou usavam carroças velhas, meio de transporte rústico e popular na cidade, todos tinham.





E em meio a carroças e andanças sem fim, torna-se fácil compreender o desejo de uma jovem sagaz, conhecedora dos cantos de todos os pássaros e amante das principais cachoeiras escondidas nas matas serranas da velha cidade. O relógio da cidade, no topo da igreja, avisou que faltava apenas meia hora para a chegada do trem. Para onde o trem vai? Ele pára onde? Em cidades, montanhas, casas grandes ou cidades sem verde, onde árvores não mais nascem e as ruas são cobridas por matérias estranhas, em que matos não crescem? Que estranho! Lugares em que as pessoas preferem fumaças às plantas? o pensamento de Maria foi tão esdrúxulo que sua boca soltou uma gargalhada, o que fez a senhora do banco na frente despertar de seu leve cochilo e emburrar-se por isso. Bem, não importa, quero ir no trem para lugares distantes, inóspitos e convidativos a transeuntes apaixonadas pelo ver e viver o novo. "Quero crescer", ansiava Maria. Não queria mais repetir seus dias, ver as mesmas pessoas e esperar anoitecer. Queria mais!





Tinha deixado uma carta para sua avó e uma rosa amarela, sua preferida, mas sabia que ela não se sentiria surpresa. "Quanto tempo não quero partir no trem". Sua avó sabia. Certamente sabia. O sonho de Maria crescera com ela e, como a criança que deseja um dia ser adulta, o sonho de sua menina ficara grande demais para caber na sua vida. "Quando deseja algo que não encontra, é porque ele está em outros espaços e, por isso, é preciso caminhar até ele" dizia sempre sua avó. Naquele dia Maria decidira, de uma vez por todas, que caminharia até o seu sonho. Que sonho? Nem ela mesmo sabia, mas sabia muito bem o tamanho do buraco que ele fazia em sua alma, pedindo mais, gritando por liberdade e ansiando por empresas e projetos. Um som maquinário se aproximava e, com ele, o coração disparado pelo medo do novo perpassava por Maria. Sempre há uma escolha. A vida é uma escolha. Ficar ou partir? Entregar-se ao conhecido e apaziguar a alma ou provocar a imersão de novas realidades, fazendo a mente pensar e acostumar-se, ora com a dor, ora com a alegria?





Antes que pudesse pensar, a porta se abriu. Lá dentro tinha bancos, janelas largas, tudo muito confortavelmente preparado para seduzir viajantes. Um dos seus pés conseguira ir para frente, o outro não ousara. Parte de si buscava o trem enquanto seus pés lhe seguravam em terreno firme, conhecido e amado. A última chamada foi feita; toda a máquina foi novamente ligada e os passageiros estavam a bordo, menos Maria. Ela estava vendo ao seu redor aquele mundo todo verde, de árvores e pássaros amigos e percebera, pela primeira vez, que nunca tinha sentido o cheiro forte de fumaça como daquele trem e nem visto cores diversas além do verde gritante das matas. Será que precisava ver? Será que só cresceria se partisse no trem? Seus pés foram para frente, seu corpo decidiu antes de sua mente. Já estava encantadoramente sentada em uma poltrona estofada com flores de cor rosa; colocara sua pequena mala nas acomodações e sentara perto da janela. Pelas janelas via o tempo passar, o verde desaparecer pela distância geográfica e cheiros novos aparecerem, acompanhados de cores novas e rostos novos. Não importa onde o trem pararia ou se iria voltar em breve; ou nunca, o que importa é que o medo partira e foi substituído por uma sensação nova, desconhecida e enigmática, apresentando um novo tempo, um novo estado e uma nova Maria. Nesse momento, Maria percebeu que não seria o trem que a faria crescer, já havia crescido quando desejara partir no trem. Tinha crescido  quando decidira não ser mais a mesma. Já não era mais menina. A última curva foi alcançada, o vento tornou-se veloz e, pela janela, formas e relevos diferentes se apresentavam aos seus olhos. Um novo mundo estava à sua frente.







domingo, 22 de abril de 2012

Norte e Sul, de Elizabeth Gaskell.






O processo de industrialização modificou a realidade social de vários países; criou novas formas de trabalho, de parâmetros e, como bem articulou Karl Mark, originou novas classes sociais, segregando os homens e estabelecendo novas formas de relacionamentos trabalhistas. Como toda nova condição transformadora e manipuladora, proporcionou uma dissidência que atingiu a  sociedade em todos os seus setores. No âmbito da literatura, temos registros das observações feitas destes "Novos Tempos" e dos efeitos decorridos da "Revolução Industrial". O eminente escritor britânico Charles Dickens é uma das referências no que se trata de histórias que ofereceram à humanidade as condições que a inustrialização criou e como ela modificou a sociedade, o sistema e as pessoas.





O livro "Oliver Twist" narra a história de um menino órfão, condicionado a miserabilidade e criminalidade, nos apresentando a pintura perfeita do cenário industrialista e de como a "Revolução Industrial" mexeu com toda estrutura social. Em razão da "Revolução Industrial" ter se iniciado na Inglaterra, tornou-se comum os pensadores ingleses terem sido os precursores a denunciarem e se manifestarem contrários as novas condições sociais vigentes e a forma como ela segregou os homens. Além dos escritos de Charles Dickens, pude ter contato com um obra primorosa, inteligente e erudita, que apresenta como temática a industrialização e suas nuances: "Norte e Sul", de Elizabeth Gaskell. A narrativa "Norte e Sul" narra como o mundo bipolarizou-se com a tendência industrial e os efeitos, mazelas e dificuldades deste novo contexto.






A narrativa  tem como heroína a jovem Margareth Hale, moça de vida modesta, mas cultura refinada e intelecto aguçado, graças a intelectualidade de seu pai, um clérigo que, como todos da época, apesar de não terem renda elevada, tinham contato com a classe alta, que definiam os clérigos como figuras essenciais para o desenvolvimento da comunidade. Toda a história é vista sob o ponto de vista de Margareth que sofre uma significativa ruptura quando seu pai, por razões éticas incompreensíveis para Margareth e sua mãe, opta por desligar-se da igreja e mudar-se do sul do país, ambiente calmo, bucólico, de renda rural, para o norte, local de transformações, indústrias, poucos donos mandatários industriais e muitos trabalhadores que se doavam muito e, em troca, recebiam menos do que o básico para dignidade de vida.





 O livro pontua a formação dos primeiros sindicatos trabalhistas, a mendicidade dos que serviam os meios de produção e o surgimento do requintes dos que eram os donos dos meios de produção e, também, a crescente religiosidade dos protestantes, em decorrência da cisão que o movimento protestante estabeleceu contra a igreja católica. Miss Margareth Hale é a observadora que narra ao leitor todas as diferenças do mundo do sul para o do norte e como o primeiro valoriza a vida e a comunidade e o segundo é feroz e materialista em todos os seus propósitos. A fome, pobreza, divergências e a realidade do mundo industrialista é contada de forma clara e precisa, mas simples e agradável. Além da mudança geográfica que miss Hale é obrigada a fazer e de toda mudança de ares que o norte lhe apresenta, há, também, o encontro da inteligente e simples moça com o rude e industrial sr. John. Depois de um longo tempo e experiência, ambos iniciam ampla compreensão sobre a realidade e as diferenças do mundo do sul e do norte.





A escritora britânica Elizabeth Gaskell apresenta através do seu "Norte e Sul" uma abrangente preocupação sobre a nova realidade social e como a industrialização estava, de forma instantânea, modificando a sociedade. A escritora possui uma forma erudita, inteligente e romanesca de escrever e traçou com propriedade e autoridade os detalhes minuciosos das regiões, o comportamento das pessoas, as privações e como a vida do trabalhador comum era distante  do proprietário industrial. Suas belas letras, que foram escritas em formas de capítulos, que eram publicados semanalmente em jornais, foram reunidos e transformados  no magnífico romance "Norte e Sul". Um livro de contextualização histórica e real, que narra de forma inteligente o impacto da industrialização na sociedade, o surgimento de novas vertentes e o relacionamento de miss Hale, com seu mundo tranquilo, bucólico e camponês como o sr. John, imerso em uma sociedade competitiva, monetária e sagaz. De forma detalhada, precisa e dinâmica, Gaskell explana as características desses dois polos, enquanto lemos os conflitos e relacionamentos surgidos dentro deste cenário de mudanças, valores e contrastes na vida trabalhista, social e pessoal, a partir do encontro de duas realidades sociais muito diferente: de Hale e John que, apesar da distância emocional que os separavam, uniram seus mundos, com a afeição que surgiu de forma gradativa entre eles.







segunda-feira, 9 de abril de 2012

Que Falsa Elegância.


  




"Ao sentar-se, o indivíduo deve sempre atentar-se a sua posição corporal, não permanecendo em qualquer situação que traga inconveniências ao seu interlocutor; alimentar-se, apenas, estritamente apenas, com a adequação necessária à elegância que a conformidade pede; um andar específico, uma indumentária renomada, um estar e ser sempre com modos e elegância".



O comportamento acima explanado refere-se ao código de etiqueta criado para os homens conviverem em sociedade, de forma elegante e dita educada, sem ferir ou violar o código identicado por muitos como pura educação. Sempre achei tais designações de extrema pobreza e tolice, mas, ao deparar-me com tais dicas de comportamento fornecidas por um programa da tv aberta, retirei-me no recanto de minha mente para raciocinar a relevância ou não de comportar-se da forma indicada. E, como antes, cheguei a plena conclusão de que preocupações como essas, em um mundo de conflitos e privações, só refletem a mais pura ignorância e estreitamento de ver, julgar e viver à vida. Em meio a excedentes sofrimentos, doenças físicas, emocionais, sociais e (lamentavelmente) ambientais, ocupar-se de analisar e classificar a melhor forma de vestir-se, as marcas de produtos mais indicados e a elegância que cada classe social deve apresentar, é uma tremenda mediocridade.






Conceitos muitos mais profundos e concretos, em contraponto a etiqueta social, não são exigidos e trabalhados na sociedade. Ética, cidadania, generosidade, fraternidade, não são debatidos como temas essenciais à elevação humana e progresso moral. O povo, um grande rebanho de repetições de ideias e ideais, valoriza e copia o que dita os grupos definidos como mais importantes e influentes. Desse montante de produções surgem ditaduras de modismos. Modismos para vestir-se, alimentar-se e apresentar-se à sociedade, apartando indivíduos considerados de respeito e indivíduos retratados como bregas, indevidos e dignos de piedade. Que regras são essas, que denigrem a humanidade e desaproximam os homens dos homens?. No limiar dos meus questionamentos, não precisei prolongar-me na importância ou não de tais atitudes:o mundo fala por si. Como, na crucial realidade do mundo, poderá o homem importar-se com as medidas certas para um requintado jantar, escolhendo talheres e quais assuntos devem ser discutidos se, no mesmo momento, milhares de pessoas sofrem de fome? Não precisando nem definir-se como elegantes ou não, pois não terão alimentos nem objetos para classificar tal ordem.






Não muito distante dessa realidade de "elegâncias", podemos ver pessoas sem moradia, sem auxílio de políticas públicas que visem beneficiar e ofertar acesso a habitação e estabilidade de vida. Para tais indivíduos, não será necessário indagar se é elegante ou não manterem móveis de marca e pinturas refinadas em sua casa, pois não possuem a leve noção do que seja uma moradia e, consequentemente, um lar. O excesso de materialismo é a arma que o alienado se apropria para ferir os homens, os definindo com menor ou maior valor, introduzindo a ideia do moderno e elegante contra a pobreza dos que não sabem definir a moda ou o requinte e usá-los a seu favor.  Assim, vemos um grupo alienado e feroz discutindo sobre como portar-se, comer e vestir-se, enquanto milhares de miseráveis tem outras preocupações: se poderão ter alimentos para nutrir-se, se seus filhos poderão estudar, se suas dívidas poderão ser anuladas e se terão saúde, alimentação e dignidade.






Que pessoas são essas, senão de moral deficiente e inteligência pouco desenvolvida, que não são capazes de refletir sobre a imprecisão de tais atos e valorização excessiva destes comportamentos? Pessoas que  necessitam e exigem "fineza" para beber, comer e destinam suas vidas a relacionar-se com pessoas que possam aprender as regras do jogo e jogar com "classe e elegância". Vejo com olhos extremamente críticos essa nova formação de valores que tenta abafar nossos reais problemas, que julgam o homem e o critica não pela sua conduta e cidadania, mas pela formação de uma etiqueta que somente o excesso de dinheiro proporciona. Que temas são esses que perpassam os homens e os distancia de suas mazelas, não explanando a importância do pensar, analisar, auxiliar e transcender para uma moral realmente equilibrada e sensata?





Mundo de mentes alienadas que criam condutas estúpidas para segregar as pessoas, que define o homem pela sua capacidade de comprar e usar o dito elegante. Um mundo que cria sua  própria doença ao formar no limiar de sua moral, virulências que dispersam sobre o coletivo e determinam quem pode ser respeitado ou não. Uma elegância que deixa as pessoas com a indumentária perfeita, o alimentar educado e o sentar adequado, mas não introjeta nos homens a necessária prática da educação, da gentileza e do respeito ao próximo, independente da estrutura material ou não que o mesmo tenha para viver. Uma moderna elegância hipócrita que atrasa a mente para suas reais necessidades:o desenvolvimento da razão para emancipação da inteligência. Que elegância e classe são essas? Ensina ao indivíduo o respeito na mesa, o andar elegante e a adequada conduta social, mas não educa ao respeito ao próximo, a cidadania em grupo e como devemos, acima de tudo, ter educação, moral e virtudes. Uma grosseira e financeira elegância. Uma falsa elegância.





terça-feira, 6 de março de 2012

Regras da Vida.







O filme "Regras da Vida" é pontuado por excedente sensibilidade e humanismo que de várias maneiras são demonstradas no decorrer da narrativa. O olhar puro do protagonista sobre  a vida, lançando sobre as próprias experiências não julgamento, mas compreensão e sabedoria, carrega o filme de emoção e a certeza de que a vida realmente é baseada nas escolhas que fazemos, nos caminhos que traçamos. Uma película com excelente roteiro, atuação primorosa e cenário que proporciona ao espectador uma visão realmente bonita da natureza e da vida. Tobey Maguire, no papel do bondoso e puro Homer, nos transposta para as experiências da vida e como ela é formada de vivências e escolhas. O protagonista, desejoso e curioso de conhecer o mundo e todas as possibilidades que ele oferece, abandona a única noção de lar que teve durante toda a sua vida: um orfanato (Administrado e cuidado por um médico altruísta, que cuida de crianças órfãs oferecendo um local seguro e um ambiente amoroso para se formarem) e parte rumo ao desconhecido, desejando experiências e vivências novas. O filme é permeado de emoções como tristeza, conflitos, alegrias, revolta e, sobretudo, indaga qual o caminho para ser feliz, qual escolha fazer e qual é a busca do personagem. Caracterizado por ser uma narrativa bucólica e serena, "Regras da Vida" impressiona pelo seu contraste contemporâneo, descrevendo efeitos diversos do comportamento humano, até mesmo a violência contra mulher, a importância da maternidade e as consequências provindas da orfandade, da negligência decorrente do ato de não aceitar ser mãe e pai.






Mas o filme é mesmo do Homer. Claramente dele. É por ele que nos apaixonamos quando vemos tanta pureza e beleza, com um comportamento retido e calmo perante a vida. Um personagem virtuoso, que desde a meninice aprende os mistérios da cura e de tratamentos diversos. Queremos saber a escolha de Homer, qual é seu caminho: o escolhido por ele ou o escolhido para o mesmo desde sempre. Um cuidador nato que nega seus próprios talentos, que não se reconhece capaz e preparado, fugindo do seu destino, fielmente acreditando que outros caminhos foram feitos para ele e não as perspectivas escolhidas para ele. Além de toda beleza que envolve a história, as cores atrativas de um belo cenário e um soundtrack mais precioso que já pude ouvir, a solidão é retratada de forma delicada nesta película. Os órfãos, mesmo sentindo-se amados pelo lar fornecido, sentem medo do amanhã, de não serem "escolhidos" e permanecerem até a vida adulta em um local em que foram abandonados (sem saber o porquê) por indivíduos que, mais que qualquer outro no mundo, deveriam amá-los, cuidá-los e prepará-los para o futuro.






"Regra da Vida" discute qual o caminho ideal para viver. Qual a regra exata para realização pessoal e transcendental do ser humano. Um filme extremamente delicado, emocional e indagador, que nos transpõe para um patamar mais passional e uma sensação de completa felicidade por ter tido contato com uma obra essencialmente humana. Um filme que nos mostra que olhar para o outro e construir a solidariedade pode ser o caminho mais valioso para real felicidade, não a confundindo com meras sensações levianas que nascem de uma idolatração a mediocridade. Uma obra realmente bela e certamente agradável e necessária para amantes de obras cinematográficas, pois basea-se na inteligência, profunda emoção e humanismo. Belo, poético, emocionante, puro e sábio, o filme reúne os questionamentos  necessários para o crescimento e a maturidade; questionamentos constantemente perdidos pelo caminho da vida diante a escolha do certo e errado, do querer e ignorar; das regras que regem a vida; das regras da vida.




"Boa Noite, príncipes do Maine, reis da Nova Inglaterra".