segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Gabriela, Cravo e Canela: Uma Crônica de Ilhéus.









De pés descalços, cansados, corpo castigado e terra a lhe cobrir, caminha Gabriela, ainda sem cheiro de cravo e cor de canela a lhe expor. Retirante, fugida dos sofrimentos da seca e da dor da pobreza, busca sólido fértil para viver, comer e poder conhecer o sossego; o sossego dos que nunca experimentaram privações. Destino: cidade de Ilhéus; terra em ascensão, de economia baseada no cacau, coronéis tiranos e habitado por pessoas características, típicas, marcadas pela realidade local. "Gabriela, Cravo e Canela", de Jorge Amado, esclareceu minhas indagações sobre o porquê da paixão brasileira (e mundial) por este escritor baiano, de letras bonitas e histórias sensacionais. Não há como não gostar do autor. Em Gabriela ele convida o leitor a fazer uma viagem pela Bahia dos anos 20, em que a política era coronelista, os fuxicos uma rotina comum e a hierarquia social uma lei a ser cumprida, sempre mantendo a mulher como matéria a ser usada, de diferentes formas, mas disfarçadas sob personagens caracterizadas como moral e imoral.







Assim nasceu Gabriela, como mesmo define o autor, protagonizando crônicas de histórias da cidade de Ilhéus, desdobrando inúmeros personagens peculiares e singulares que apresentaram aspectos interioranos e a estrutura da sociedade da época. Gabriela, retirante, sertaneja e muito bela, era dona de talentos gastronômicos, executando com propriedade as receitas mais desejadas da picante culinária baiana. Gabriela, sem estudos ou ciências, tinha o único conhecimento que o turco Nacib (comerciante e bom amigo) buscava: uma boa cozinheira. Assim nasce o amor de Nacib e Gabriela, uma mistura de desejo, ânsia, comida e sensualidade que envolve Gabriela e seu Moço Bonito, seu Nacib. Em paralelo a este inusitado relacionamento entre a sertaneja faceira, bonita e desprendida, com um homem não tão rico, mas de sociedade, a vida se movimenta na sociedade de Ilhéus. Coronéis, padres, beatas, mulatas, jagunços, quengas, moças a se prepararem para o matrimônio e regras a serem cumpridas por tudo e todos definem o dia-a-dia da cidade.


      Ilustração de Gabriela, inserida no cenário de principal atividade econômica da Bahia dos anos 20: a cultura do cacau.




Gabriela, com sua sensualidade latejante e determinante de sua personalidade, objeto de desejo sexual de homens da cidade, não fora criada para ater-se em limites, aliás, nem mesmo fora criada, vontade era seu nome; se sente, faz, se quer, realiza, não mensurando se tais atitudes são maléficas a si e ao outro. Gabriela é distante dos padrões morais dos demais personagens, não sendo imoral nem moral, mas amoral, acima de convenções de determinismos sociais. Liberdade é o que deseja e, se sente vontade de namorar com o Moço Bonito, - seja ele quem for - , que mal há? Afinal, gosta tanto. Nacib teme perdê-la, pressente que ela não nascera para ter dono, mesmo tentanto comprá-la perante cartório, padre e a transformando numa dama de sociedade. Como todo bicho selvagem, seus sonhos são distantes dos domesticados e sua toca, torna-se aos poucos, sua verdadeira prisão. Com o desenvolvimento da vida de Gabriela, são narrados os demais personagens criados para à obra. Mundinho Falcão, disfarçando-se pela vestimenta de progresso, modernidade e diretor de uma "Nova Ilhéus", só deseja apossar-se da cidade, não derramando sangue e organizando expedições de guerra e violência, mas armado de uma política filosófica, sedutora, mas que no fim, era determinada meramente por ele. Diferencia-se de Coronel Ramiro pelos seus modos, educação e por fazer da política uma ciência, não uma chacina.



                               Ilustração da Cidade de Ilhéus por Maurício Melo.



A inserção de Mundinho Falcão na trama encaminha, aos poucos, a uma nova formação social, política e cultural de Ilhéus. Costumes, antes tão defendidos como o assassinato de esposas infiéis, são revistos e definidos como atrocidades e ação criminal, dignos de repreensão e punição legal. A mulher, cuja única função era procriar e ser corpo para cópula, seja como fiel e oprimida dona de casa ou como salutar quenga, que poderia dispor-se aos desejos diversos dos coronéis, é diferenciada por um único papel na narrativa, a inteligente e moderna Malvina, filha do coronel Melk, que nutria dentro de si a revolucionária vontade de ser dona de seu próprio destino. Malvina, diferente das santas ou quengas, queria escolher seu marido, poder trabalhar como todos os homens e não no ofício de dispor seu corpo aos desejos alheios, mas desempenhar atividades coerentes à sua preparação intelectual. Uma verdadeira missionária entre mentes que aprisionavam mulheres somente para o lar, ou encurralavam elas para a prostituição, não fornecendo outros meios de subsistência a mulheres pobres e definidas como "perdidas".






"Gabriela, Cravo e Canela" é, além de uma crônica registrada dos personagens da cidade de Ilhéus, uma narrativa gostosa de se ler, com um linguajar que personifica cada habitante, destrinchando a cultura local, seus hábitos, conflitos, sonhos e suas medíocres rotinas, de mexericos, difamações, de excessivo alimentar e fiéis a cristandade - mas não a ponto de afetar os interesses da carne e do bolso. "O Bataclã", principal bordel da cidade, recebe todas as noites os homens da cidade, solteiros, casados, ricos, pobres, de alta ou baixa sociedade, quem podia pagar e comprar pelo lazer definido pelos homens e pelas suas próprias mulheres como necessidade do homem comum. Tal comportamento, exemplifica a mentalidade e moral da mulher da época, que era educada para aceitar, servir e cuidar da família que o homem formava, mas que a ela não pertencia. Era, no seu íntimo, portadora de um pequeno papel que, em troca de proteção, comida e a dita moral resguardada, tornava-se esposa e mãe dos papéis realmente atuantes: os homens.







Jorge Amado, não restringindo sua obra a um simples romance, desejou torná-la um pouco de tudo, como se estivesse a preparar uma boa comida baiana com todos os ingredientes disponíveis para saciar de várias maneiras o apetite de seus leitores. Através de sua Gabriela, um paradoxo de inocência, virtude, que causa tormentos e questionamentos diversos, é narrada as transformações de uma cidade, demonstrando sua fuga do arcaico ao caminho do moderno, através das mudanças ocorridas no setor político, social, cultural e de relacionamentos. Aos poucos, o novo quadro é formado, discutindo a emancipação feminina, a transição da política mandatária para a política de proposta, de diálogo e semelhante com a modernidade das capitais. No entanto, o que mais interessa ao leitor é a vida local, as pessoas, falas, personalidades, a riqueza de detalhes de cada elemento da trama e como ela critica e, ao mesmo tempo, diverte os leitores, encontrando eles não só uma forma de entreterimento, mas um panorama daquela realidade e como toda a estrutura social educava cada perfil social para viver de acordo com sua posição e classe.







Com tantas características e fusão de perfis diversos, a obra poderia sucumbir-se numa leitura acumulativa, onde muitos personagens e histórias fossem excessivos ao leitor, mas, contrariando as expectativas, à obra, muito aberta e "cheia",  tornou rico o propósito da trama: narrar toda Ilhéus, exemplificar sua gente e, ainda, compreender a fácil e complexa personalidade Gabriela, mulher cuja noção de felicidade não representava a idéia dos demais, que o amor deveria ser, do seu jeito, um livre sentir. Gabriela diferenciava da moça "pura" de sociedade, da quenga "devassa" que em sofrimento vivia a vida que podia e de todas as morais listadas na obra. Personagem tão singular, teve que carregar seu nome como título da obra, perpassando por ela toda cidade de Ilhéus, sua gente, seus dizeres, amores, desamores, dentro de uma história simples e agradável de uma pacata cidade que nos anos 20 viveu, de fato, muitas transformações sociais, servindo de pretexto para criação desta narrativa alegre e incomum, sob o olhar aguçado, divertido e criativo do grande Jorge Amado.











segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Apanhador no Campo de Centeio.






O livro "O Apanhador no Campo de Centeio", do escritor americano J. D. Salinger estava inserido na minha extensa lista de livros que desejo ler arduamente. Publicado em 1951, li críticas sagazes sobre a obra, desde as opiniões negativas sobre a linguagem da obra, à influência que ela causou na sociedade, de várias maneiras. Conhecido, também, como o livro preferido dos assassinos de John Lennon e John Kennedy, o livro desperta curiosidade em toda a sua formatação, desde a reação dos leitores à obra  ao título da mesma, tão sedutoramente enigmático. Iniciada a leitura, ficou absolutamente compreensível entender e definir o poder de ação do livro. A história é do jovem  Holden Caulfield, dezessete anos de idade, rico, de conduta rebelde e linguagem esculachada. Holden caracteriza-se por ser um jovem imaturo, sem grandes experiências, mas já extremamente cansado da vida que tinha. Possui uma personalidade semelhante a muitos jovens, principalmente adolescentes. Para ele a vida era uma tremenda de uma hipocrisia. As pessoas, à escola, sua família, sua vida, em tudo podia listar (em excesso) características negativas, definindo tudo e todos por um prisma obscuro, falso e doente. As únicas pessoas do seu mundo de negações que via com certo otimismo era sua irmã caçula, Fhoebe e os  irmãos D.B e Allie, este último sempre em remotas e profundas lembranças, já que falecera na infância.






Toda história de Holden é contada a partir de seus pensamentos e ideias sobre um mundo que detestava: sua realidade. Estudante de uma renomada instituição para formar garotos de classe alta, o "Pencey", Holden se prepara para deixar à escola por ter sido reprovado em quatro matérias. Não fora a primeira vez. Já havia sido expulso de outras instituições de ensino, ratificando ser dono de um comportamente inadequado e inadaptado as burocracias e tendências da época. Tudo lhe afligia: a hipocrisia das pessoas, a necessidade do luxo e dinheiro, o isolamento e solidão das instituições de ensino e até mesmo a arte, o cinema e a atuação, que considerava um mundo de ilusões e falsidade. Detestava, sobretudo, a exclusão que ocorria nas instituições que estudava. Toda visão de Holden sobre as coisas, o mundo, é apresentada quando decide deixar à escola e fica vagueando pela cidade de Nova York, em cortiços, com pessoas com todos os tipos de comportamento e vícios, prostitutas, alcoolistas, em que todo seu tempo era empregado para beber, fumar e libertinadamente tentar viver sua sexualidade. Holden não é um santo. Longe disso. É  um jovem fora das leis morais e éticas impostas pela sociedade. No duro (linguajar tão apreciado por ele mesmo) era um ser humano cheio de vícios, corrupções e desejos que prejudicavam a ele e aos outros. Era mais próximo de nós do que qualquer personagem irreal e romanesco.







"O Apanhador no Campo de Centeio" narra a dificuldade de crescer e a negação do personagem a esta nova vida, a adulta. A música ou conto de que gostava "Apanhador no Campo de Centeio" era a única vontade que nutria na vida. Sua ideia de felicidade era ser uma apanhador no campo de centeio e segurar as crianças que pelo campo corriam, a fim de que elas nunca caíssem no abismo (vida adulta). O próprio Holden, a partir desta parábola, revela seu desejo de não crescer, não adaptar-se ao mundo e não seguir todas as regras. A transição da adolescência para vida adulta representava para ele uma horrível passagem e a vida adulta, uma futilidade e hipócrita forma de viver. Holden, de maneira impressionante, não comportava-se com rebeldia na exteriorização de suas palavras. Sua mente era rebelde, mas nunca conseguia dizer algo terrivelmente febril a alguém. Uma contradição em pessoa.






Usando uma linguagem inovadora e perniciosa à época, apresentando as angústias e vícios de um jovem, o sexo sem compromisso com a opinião pública e as normas, e o mais profundo vazio e desesperança de um adolescente que, apesar de ainda não ter vastas experiências, já encontrava-se sem sonhos e perspectivas, "O Apanhador no Campo de Centeio" tornou-se livro universal pela similaridade com o homem e não com seu tempo. É uma obra atemporal. A adolescência e as crises que nela os jovens enfrentam para fazer o rito para fase adulta e os limites e dificuldades que a mente e a personalidade enfrenta para fazer-se forte e madura, ainda, está presente em todas as gerações. Salinger, com um texto cínico, provocativo, esculachado, absolutamente informal criou uma obra - apesar de uma linguagem aparentemente despretenciosa - complexa e única, em que por mais que o leitor não se identifique e compactue com as atitudes de Holden, não consegue não acompanhar o personagem, desejando a cada capítulo saber qual será o fim da jornada deste jovem tão pernicioso e infeliz, mas cheio de dilemas e buscas, como todo ser humano.






Em um mundo cada vez mais capitalista e segregário, vazio em suas buscas, que gera neuroses e angústias profundas para o ter e ser, " O Apanhador no Campo de Centeio" sintetizou e sintetiza a sensação de vazio que muitas pessoas ditas modernas abrigam, em que os sonhos, vontades e felicidades não representam a realidade, a existência do indivíduo. Um livro complexo, penetrante, com personagens moralmente pobres, em que a curiosidade sobre o comportamento dos personagens vigora durante a narrativa  e o (talvez) repúdio ao mundo estranho, imoral e medíocre de Holden acompanha o leitor pela obra. Um pobre garoto rico perdido em seu próprio mundo de mazelas, nos deixando com a sensação que muitos são os Holdens que ainda vivem na sociedade.








quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Seu Nome Era Comum.




 "Os Retirantes", de Cândido Portinari, 1944.



Seu nome era comum, todos sabiam e partilhavam
Tinha uma casa pequena onde vivia e pouco descansava
De dia saía cedo e à noite para casa voltava
Com muito cansaço no corpo e os desgostos que passava



Nutrindo o orgulho ferido e o medo de "chibatadas".
Era uma época estranha, época de escolher candidatos
Candidatos para um tal de Legislativo
Que organiza todo o Estado.



De política nada entendia, mas sabia de sua parcela
Pagava imposto mensal para manter sua bagatela
Do trabalho, não se ausentava, mesmo não tendo bom ordenado.
Ordenado que comprava pouco e lhe dava apenas um punhado



Médico, dentista e professor, só quando o Estado dava,
Pois o punhado que tinha, mal lhe vestia e alimentava.
Educação, saúde e cultura, já tinha ouvido falar
Nas aulas que assistia na escola, antes de labutar



Mas não tinha muito estudo, pois de um tudo faltava
Por isso mal escrevia, pouco conhecia ou  falava
Agora tinha que votar, um voto para Prefeito e um para Vereador
Novas leis criariam para no município determinar



E para as mãos desses homens seu punhado iria parar.
De seu punhado, disseram, que iriam usar:
Para fazer hospital e escola para lhe auxiliar
Assim não veria mais filhos morrer, não



Pela falta de médico e remédio que carece toda nação
Seu filhos iriam estudar e na escola aprender.
Já passara por tantas idades que já sabia votar
Votou tantas vezes que desistiu de esperar,



O tal do Prefeito que prometia tudo mudar
Criando dignidade e trabalho para ofertar.
Já lhe disseram tudo, prometendo novo mundo,
Habitação, estudo e o surgimento de nova condição.



Já sonhou ter sossego, sem medo de perder emprego
E não ter que pedir esmola ou roubar seu pão.
Mas o tal do Prefeito e Vereador que sempre vota
Promete vida de glórias, melhoras e evolução



Mas quando vira Senhor Prefeito, se tranca na sala
Não abraça mais o povo e cumpre nada, não.
Então, se faz mais quatro anos.
Mais crimes e revoltas e desassossegos



Escolas sem livros e mais gente pedindo arrego.
O tal do Prefeito só fala e o Vereador, trabalha, não.   
Só escrevem leis que exigem da população.
Do povo que até abraçou para pedir votos



Visando ser eleito e manter o seu mandato
Para tirar do povo subtrair seus espaços.
De tanto trabalhar não tinha mais esperanças, não
Não acreditava que voto podia mudar uma nação



Muito menos das melhorias que para ele falavam
Garantindo que pelo voto se exercia a liberdade.
Seu nome era comum, todos sabiam e partilhavam
Chamava-se cidadãos e impostos pagavam



A fim de garantir um mínimo que sempre acreditara
Daria dignidade de  vida àqueles que amava.
Já era tempo de voto e não sabia em quem votar, não
Sua esperança era apenas de manter seu pão.



Educação, cultura, saúde, não sabia o que era
Mas sabia que esse tal de voto, nunca lhe trouxera.
De dia trabalhava, de noite pouco descansava.
Para ganhar um punhado que muito não ajudava.



Lhe disseram que a lei obrigava a votar para ser cidadão
Que era precisa votar para consertar a nação.
Agora chegava à eleição e dele lembrava
Não para melhorar sua labuta ou melhorar sua jornada,



Mas para garantir o tal do voto que faria um senhor Prefeito
Que mandaria na cidade e determinaria seus direitos.
E o manteria no local que a sociedade lhe pusera
De pobreza e exclusão, sem privilégios e acessos.



Que vida sofrida, cumprida e danada!
Sem fins nem meios de decidir sua jornada
E bem que ouvia falar numa tal de democracia,
Que dizia que era o povo que tudo decidia.





domingo, 5 de agosto de 2012

Bandido Pobre. Bandido Rico.






Indiscutivelmente tanto os acontecimentos antigos quantos os mais recentes de natureza ilegal e criminal que ocorreram no Brasil tiveram rumos diferentes, nos quais a condição socioeconômica dos envolvidos foram determinantes para a possível solução proposta para cada situação desequilibrada e imoral que afetou de forma particular e coletiva à sociedade. As leis são formuladas para tudo e todos e discursa constantemente o propósito de sua efetividade e ação perante à inconstitucionalidade. De texto complexo e erudição incomum, não permite, muitas vezes, que o homem de poucas letras a interprete de maneira lógica e clara, criando um distanciamento burro entre os homens e seus direitos e deveres. Define, de forma clara, que de todo crime deve surgir uma pena, que o crime, como belamente romanceou Dostoiévisk, deve ter um castigo. Castigo para quem e o que? Teoricamente, dentro de premissas lógicas, para tudo e todos que estiverem à margem do que prescreve a ética legal. Mas, infelizmente, na sociedade brasileira tal interpretação é "retrabalhada" de acordo com o reú representado.






O bandido é de única ação. Negro, branco, amarelo, alto, baixo... se comete um crime, logo é criminoso e como dono de comportamento prejudicial e hediondo, que manifesta-se no coletivo como errôneo e maléfico, deve ser penalmente repreendido  proporcionalmente à sua conduta. Se ilegalidades são crimes, quem comete ilegalidades é criminoso, logo, o crime provém de um criminoso seja ele/ela quem for. Dentro de um raciocínio psicológico e jurídico tão claro e logicamente inteligente, torna-se ofensivo a forma como a "Lei" vem "cuidando" dos constantes casos de ilegalidades em terra brasileira, criando uma barreira gigante ao penalizar o bandido pobre e o bandido rico. A lei executada, não escrita, mas realizada aos olhos do grande povo brasileiro é estritamente esta: a lei do pobre e a lei do rico. O homem/mulher, quando pobre, logo é criminoso punido, vulgar e desmerecido, tratado como escória e, para muitos, ainda se fala na imposição de cortes brutais, como desejam alguns, no absurdo de não serem mais alimentados na unidade prisional. Já o bandido rico é comumente retirado de cena, apartado por ter estudo e defendido por mentes estudadas e preparadas para usar a lei em favor de interesses particulares, mas não éticos e coerentes.







São inúmeros (e atuais) casos de políticos envolvidos com crimes, mas com regras específicas para serem julgados por serem do Legislativo; autoridades que subtraem o máximo possível do povo e, como "pena", somente são remanejados para outros cargos, mantendo altos salários retirados do imposto pago do trabalho árduo do povo. Muitos, reclamam de ter que alimentar o bandido pobre, encarcerado e faminto, propagando a ideia de que direitos humanos, somente para humanos direitos, mas não pensam que estão pagando constantemente não só a alimentação do bandido rico, mas todo seu padrão social de vida de futilidades e elegâncias criadas. O bandido pobre, quase sempre criado próximo a criminalidade, sem estrutura familiar e moral, desde cedo é educado para o crime, para o furtar e deteriorar a vida do outro. O bandido rico, versado em inteligência técnica e informativa, manipula o povo, cria  meios de corrupção e mantém sua jornada, sem culpa, sem pena e incansavelmente repetindo seus erros, com a nossa permissão enquanto cidadão e enquanto povo.





Se não houvesse diferença entre o bandido pobre e o bandido rico, teríamos terra com leis e não essa  terra de lei de mentira, de manipulação e inverdades. Infrator é infrator e lei é para tudo e todos, simploriamente assim. Enquanto o bandito rico se fingir de herói e continuar a prender só bandido pobre, teremos essa lei parcial, prejudicial e injusta, que separa os homens e criam regras de julgamentos diferenciados, em prol de uns e deterioração de outros. Se a lei fosse imparcial, não veríamos o bandido rico sair de seu alto posto e ser reintegrado em posto de autoridade similar, retornando para órgãos de fiscalização e execução legal e continuando a não realizar um trabalho para desenvolvimento do povo; para o engrandecer social de sua nação. Se imparcial fosse, teríamos criminosos respondendo por seus atos; cumprindo pena proporcional a cada ação ilegal e não mais o mito formado da existência apenas do bandido pobre e o bandido rico vivendo na imensa "Terra do Nunca". Bandido rico este, que rouba o povo, é sustentado por ele e ofensivamente ainda diz ser representante dos direitos do homem, mas aniquila estes mesmos direitos diariamente, sendo sustentado pela grande massa pagadora de impostos e afirmando que age na forma da lei. Leis essa de muitas classes e pouca ética, claramente separadas para bandidos ricos e bandidos pobres e cada vez mais distantes da jurisdição dita correta e da humanização buscada para a justiça plena e o equilíbrio social, criando dois sistemas de execução penal, uma para o pobre e outro para o rico, tornando imparcial e injusta a legislação que, mais do que qualquer código social, deveria igualitar e não apartar os homens, deveria utilizar a ética, análise e decisão em favor de todos e não trabalhar na segregação e sofrimento da sociedade.









domingo, 1 de julho de 2012

Histórias Cruzadamente Reais.






O papel e a função da empregada doméstica, recluso e oculto em casas de famílias, está sendo discutido e apresentado de forma real e diferenciada no filme "Histórias Cruzadas", evidenciando as fragilidades, dificuldades e injustiças que ocorrem no trabalho doméstico, a responsabilidade de manter e administrar casas de famílias, enquanto os membros destas, em sua maioria, constroem uma vida estável e sem a necessidade de aplicarem sua força de trabalho em ofício fisicamente dispendioso e remuneração incompatível com a possibilidade de progresso material. Apesar do principal ponto de debate do filme ser o sistema de segregação racial e o desrespeito aos negros, não há como negar que os empregados domésticos, independente da raça, sofreram e sofrem desigualdades e inferiorização em seu ofício. O filme narra o depreciativo sistema de exclusão racial, mas por abranger um tema tão rico e amplo, tornou-se um material oportuno sobre as condições do trabalho doméstico e a realidade dos empregados deste ramo. O filme explana a vida de mulheres que dedicam-se a árdua e ingrata tarefa de serem - como se conceitua atualmente - secretárias do lar, realizando limpezas, preparando alimentos e cumprindo todas as funções para o "funcionamento físico" de uma casa. Retratando uma época mais rígida e segregária do que esta dita "moderna", o filme destrincha os maltratos, a subjugação e a inferioridade que as profissionais domésticas eram (e são) submetidas ao realizarem a nobre tarefa de cuidar, basicamente, da "sujeira dos outros".






Os países ocidentais criticam e depreciam alguns países orientais que se estruturam por sistemas de castas, onde determinantemente a casta inferior deve ser a responsável por cuidar e excercer todas as atividades degradantes, incultas e flagelantes, mas, no entanto, a maioria dos cidadãos ocidentais tratam seus empregados domésticos com desrespeito e os condenam a injusta classificação de inferioridade. Na prática, infelizmente, o que presenciamos é uma sistema de casta estruturado, no qual esses profissionais não tem respeito e nem valor social e profissional. Preconceitos, falta de oportunidades e vítimas de um ciclo repetitivo, em que o acesso ao crescimento material e educacional é constantemente negado, passam a ser a realidade desses profissionais que, em grande maioria, por terem nascido à margem da pobreza e não terem tido possibilidade de uma formação intelectual, tornaram-se mãos-de-obra barata para o Estado, oferecendo seus trabalhos praticamente por toda uma vida, sem terem crescimento funcional e monetário.





O filme, além de apresentar a inferiorização que as empregadas domésticas sofriam (e sofrem), aborda questões relevantes como o preconceito racial, a diferença de classes, as diferenças sociais e humanas que essas mulheres foram submetidas por serem negras, domésticas e a cultura da década de 60. O fato é que não é a função que é incongruente e baixa, mas sim a forma como é tratada e a falta de um plano de carreira que possibilite a essas profissionais (que permitem que outras mulheres e homens possam se afastarem de sua unidade familiar) terem acesso à educação, cultura, saúde e progresso na vida social e financeira. A formulação dos direitos trabalhistas propiciou o surgimento de uma realidade mais justa, estabelecendo o salário mínimo, a necessidade do descanso remunerado e de regularmentar a quantidade que um trabalhador deve e pode oferecer seus serviços, sem prejuízo de sua salubridade, mas isto é apenas o início de uma significativa mudança no âmbito do direito do trabalho que indubitavelmente deve continuar a ser modificado.



Que possa, a despeito de direitos trabalhistas, surgir a consciência do respeito a dignidade de vida humana, despertando às pessoas para a conscientização de que, só podem se ausentarem de suas casas, para trabalharem, multiplicarem seu dinheiro, estudarem para alcançar oportunidades e melhoria, pois há a existência dessas personagens, as empregadas domésticas, que cumprem atividades que outros profissionais consideram degradantes, sujas e pequenas, limpam as sujeiras de seus patrões e tem como retorno, um pobre e medíocre salário no fim de mês, desconsideração social, segregação jurídica, a constante inferiorização por serem pobres; sendo consideradas muitas vezes aptas a cozinhar para o empregador, mas não de sentarem-se à mesa para compartilharem a refeição que elas mesmas prepararam. Uma função relevante, que participa diariamente da vida de milhões de cidadãos, mas não é vista e tratada como profissão, como atividade importante que permite que milhares de pessoas possam construir uma vida mais estável profissionalmente. Uma atividade secular que não teve desenvolvimento social e legislativo, ficando estagnada e definida como função degradante e própria para pessoas de pouca escolaridade, mas que, mesmo permeada de dificuldades, fazem mulheres fortes, valentes e segregadas, não terem vergonha de saírem diariamente de suas casas, deixarem seus filhos em prol de muito pouco para sua subsistência, enfrentarem humilhações e precariedades, mas firmes e precisas no propósito de manterem suas famílias e conquistarem dignidade de vida, mesmo sendo, ainda, uma dignidade precária e injusta.






sábado, 23 de junho de 2012

Comunicação: Deformando Opiniões.






Seria incerto dizer que o Jornalismo está se deteriorando e sendo constantemente direcionado para a formação de uma mídia superficial e idolatradora de notícias pouco produtivas, pois a ideia de um produto barato surge quando paralelamente pode-se conhecer o que seja qualidade, de forma que o jornalismo deveria, em determinado momento, ter alcançado a excelência para ser, hoje, definido como precário e desarticulado. Logo, um produto ruim é considerado como tal porque temos a ideia do excelente, do perfeito. O surgimento de bons jornalistas ocorre constantemente, mas a excelência do Jornalismo e seus operários tem sido um quadro raro no mercado, de forma que será possível dizer que o Jornalismo está defasado, quando ele nunca foi realmente excelente? A degradação só é possível em um produto inteiro, bom, que, com o tempo, foi sucumbindo as pressões externas e aniquilado e deteriorado por diversas causas. Nesse sentido, a comunicação nunca foi produto inteiro, inteligente, maduro e pertinente, de forma que ela não está ruim, está, na verdade, há tempos, sem evolução e credibilidade. A linha de comunicação contemporânea e a forma como ela se desenvolve afirma, em cada notícia, programa e escrita, que ela é realizada sem questionamentos, reflexões, criatividade e preocupada em alimentar cultura, intelectualidade e formar mentes aptas a opinar e agir de acordo com a congruência, criticidade e reflexão.






A comunicação levanta diariamente a bandeira de sua importância, definindo-se como "formadora de opiniões". Se a grande massa de comunicadores tem sido os responsáveis pela formação social e intelectual do povo brasileiro, está claramente explicado o porquê de tanta mediocridade, irreflexão e falta de posicionamento para compreender a vida e a sociedade como tarefa coletiva, de/para todos. Proprietária de um poder global, os meios de comunicação perpetuam novas regras, endeusam pessoas, criam novas forma de consumo e fazem todas as mentes e opiniões seguirem os termos aplicados, sem nenhum tipo de indagação. O belo só pode ser de uma forma, o elegante de outra, a felicidade é viver como determinada pessoa... e todos buscam copiar as novas fórmulas, receosos de não se realizarem com as prescrições desse mundo externo. Os textos, gradativamente esdrúxulos, atacam de forma veemente as pessoas, as notícias de celebridades criam mitos de consumo, a crítica, tão bem formulada por Voltarie, José de Alencar e um número significativo de pensadores modernos, hoje, na pequena visão das pessoas, deve ser ofensiva, agressiva e briguenta; não se fazem críticas como antigamente, com argumentação, propriedade, inteligência e objetivos, visualizando o erro e propondo solucioná-lo. Hojé a crítica é fofoca, é ofensa física e emocional que não constrói argumentos e pensamento, só raiva e impulsividade.







Dentre as imprecisões e improdutividades, a exposição é a chefe. Não há pudor em mostrar as fragilidades das pessoas, as colocando em posição de vitrine. Quantos jornais, de tv e impressos, não ostentam imagens desnecessárias que só informam tolices e não se preocupam em educar à sociedade. A crise da dependência química e do alcoolismo são pertinentemente abordados de forma superficial e desumana, em que um dependente, portanto, doente, é mostrado na tv sem nenhum pudor. Pessoas sendo expostas alcoolizadas, "artistas" compactuando-se com a comercialização de sua vida íntima a fim de lançar novas forma de consumo e padrão de vida, programas sem propósito, entreterimento que fere e empobrece a formação crítica, já escassa de recursos realmente cultos e estimulantes. A comunicação, de fato, vem desservindo à população, criando um monopólio de ideias e ideais, fazendo grandes redes televisivas serem as propagadoras de informações e determinadoras do dia-a-dia do brasileiro.






Incentivador da formação de opinião para propósitos essencialmente capitalistas e gerando novos consumidores alucinados pela busca da satisfação, o jornalismo atual deforma a mentalidade do homem, criando informações improdutivas, pobres, que não forma corretamente e desarticula o saber, lançando às mentes para o raciocínio deformado do ser, do ter e do saber. Jornalismo e Jornalistas que não permitem que o indivíduo forme sua opinião, já fornecendo o seu pensar, noticiando de forma cínica, ao seu entender, aniquilando a possibilidade do indivíduo assimilar as informações e gerar a sua opinião, segundo seus valores, pois a notícia vem manipulada de acordo com a (pequena) visão do seu propagador. Um emaranhado de apóstolos do saber que invertem sua missão e empobrecem e danificam os meios de comunicação, o jornalismo, e oferecem ao espectador, cansado do seu dia e do seu pensar, informações instantâneas e prontas para manter a mente do homem na sua ignorância e o seu eterno aceitar.






quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Povo Brasileiro.




O eminente escritor Darcy Ribeiro foi sociólogo, pensador, implantador da instituição "Universidade de Brasília" e, para nosso orgulho, brasileiro, politizado, intelectual, crítico e atuante nas principais questões de conflitos sociais que afetam o povo, o país. É autor de livros conceituados e pertinentes para formação intelectual de estudantes e cidadãos que objetivam ampliar sua visão política e social sobre à sociedade. Dono de uma visão inteligente e aguçada, consegue transferir para seus escritos suas idéias avançadas e críticas formuladas sobre o sistema social. O livro "O Povo Brasileiro", de sua autoria, foi tão ousado e corajoso que a princípio poderia ser considerado um livro altamente pernicioso para o determinante domínio da cultura de classes, em que uma minoria é absolutamente favorecida em detrimento de milhares de miseráveis. De natureza crítica e sagaz, o livro sintetiza, na magnífica visão sociológica de Darcy, à formação do povo brasileiro a partir de sua formação histórica, política e cultural. Permeado por inúmeras considerações sobre a criação de uma sociedade classista e racista, narra a subjugação do índio, que foi interpretado como ser imoral, do negro, que foi tratado como máquina de serviço e do branco, identificado como ser religiosamente, politicamente e culturalmente avançado para meio tão "pervertido e ignorante".






O desejo ou busca genuína de pesquisar e escrever palavras que reunissem várias considerações sobre as desigualdades e diversidades do Brasil, surgiu em 1964, quando ao retornar do exílio - por questões políticas - observou a necessidade de buscar respostas exatas sobre o porquê do Brasil ainda não ter dado "certo". Elaborado o questionamento, esforçou-se por entregar-se a metodologia de estudo, a fim de obter resultados significativos e respostas proporcionais ao tamanho desta  pesquisa (absolutamente complexa, de fato). Decorrido muitos anos, pois nosso pensador não era imediatista e leviano em suas argumentações, nasceu "O Povo Brasileiro", que caracteriza a rica cultura brasileira, transplantada da lusitana e diferenciada pela integração da cultura pastoril, através do índio, africanizada, através do negro, mas, ao mesmo tempo, desindianizada e desafricanizada, formando uma nova unidade cultural. Unidade esta baseada nos valores desses dois povos (índios e negros), dominados e direcionados pelos colonizadores. O caboclo, sertanejo, criolo, gaucho e caipira (as grandes camadas de interação do Brasil) foram formados pela condensação social desses povos, sendo que cada vasta região foi alterada em seu perfil cultural e social pela determinação econômica, ecológica, pela imigração de povos europeus e pelas condições do próprio local.






"O Povo Brasileiro", tão simples e atraente em seu título, guarda complexidades sociológicas em seu escrito, sendo um pouco de história, um tanto de sociologia e uma grande crítica social, apresentando uma teoria explicativa sobre as deficiências do país ocasionadas pelo processo de formação do povo, a fim de explanar as nuances e as desigualdades surgidas a partir dos princípios de formação do Brasil. Um país rico em recursos naturais, de arbóreas de cor brasa, portanto, definidas como Brasil, que aniquilou duas culturas sofisticadas e preparadas para viver no meio ambiente mais do que qualquer nobre europeu: os índios e os negros. Um país segregário, idolatrador da cultura externa desde o início da sua formação civil, que marginalizou e marginaliza o pobre, sendo este o grande colaborador da economia brasileira, mas uma nação rica em cultura e criativo no seu existir. Um povo de raça, parido de uma forma bruta de dominação, mas que conseguiu cumprir seu feito: fazer-se um povo, dentro de seu território e construir-se como gente, de forma peculiar. Gente índia, branca e negra que aglomerando-se nos espaços, aculturando seus saberes e fundindo-se culturalmente seus códigos de moral, originaram o vasto, rico, bonito e diverso território brasileiro; o povo brasileiro.