terça-feira, 15 de novembro de 2011

A História de Ian.

 

Naquele momento ele experimentou, pela primeira vez, um sentimento diferente de tudo o que já havia sentido. Em toda sua vida, nunca tinha sentido algo tão singular. Ian, com apenas  cinco anos de idade, sabida que, aquele momento, frio, estranho e torturante marcaria sua vida para sempre, de alguma forma. Era seis horas de uma tarde de outono que havia deixado todas as árvores que conhecia peladas "Por que isso, mamãe?" "Porque é outono meu filho, logo, quando for primavera, será diferente e teremos todas as espécies de flores pelo bairro" "Manda esse tal de outono embora, ele não tem direito de levar as folhas das árvores" Sua mãe, uma mulher magra, baixa e com poucos cabelos, ria do filho, desistindo, após várias tentativas, de explicar que  "o tal do outono" não tinha forma, embora deixasse cor por onde passasse. A caminhada, na verdade, levaria até a "Rua das Magnólias", local com muitas casas, um mercado velho e um abrigo para crianças. Lá, dizia a mãe "tem comida todos os dias e cama também, meu filho". Mas Ian não gostava de ouvir aquilo, embora não conseguisse explicar o porquê. Na porta do abrigo, podia-se ver crianças correndo para todos os lados, brincando, lendo e andando de mãos dadas com pessoas adultas (que pareciam gigantes perto de sua mãe).




Quando chegaram e sua mãe soltou sua mão da dele, um frio gélido caminhou pelo seu corpo. Ele não sabia, mas sentiria aquele frio pelo resto da vida, mesmo quando acreditasse que poderia chegar a ser feliz. O toque leve de sua mãe na porta, fez com que o pequeno aprendesse, pela primeira vez na vida, a perguntar o que estava acontecendo, o porquê de estarem naquele lugar estranho, que tem adultos, crianças, mas de nehuma forma se assemelha a uma casa, um lar. "Será só por um tempo, meu amor. Assim que a mamãe ficar com saúde e puder trabalhar, virei te buscar" Não! Gritava o menino, em meio ao choro seco da mãe, com uma tosse grave que avisava que, naquele corpo, a vida despedia-se aos poucos. Uma mulher alta, com vestes religiosas veio ao seu encontro, o fez - com muita força - entrar naquela "gaiola", com muros altos e pessoas estranhamente incompletas.




Duas semanas depois, a mesma senhora magra, lhe chamou antes do café. Ian, mesmo com seus poucos cinco anos vividos, sabia que algo na sua vida jamais voltaria a ser igual. Sua mãe, morrera, com apenas vinte e cinco anos. Ian, sem dinheiro, família, com um pai desaparecido neste vasto mundo, que o negou e o viu como uma entrave ao seu crescimento. Ian, um sozinho no mundo de solidão. Sozinho em um mundo absolutamente estranho, onde se pensa que o amor é um antigo conhecido, sendo apenas uma ilusão do egoísmo da vontade dos homens. Assim, os dias passaram, os anos chegaram e logo tornou-se um adolescente. Quando adulto via homens chorarem a morte, sentirem raiva, solidão e medo. Não entendia porque eles reagiam estranhamente a sentimentos que, para ele, eram velhos conhecidos desde a meninice. Ian não teve adolescência ou vida adulta de surpresas. A vida já havia lhe apresentado todas as formas de sentimentos possíveis a um homem.





Com 65 anos, descobriu uma doença no pulmão, resultado dos inúmeros maços de cigarro que consumia diariamente, depois que descobriu que o cigarro, de alguma forma, lhe tirava a ansiedade, extraindo para fora um sofrimento que nunca soube administrar. Morrera cedo, com certo sofrimento físico e a certeza de que a vida era coisa maldita, sem graça e difícil demais para viver. Não deixou filhos, nem casou-se, pois tinha um medo terrível de construir uma família "E se eles forem embora e me deixar?! Não, já aprendi viver sozinho". Sozinho viveu. No enterro, três crianças que o atentavam na rua, quando ele vendia suas balas, lhe deixaram flores. No túmulo, nenhuma foto. Ian se achava feio, nunca tirava fotos. Morreu com um homem sofrido, solitário e infeliz, criado em educandários, sem perspectiva e satisfação; sem nehuma pessoa que quis verdadeiramente o amar, deixando no mundo a única pergunta, que se repetia todos os anos, mas que nunca lhe foi respondida "Por que, Meu Deus?" .





domingo, 6 de novembro de 2011

Para Quê Isso, Companheiro?



Estudantes da USP levantando a bandeira do poder de policia como forma de repreensão e colaboração para violência, escondendo-se em camisetas, panos, comunicando-se através de cartazes e utilizando como ferramente de "luta" a falta de diálogo e, controversamente, a violência.



No decorrer da história da humanidade, depois que a intelectualização, discussão e conhecimento integraram a sociedade e tomaram forma de instituições e acadêmias,  estudantes iniciaram uma forte e determinante atuação na liderança e propagação de reivindicações sociais. Homens de saberes e reflexão foram os responsáveis pela divisão entre o arcaico e o moderno, educando (com muito esforço e argumentação) a ideia do novo, da justiça social e de que o sistema social, de alguma forma, deveria ser modificado e melhorado. Estudantes, talvez pela paixão pelo conhecimento, por estarem alimentando a mente diariamente de questionamentos e compreendendo muitos aspectos de ciências diversas, foram protagonistas de muitas buscas. Muitos não sobreviveram. Muitos iniciaram uma luta (como na Ditadura Militar) sem volta, mas lutaram por algo real, contra um funcionamento social distorcido que beneficiava poucos, segregava muitos e exercia uma política unilateral sobre um povo, o subjugando. Por sabermos que no passado esses "protagonistas" construíram uma história singular, exteriorizando a busca de uma política equilibrada, mesmo que não tenha sido pela construção de um diálogo absolutamente inteligente, observamos com grande mediocridade essa leva de estudantes dos "tempos modernos" que pensam estar entrando na História (e lutando por algo relevante) ao fazer uso de drogas, mascarando suas caras e sentando no chão das instituições, com seus cartazes e faixas de natureza "revolucionária".



Não, não estamos vendo um registro da luta contra o poder paralelo, mas sim estudantes (futuros profissionais) exercendo o vandalismo como propagação de ideias avançadas sobre liberdade e repreensão.



Em razão de mais uma invasão na renomada "Universidade de São Paulo", pelos próprios estudantes da instituição, mostrando faixas com dizeres de "transformações sociais" e relatando estarem sendo agredidos em seu direito mais genuino:a liberdade, verificamos um comportamento absolutamente distante de qualquer luta social, baseado, na verdade, na indisciplina e falta de ética, educação e consciência. Esses novos estudantes, infelizmente, nada aparentam com nossos exemplos anteriores que almejavam uma modificação concreta e correta. Que lutavam pelo acesso e dignidade de vida. Essa manifestação, pobre em seus argumentos, vazia em sua busca e prejudicial em sua execução, gera apenas violência; afirma desejar a liberdade, mas vive na escravidão do mundo das substâncias tóxicas e paraliza o espaço físico que deveria estar sendo usado como espaço para a aprendizagem e o saber. Que luta é essa? Qual será o final de uma manifestação de interesses pessoais e não coletivos? Quem são esses estudantes que não se mostram de cara limpa, que necessitam esconder-se em máscaras e usar a violência física para estabelecer o que é certo? E o que é estranhamente medonho é o fato de não serem mais adolescentes, estarem vivendo no mundo adulto, de responsabilidades e, pior, preparando-se para exercerem uma profissão, atenderem a sociedade. Pessoas que, supostamente, ensinarão uma criança sobre cidadania, que prescreverão tratamentos para doenças físicas e mentais... futuros médicos, professores, cientistas, advogados que levarão como bagagem valores e buscas sociais que não se compactuam com a ideia de respeito, cidadania, conscientização e reflexão.





O cenário de "revolução" atual nada mais é que indivíduos em formação profissional, iludidos sobre o que seja a luta pela democratização global, paralizando a vida deles mesmos e de muitos outros setores com essa reivindicação de jovens, claramente, sem nenhuma educação moral. Pessoas que certamente nunca precisaram trabalhar para comprar um alimento; decoraram conceitos de classes sociais mais nunca vivenciaram as consequências da segregação e pobreza. Jovens que (ao contrário da maioria dos brasileiros) podem estar matriculados em uma universidade pública e ocuparem todo seu tempo em prol da sua própria formação profissional (embora a situação atual indique o oposto); jovens que não necessitam trabalhar para financiar seus estudos e debocham de uma instituição que deveria formar cidadãos e profissionais conscientes e humanizados para nossa realidade social. Se o sistema legal tivesse realmente respeito pelo povo, criaria uma lei que desligasse estudantes que monopolizam uma instituição para interesses de rebeldia e indisciplina, viabilizando vagas para milhões de jovens brasileiros que desejam estudar e modificar (verdadeiramente) o sistema, colaborando, como futuros profissionais, para as condições de vida que permeiam na mendicidade; oferecendo várias cadeiras para jovens que valorizam o tempo acadêmico, trabalhando em ideias e concretizando projetos de desenvolvimento social.





Manifestações dessa natureza não vão cessar e enquanto o sistema legal e educacional aceitar essa desordem ocasionada por pessoas que ao invés de serem educados para deter a violência e a mediocridade, são autores dela, vivenciaremos essa nova forma de terror social, de pessoas que dentro de uma UNIVERSIDADE criam formas de prejudicar o coletivo, mascarando suas caras e ideias sob a luz da revolução, mas nutrindo a luta mais egoísta que há: que a liberdade extensiva, que afeta o outro, mas garante que suas necessidades sejam atendidas, é o mais relevante, não importando o que aconteça com o coletivo durante a manifestação. Medo dessa geração de estudantes que trocaram o papel do pensador na sociedade, alternando sua função de operário tranformador para vândalo opressor.




  




sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Eu Nasci com as Flores.



Eu nasci junto com as flores
Me misturei ao colorido delas
E não pude encontrar o meu
De tanta beleza que vi, meus olhos umideceram



Assim, todo ano de flores renasço.
Busco desabrochar com minhas aniversariantes
Desejando que nasça de mim flores diversas
Que sobrevivam no campo e também em estufas



Almejo flores raras, bravas em qualidades
Serenas em sua integridade
Mas que sejam minhas pela eternidade
Colorindo dentro de mim as minhas animosidades



Quero que minhas flores amadureçam
Que saibam abrir-se nas chuvas e no sol
Não fechando-se em cada intempérie
Que sejam flores lindas e virtuosas



Que minhas flores nasçam na primavera
Não briguem com o verão
E nem me abandone no outono.
Flores que deixei brotar com esforço



Que não me abandonem, e criem-se mais e mais em mim
Tirando-me de vazios
Preenchendo-me de saberes
E, com tudo, mantendo-me na mais bela harmonia
De um universo pleno da paz nobre, da beleza real das coisas e do mundo.




Ao meu 23 de setembro, que me deu ao mundo para nele aprender a caminhar.



segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Ser ou Não Ser, Eis a Questão.




Ter identidade e posicionamento social é algo absolutamente complexo.
O variável não pode fazer parte do ato de ser e estar no mundo. É preciso ter passos sólidos, partido político definido, ideias determinadas e valores definidos do que seja correto e incorreto. O indivíduo sempre será definido como politicamente correto ou um imoral absorto em torpezas, será um santo ou pecador, religioso ou ateu. No decorrer da formação moral e social, o indivíduo percebe que obrigatoriamente deve definir-se integralmente para ser uma figura quadrada e visível no mundo, se não, será excluído dele. Observadora do mundo e das coisas, a mente aprende que precisa ser uma criança boa e educada, um adolescente propício a ter um excelente futuro e um adulto de sucesso, que preencha todos os requisitos de admiração social: ambição, modelo e estabilidade. O sistema exige, o homem se torna. O sistema decide a felicidade, a matéria, a escolha e permeados de tanta influência, não é percebível que tais escolhas já estavam prontas e moldadas, restando a nós somente a parte de enquadrarmos no sistema.






Ter uma profissão (de preferência com status sociais e renda elevada), uma religião cristã, que não afete e contrarie o coletivo e não questione as determinações alheias, um comportamento comum (já que o que difere amedronta psicologicamente a sociedade), são tarefas a serem cumpridas desde que o indivíduo compreende seu meio social, familiar e profissional. Na formação intelectual o indivíduo busca informação para excecutar um ofício, na formação de uma unidade familiar eles se tornam pais, mães, tios... de forma que a vida e a sociedade ensinam que, de alguma forma, definir-se através de um dado, título ou ação é um tipo de obrigatoriedade para viver no coletivo. O indivíduo se torna múltiplo, com designações, muitos papéis a cumprir, mas pensar e escolher, na sua forma mais verdadeira, não são atividades exercidas, pois não precisamos pensar. Precisamos apenas repetir valores estabelecidos, buscas repetidas e ações de cunho social e profissional que já foram idealizadas desde tempos de outrora. O porquê das nossas buscas, a importância (ou não) delas e o que seja a verdadeira felicidade, não sabemos. Não perguntamos para ninguém, muito menos para a principal pessoa interessada: nós mesmos. Ter personalidade, na visão do outro, é absolutamente fácil. Basta ser, pensar e valorar as coisas e o mundo de acordo com a maioria. Ter personalidade, dentro do patamar mais particular do espírito, exige reflexão, questionamento e racionalidade. Exige a permissão para o erro e o prosseguimento para construir o outro, a si e o mundo. Se ter uma identidade moral definida é andar profetizando convicções e certezas, creio que o convicto é um grande mazelado, proibido de pensar, modificar seus valores e poder reconhecer-se como errado, como ser que precisa ouvir e refletir para construir sua opinião baseada na análise do seus atos, pois sempre deve ser uma unidade intransformável na visão alheia.






Se o tempo continuar passando freneticamente e eu não me encontrar, formando uma opinião decisiva das coisas e do mundo, talvez seja porque não preciso achar o que os demais idealizaram para mim, sem mesmo me conhecer. Se o tempo passar e eu ainda não saber o que sou, quero e o porquê de tudo, devo aceitar que a normalidade está naqueles que são formados mais pelas dúvidas do que pelas definições. Que eu possa lutar para não ser mais uma "ficha no mundo", contendo meus registros, a profissão que escolhi, o instituto que labuto, minha renda anual, o marido escolhido, a quantidade de filhos e uma religião para frequentar semanalmente. Que eu possa me lembrar de Deus fora de um templo, fazer o certo enquanto os olhos dos demais não me alcançam e ser um tipo de gente que não acha que as pessoas só devem ser respeitadas pela sua casa, roupa  e posição que ocupam. Que eu possa trabalhar transgredindo a mediocridade, o óbvio e a necessidade do tratamento elevado, não preocupando-me com estimas, mas com o que aprendi, o que aprendo e o que posso aprender (e ensinar). Que eu possa errar e acertar, e aprender por estes dois caminhos, que apesar de diferentes, conduzem a mesma condição:aprendizagem, mas não deixe meu espírito medíocre, quieto, lapidando, diariamente, as grandes mazelas que tenho dentro de mim. Eu não sei, mas estou aberta a compreender. E é aí que começa todas as grandes jornadas. 






Literatura: A Arte do Pensar.





Muitos intelectuais afirmam que ler livros de literatura é uma atividade improdutiva, pois uma quantidade de tempo significativa é utilizada na absorção de informações que não são técnicas, específicas para formação profissional do indivíduo. Eu não acho. O que me fascina nas narrativas, dos variados gêneros, é a capacidade de caracterizarem a conduta humana e os sentimentos que regem e definem o comportamento do indivíduo. Ler é aprender ilimitadamente, infinitamente. A leitura desenvolve uma visão abrangente da vida, a identificação de signos diversos, questionamentos e reflexões que só podem nascer no ato de exercitar a mente. Um bom romance pode nos ensinar mais do que qualquer intelectual possa mensurar. A magnífica escritora inglesa Jane Austen, por exemplo, descreveu um período histórico que pôde de forma simplória ser compreendido e analisado a partir do comportamento e conduta de seus personagens, e dos valores inseridos em todas as suas obras, demonstrando a realidade da época e os hábitos da população, através de diálogos inteligentes e narrativa crítica e eminente. Machado de Assis, possuidor de uma escrita realista, crítica, linguajar erudito e preciso na construção de seus personagens, descreve a decadência da moral social e as angústia permeadas no caráter humano. Seus personagens não são heróis perfeitos e bondosos, sem qualquer tipo de sofrimento. São doentes, neuróticos, isolados, com pensamentos melancólicos e aprofundados num intenso medo de viver. Cada escritor concebeu obras de acordo com seu tempo, sua visão e as experiências que vivenciaram naquela realidade social. Nesse sentido, literatura é vida, aprendizagem e documentação histórica, mesmo que ficcional, que provocam as mentes para pensarem, criticarem e refletirem.





Embora muitos críticos e estudiosos determinem a literatura com especificidade, com características que a definem em um único gênero, tendo uma rota sempre específica, sua versatilidade é superior a padrões e delimitações estabelecidos, não podendo ser limitada ou agregada em poucos caracteres. A literatura se transforma juntamente com a história da humanidade, criando escolas literárias, estilos de época e narra especificidades dos principais momentos de transformações sociais. No livro "1984", de George Orwell, é notável o desassossego de uma homem insatisfeito com seu tempo, temeroso de seu futuro, preso nas questões políticas que vigoravam na época. Orwell, temeroso do futuro da sociedade, criou uma ficção sobre o possível surgimento de uma estrutura societária escrava e oprimida pelo sistema político, criticando admiravelmente o mundo pela voz de seus personagens. O livro é uma distopia, um grito desesperado de um indivíduo que achava seu sistema oprimido, segregado e desumano, vislumbrando um futuro caótico e tirano. Em "Madame Bovary", o intelectual Flauber nos apresenta uma mulher infeliz, infiel, que se casou por interesse social, mas não suportava sua própria  existência. Em meio a romances românticos e mocinhas puras, Emma Bovary iniciou o "Realismo Literário", em que as relações humanas eram base das narrativas, apresentando aos leitores a vida de forma explicíta e real. Tais exemplos ratificam o poder da literatura, não só para entreter, mas para questionar, ensinar, criticar e traduzir todo pensamento de várias gerações. Obras que explanam o funcionamento social da época, narram valores de variadas sociedade e servem, portanto, não só como passatempo, mas para instruir a mente e ensiná-la sobre diferentes e inúmeras questões, mesmo não sendo um texto técnico e voltado para formação profissional. Portanto, estudar textos clássicos, entrar em contato com obras de profundo valor humano, histórico e social é enriquecer as possibilidades infinitas da mente e, independente da formação profissional do indivíduo, a leitura de livros proporciona uma habilidade extremamente necessária para qualquer ofício: criticidade.





Infelizmente, por motivos de formação escolar e interesses pessoais, a literatura tem sido pouco aproveitada como fonte de reflexão e emancipação da mente humana. Se fizermos um diapasão com outras ciências, ela é definida como disciplina extra, sem prioridade e admirada por grupos pequenos, sem a devida atenção coletiva que deveria ter. Literatura é aprendizagem constante e diversificada, pois ler um livro é conhecer um novo mundo, com diferentes opções e divagações. Não continuamos a ser os mesmos após a concluir a leitura de uma obra literária. Através da leitura constante de livros, a mente desenvolve habilidades fundamentais para vida pessoal e profissional: criticidade, opinião, questionamento, racionalidade, compreensão e, sobretudo, sabedoria para entender a essência humana e diferentes tipos de comportamento social. Ler é crescer e a leitura é necessária para formação profissional e pessoal, não sendo conveniente aniquilar uma em detrimento da outra, mas buscar ambas para o aprimoramento intelectual e moral do caráter humano, acrescentando, assim, tanto valor profissional quanto valor pessoal na construção da personalidade.






A escrita, leitura, literatura despojam o homem de sua ignorância e  achismo, o despertando para um patamar superior a definição de espaços, tempo e tradições. É viver além dos limites que a ele são imputados, tornando seu intelecto absolutamente mais importante que as designações que são socialmente impostas como necessárias felicidades. Ler é crescer.







domingo, 7 de agosto de 2011

O Direito Que (Des)Serve o Cidadão.





O estudo das leis nasceu da necessidade de formular uma ética de convívio social baseada na igualdade, delimitando o que seja legal e ilegal, a fim de definir todos os atos que sejam prejudiciais ao indivíduo e ao coletivo. A construção das normas, deveres e restrições formaram um conjunto de ideias precisas e totalitárias, originando o código base dos direitos e deveres dos cidadãos na sociedade: a Constituição. Um Estado que obedece uma Constituição é uma organização democrática e comum a todos os cidadãos e extremamente relevante, pois não individualiza direitos e acessos, visando o benefício de/para todos. A eminência da Constituição, nascida para  melhorar e equilibrar o comportamento social, proporciona a ideia de igualdade plena, justiça social e direitos humanos invioláveis à população. Mas, infelizmente, tais premissas, tão defendidas na Constituição do Brasil, não tem sido assimiladas e executadas com totalidade na sociedade. Ao necessitar fazer uso das leis, os cidadãos, em sua maioria, se deparam com a primeira incoerência: as leis são feita para os homens, mas os homens pouco tem acesso as leis. Os direitos e deveres voltados aos cidadãos deveriam ser como o alfabeto: assimilados pelo povo durante sua formação escolar. A população deveria obrigatoriamente compreender as leis e sua sistematização, assim como os direitos e deveres que temos enquanto cidadãos, mas, para o sistema, a ignorância permanente sobre os principais caracteres do direito, é a forma mais simplória da "democracia maquiada" continuar sua expansão.





Em consequência da ignorância sobre o sistema legal e a precária formação intelectual fornecida pelo Estado, os cidadãos encontram duas grandes dificuldades ao solicitarem os serviço jurídicos: as leis, criadas de forma complexa aos olhos da população, tornam-se de difícil entendimento e não assistem os direitos definidos como primordiais pelos homens e, como segunda e significativa dificuldade, há a formação dos profissionais da área, especialistas dos códigos legais e autoridades aptas a requerer o cumprimento da legislação vigente, no intuito de unir os homens aos seus direitos e anular toda ilegalidade cometida em sociedade, mas apesar da suposta formação humana e social, as instituições de nível superior estão formando profissionais técnicos e sumamente preocupados com a hierarquia e autoritarismo do que com a função social da profissão. O curso superior de Direito, cujo objetivo maior é capacitar os educandos a compreenderem as leis e sua aplicação, deveria criar um olhar coletivo nos graduandos, imprimindo nos mesmos o raciocínio justo e a conduta  para o bem comum. Mas não é o que ocorre em totalidade. Grande parte destes profissionais preparam-se somente decorando leis, voltam seus objetivos para a construção de uma satisfatória carreira pública, não sendo formados  para o entendimento social e moral da realidade de sua sociedade. Muitos, formados por uma formação intelectual e moral baseada na mediocridade, se envaidecem  mais de serem conceituados como doutores (mesmo sem o complexo grau do Doutorado, que forma um intelectual pesquisador e minucioso em seu ofício), do que com a possibilidade ímpar de propor ações sociais, humanas e justas. Acreditam que o Direito deve ter estudo e aplicação formal, com indumentárias específicas e linguajar erudito; mas afastam-se da humanidade, do diálogo e do homem. Afastam-se dos cidadãos que sofrem, que não tem seus direitos básicos resguardados; do cidadão que vive na mendicidade, precariedade e, sobretudo, dos que não tem dignidade de vida humana. A ciência jurídica deveria formar trabalhadores sociais e humanizados e uma instituição menos formal, menos burocrática e mais social, que servisse o cidadão na busca de justiça plena.





Para o direito ser efetivado na sociedade, se faz necessário que os órgãos, voltados para fiscalização e aplicação da lei, sejam coerentes e integralmente para o povo, com o povo; e não permitir essa sistematização medíocre que afasta o homem de sua lei, que se esconde com palavras eruditas para definir-se como inteligente e cria títulos dentro da hierarquia para endeusar profissionais, mas não os prepara para realidade social do país. A lei, sendo para o homem, deve ser criada e aplicada para o mesmo, com humanidade, coerência e clareza, não sendo executada com vaidade institucional e excesso de autoritarismo funcional. Tais fatores empobrecem o sistema jurídico que, ao invés de construir-se sob prisma humanista e social, tem fornecido mais vaidade e formalismo a população do que prestação de serviços coerentes e em consonância com a igualdade social. Se faz necessário construir uma nova forma de Direito, baseada integralmente nos ensinamentos da ética e justiça, formando as instituições responsáveis pela execução do direito e os profissionais servidores dela, com perfil humanista, social e solidário, a fim de que a própria prestação de serviços jurídicos esteja de acordo com a justiça e não utilizando parcialmente a mesma, continuando a formar profissionais que em contradição do que prega a ética, não utilizam a lei, pensam ser e lei e aniquilam toda possibilidade de trabalharem para o desenvolvimento de uma sociedade equilibrada, justa e correspondente, afinal, com o sistema legal.








sábado, 16 de julho de 2011

Um Início Incompleto. Um Infinito Desabrochar.




E faltava algo naquele ser. Algo que necessitava amadurecer, florescer ou sanar. Uma parte imaterial, escondida em um recanto protegido de tempos outroras; de tempos em que negações e receios eram um caminho fácil de resolução. Era algo pertubável, que exigia atenção, que fazia-se ver em cada amanhecer e pedia por interpretar-se. Uma energia pulsante, ainda fraca em sua natureza, que nascera com o lógico propósito do progresso: implorava por sua melhoria. Aquele ser, imbuído de fragilidades e descrenças, sabia instintivamente de sua condição, das partes que guardava e nutria em si, dificultando e ditando seus caminhos sombrios; mas não buscava coragem para agir, para domar aquilo que carregava como algo inexplicável. Tentava expulsar o inquilino com suas lágrimas, suas admoestações e comparações com qualquer unidade paralela. Ainda era frágil. Ainda um ser crescente, que não conseguia atingir suas necessidades, assim como a semente perto da árvore que deseja tornar-se viva, mas não encontra condições para germinar-se. Assim estava: estagnado em sua forma. Sabendo da existência da luz em meio a sua escuridão. Consciente do poder de sua força diante o confortável espaço construído em seu lar íntimo e desassossegado. Sabendo que seu destino não mais poderia ser do que da sabedoria intensa e da estranha magia do amor, mas adiando seu caminho para encontrá-lo.





Faltava algo nele. Algo ainda profundo, necessitado de educação e auxílio. Que o levava a caminhos pedregosos e conflitos repetidos.. Que o fazia enxergar pouco, com as vistas embaçadas e saberes restritos. Um pleno e grande vazio. Algo que buscava ser modificado, que não podia mais esconder, mas melhorar. Um restante comum, típico de qualquer forma de vida pensante e inteligente, cansada de seu fracasso e sonhadora em volitar em sentido contrário. No sentido da infinita paz de reconhecer-se como vida florescente e eterna. Sim, uma parte obscura, mas ciente de suas capacidades. Uma parte que não se demorará a ser luz brilhante, condensada pela graça do conhecimento do amor. Um ser que em pouco tempo não  terá mais a temerosa sensação de ser incompleto, pois será mais e mais no infinito de seu caminho. Um ser já compreensivo das bagagens que carrega em sua viagem; acostumado com o que é pesado, compreensivo com os caminhos que lhe incomoda, mas paciente com suas particularidades. Um ser que ainda não voa como os anjos, mas já não encontra-se guardado em seu casulo. Já é força brava, inteligência dominante. Já é um pingo impagável de luz em meio a um universo de seres em evolução. Assim, será flor desabrochando e não semente sem vida e luz. Assim será o que deve ser, caminhando sem mazelas; tornando-se vida completa, sem retificações e restos incompletos dentro de si. Será mais, sabendo que só pôde ser mais, por ter conhecido e educado o seu menos.